No Táxi do Jack

 No Táxi do Jack

Em 1976, o cineasta Martin Scorsese fez o até hoje lembrado Taxi Driver, um filme que falava de violência e decadência através do olhar do motorista Travis Bickle (Robert De Niro). Antes de tudo, que fique claro que a única semelhança entre o filme de Scorsese e o carismático No Táxi do Jack é, puramente, o ofício do personagem principal. Bem, quase isso, já que o filme de Susana Nobre — que de forma bastante metalinguística, abre o filme apontando uma câmera para seu astro — traz algumas semelhanças na estética e até mesmo um aceno ao cinema do aclamado diretor, mas narrativamente, as obras não poderiam ser opostos mais distantes.

A obra bebe da própria vida do protagonista para desenhar sua narrativa. Joaquim Veríssimo Calçada, ou simplesmente, Jack, vive um homem próximo de sua aposentaria que, para garantir seus direitos, precisa provar que está a busca de um emprego, mesmo com a certeza de que não voltará a trabalhar. Seu refúgio são suas memórias, vividas enquanto trabalhava como taxista e também como motorista de limusine nos Estados Unidos. Através destas memórias, contadas com visível carinho, Jack nos conduz pela obra que passa tão rápido como quando engatamos em uma boa conversa. São nestes diálogos que ele nos conta, todo orgulhoso, da vez que conduziu “Jacqueline Kennedy e Muhammad Ali“, ou sobre como era levar os magnatas de Wall Street. Também olha, com certo pesar, para a crise econômica do país.

No Táxi do Jack

Deste sentimento nostálgico, surge o aspecto estético citado no primeiro parágrafo, já que a obra se passa em 2019, mas é até surpreendente descobrir isso — ainda no começo do filme —, já que a diretora opta por uma imagem com ruídos que evocam a década de 70, como se No Táxi do Jack fosse uma obra mais antiga. Da mesma forma, o próprio protagonista soa como um homem de outros tempos, não apenas no seu visual — um topete no estilo Elvis Presley — e suas roupas, mas também na forma cortês de se portar diante dos outros, sempre gentil com todos com quem interage, mas principalmente com seu amigo, cadeirante e deficiente visual. São poucos momentos que os vemos juntos, mas o suficiente para reforçar o carisma abundante de Joaquim.

Enquanto Jack abre a porta de seu passado, convidando-nos a passar por ele, Nobre utiliza sua câmera em travellings pacientes que conduzem o espectador como se este assistisse o mundo de dentro do táxi. É uma opção visual bastante interessante e que complementa bem o fio narrativo e a narração do protagonista, criando todo um charme próprio para a obra. Este charme é ainda elevado tanto pelo trabalho de cores, desde o figurino de Jack até os prédios e paisagens que a diretora escolhe trazer para o “tour”, como também pela trilha sonora, que volta e meia retoma a melodia — em uma versão mais lenta, no saxofone — da canção Unchained Melody, música que, é claro, já fora interpretada pelo icônico Elvis Presley. São pequenos detalhes que vão construindo e alimentando as crônicas do protagonista.

No Táxi do Jack

Há uma notável influência da cultura americana dentro da obra. A começar da “americanização” do nome do protagonista, além da já citada referência a Elvis Presley — carregada por Joaquim fora da obra —, existe a própria influencia linguística, já que mais de uma vez Nobre ressalta o empenho de Jack em aprender a língua inglesa — a cena das moedinhas é ótima —, e é claro, um dos melhores momentos do filme, quando o protagonista vai cobrar uma dívida — único momento que o protagonista perde a calma — e a ambientação da sequencia é construída de forma única dentro do filme. Dos figurinos, à fotografia vermelha e até mesmo uns detalhes no cenário — a carta de baralho —, a diretora presta uma visível homenagem à obras como Cassino. E o fato do devedor ser “um amigo irlandês” é apenas outras dessas divertidas coincidências que acabam encorpando a obra e tornando-a ainda mais divertida.

No Táxi do Jack aproveita sua ambientação e extrai o máximo do carisma de seu protagonista para driblar alguns problemas que poderiam prejudicá-lo, como a montagem que prioriza takes mais longos ou mesmo a ausência de um clímax propriamente dito, já que não existe um conflito aqui. Isso porque a diretora se blinda ao realizar algo que se enraíza na realidade como um tipo de documentário — mesmo que sua estrutura dramatize a narrativa —, movendo sua trama adiante como uma anedota, ou uma crônica de fato. Não há necessidade de uma risada final, uma punchline — como Jack provavelmente diria com seu inglês engessado, mas bastante claro —, pois a história fecha em si própria. Ela não precisa de uma razão para existir, ela apenas existe. Simples, divertida, com momentos difíceis, mas não necessariamente com um clímax grandioso a ser superado. Só mais um dia na vida de um motorista. E o que se segue após vermos seu olhar cansado pelo retrovisor e ouvirmos uma fanfarra ao fundo, é somente isso: a vida acontecendo.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também