No Ritmo do Coração

 No Ritmo do Coração

Há muitas questões que giram em torno de refilmagens que sempre vem à tona quando alguma é anunciada, principalmente se tratando de obras de língua não-inglesa que ganham uma adaptação ou versão feita em Hollywood. No Ritmo do Coração (CODA) é um desses casos, sendo uma refilmagem do francês A Família Bélier, de 2014. Se normalmente há uma questão quase puramente monetária e cultural envolvendo as refilmagens — “americanos não gostam de ler legendas” é uma frase comum quando se fala sobre o assunto —, a obra de Sian Heder traz consigo outro aspecto bem interessante de se pensar, pois ao trazer uma narrativa que envolve uma família de surdos, muitos dos diálogos se dão através de linguagem de sinais, que é diferente em cada idioma. Ou seja, para um filme cuja temática principal fala de comunicação e inclusão, No Ritmo do Coração justifica sua existência por si só.

É bonito constatar como o conflito principal da obra é construído com cuidado já na primeira cena do filme, que mostra a protagonista Ruby (Emilia Jones) trabalhando em um barco pesqueiro com seu pai e seu irmão, enquanto canta Something’s Got a Hold On Me de Etta James. Isso antes do filme estabelecer de forma direta que a garota é a única ouvinte em uma família de surdos — CODA é a abreviação de children of deaf adults, algo como “filha de pais surdos” — e que boa parte de sua vida gira em torno de auxiliar sua família a viver em uma sociedade que não parece ter a menor preocupação em ser mais inclusiva. Quando seu amor e talento para a música e sua responsabilidade com a família se chocam, No Ritmo do Coração ganha uma profundidade e uma sensibilidade fortes o suficiente para torná-lo mais do que apenas mais um coming-of-age

E é uma “blindagem” necessária, já que boa parte do desenvolvimento de No Ritmo do Coração segue a cartilha do gênero à risca, o que o torna bastante previsível em quase todas as suas viradas. E talvez por ter isso em mente que a diretora acertadamente opta por focar-se nos aspectos que diferenciam sua obra de tantos outros filmes de amadurecimento e também evita que o filme force a barra em busca do sentimento do espectador — o tiro sai pela culatra sempre que fica claro que uma obra está se esforçando para ser emocionante —, com todas as emoções provocadas surgindo naturalmente no decorrer da obra. E o melhor disso é como tais momentos ganham certa universalidade, como quando perguntam à Ruby o que ela sente ao cantar: não é preciso entender o que ela diz para captar o que ela expressa.

A humanidade de No Ritmo do Coração se manifesta até mesmo na forma que o filme apresenta um contraponto à família da protagonista, com cuidado para trabalhar o conflito sem precisar recorrer a um antagonista, pois muito do sentimento da obra depende, de fato, de haver uma empatia entre o espectador e a família de Ruby. No caso, este contraponto vem representado pelo professor de música Bernardo Villalobos, vivido por Eugenio Derbez, que enxerga e incentiva a garota a explorar seu talento e é o primeiro a questionar se ela tem algo a dizer com aquela voz. Uma forma interessante de estabelecer o drama da protagonista, que cresceu sendo a voz de sua família, mas nunca desenvolveu sua própria voz no sentido de explorar o que ela sente e quer. E quando encontra sua paixão, não é algo que possa explicar ou transmitir facilmente aos pais e irmão.

Heder vai construindo este drama aos poucos, sem apressar as coisas e fazendo com que No Ritmo do Coração soe mais leve do que o esperado. Entretanto, quando a obra recorre ao drama, não é necessário muito para atingir o espectador. A obra inclusive assemelha-se ao que fora realizado em O Som do Silêncio — que também aborda a surdez, mas de um ponto de vista diferente — ao utilizar a mixagem de som para potencializar um dos momentos mais intensos do filme, quando vemos Ruby se apresentar pela primeira vez. É um momento que ganha ainda mais nuances pelas grandes performances de Troy Kotsur, Marlee Matlin e Daniel Durant, trinca que surpreende em momentos dramáticos e se sobressai ainda mais nas cenas cômicas, principalmente a dupla Kotsur e Matlin que protagonizam os momentos mais engraçados do filme.

Aliás, é notável também como cada um dos atores — surdos na vida real — acrescenta à obra, principalmente por cada um representar um viés diferente ao conflito principal: o pai (Kotsur) acredita na filha, mas ainda precisa dela, já a mãe (Matlin) se preocupa que ela possa se decepcionar com seus sonhos, enquanto as reações do irmão (Durant) abordam mais sobre a forma como pessoas que convivem com deficiência são tratadas dentro de uma sociedade que tende à ser condescendente de forma desdenhosa. Este aliás é um aspecto importante de No Ritmo do Coração, já que a questão da surdez nunca é tratada como muleta para diminuir esses personagens, pois — felizmente — a obra não ri deles e não os trata como vítimas. A própria dificuldade em comunicar-se exposta na narrativa diz mais sobre como a sociedade é exclusiva do que sobre a capacidade das pessoas surdas.

Bastante emocionante, No Ritmo do Coração não escapa de ser clichê, mas isso passa longe de ser algo negativo como pode soar. A forma como Sian Heder dribla as limitações da narrativa, por sinal, valem o elogio, pois o resultado impressiona e cativa mesmo que o espectador consiga antever o desfecho. Sua jornada é interessante e também surpreende pelo uso da linguagem de sinais, que não se mostra apenas uma questão de inclusão, mas também pela forma como a narrativa se constrói através disso, compondo sequências visualmente interessantes — como a apresentação final — e que aquecem o coração. Certamente um dos filmes mais significativos dos últimos anos, provando que uma obra não precisa se provar inteiramente original para ser verdadeiramente inspirada.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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