Não Olhe Para Cima

 Não Olhe Para Cima

Egresso de comédias pastelonas como O Âncora e Ricky Bobby: A Toda Velocidade, Adam McKay chegou ao “cinema de gente grande” com certo louvor, agradando ao público e a crítica ao abordar temáticas mais sérias e complexas de forma mais simplificada através de sátiras bastante ácidas, como o caso de A Grande Aposta e o mais recente Vice. Com uma assinatura muito distinta, McKay é o típico diretor cuja filmografia pertence à extremos: parte do público ama e a outra odeia, sendo difícil haver um meio-termo. Por isso mesmo que Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up) surge com certa expectativa, não apenas pelo grande elenco reunido pelo diretor, mas também por, diferente de suas duas produções anteriores, alinhar — aparentemente — seu estilo próprio com uma narrativa menos pé-no-chão e mais voltada para a ironia como causa, e não como sintoma.

Longe de trazer um estilo regido pela sutileza — desde sempre —, McKay encontra em uma narrativa original — mas devidamente pautada em uma realidade tão ridícula que beira o inacreditável — o material perfeito para sua acidez, sem transparecer a intenção de colocar-se acima do próprio produto, ou de tentar fazer com que o texto pareça mais inteligente do que é. Basicamente, Não Olhe Para Cima conta a história da descoberta de um meteoro que se chocará com o planeta Terra e, consequentemente, irá exterminar a vida no planeta. Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence vivem a dupla de cientistas que fazem a descoberta nada feliz e tentam alertar sobre o perigo que está por vir. Mas em uma época onde a eficiência de vacinas e até o formato do planeta é questionado por parte da sociedade, o que se pode esperar de um cenário como este?

Sempre hábil em costurar narrativas de forma rápida, inserindo um sem-número de piadas fora de contexto — que funcionavam muito melhor em críticas mais abobalhadas como O Âncora do que em obras pseudo-intelectuais como Vice —, McKay abraça com louvor todos os aspectos mais bizarros da cultura da desinformação que fugiu do controle nos últimos anos. Com isso, o diretor não poupa alvos em sua obra orquestrada com um cinismo invejável, repetindo às críticas à elite — na figura do irritante personagem vivido por Mark Rylance — e ao governo — com os personagens de Meryl Streep e Jonah Hill —, mas trazendo em Não Olhe Para Cima camadas diversas ao englobar toda uma sociedade que dividem-se entre os negacionistas do meteoro e aqueles que reconhecem o perigo, e consequentemente, aceitam a inevitabilidade do impacto.

Não Olhe Para Cima

Separar algumas cenas para mostrar aspectos como a influência da mídia neste processo é interessante, não apenas pelo jogo da cortina de fumaça e sensacionalismo — novamente tecendo mais uma crítica — como também pelo impacto que os personagens de Tyler Perry e Cate Blanchett — principalmente esta última — exercem no desenvolvimento dos personagens principais. Para isso, entretanto, nenhum personagem evoca a atmosfera da estupidez como Ariana Grande, em uma espécie de auto-paródia, interpretando uma influenciadora que também se envolve diretamente nesta função da mídia dentro da narrativa. E vale essa delimitação de críticas — elite, governo e mídia — porque a própria estrutura do roteiro cria esta separação, satirizando-as separadamente e em conjunto para tentar desvendar, sem muito compromisso, a fórmula da imbecilidade que parece dominar cada vez mais.

De muitas formas, Não Olhe Para Cima é uma obra que nasce vencendo pelo cansaço. A esta altura, enfrentando uma pandemia mundial e governos imbecilóides, o público já está um tanto saturado do bom-senso. E se o otimismo é um sentimento em extinção, ter contato com uma narrativa que simplesmente abraça o cinismo para lidar com isso é quase um alívio, uma forma de exorcizar um sentimento coletivo que vem de debater discussões tão ridículas que ainda carregam consigo aquele sentimento de “melhor ter paz do que razão”. Entretanto, embora afiada — até certo ponto —, a crítica que o diretor tece aqui também soa demasiadamente polida. Jogando em terreno seguro, afinal, McKay não se arma do mesmo humor incômodo que pontua bem o texto de A Grande Aposta e Vice, por exemplo, ainda que se saia melhor aqui quando considerado o conjunto completo.

Este aspecto salta mais aos olhos durante o ato final, onde a narrativa se encaminha para um desfecho que já não consegue utilizar tão bem esta veia cínica que fora construída por todo o filme. Resta, à McKay, trazer um ar um pouco mais emocional para sua obra, ainda que isso funcione conceitualmente, mas vá contra o tom desenvolvido nos dois primeiros atos. Este fechamento — e a necessidade de fazer algumas curvas dramáticas bruscas para chegar até ele — faz com que o ritmo, até então hiperativo, da obra ceda espaço para um trabalho mais voltado aos diálogos, e não à montagem, passando a impressão de que o terceiro ato, em comparação aos demais, torna-se mais longo e arrastado. Ainda assim, é um desfecho interessante, até ousado, para um diretor que geralmente opta por encerrar suas obras sempre com um tom acima da loucura instaurada no seu decorrer.

Não Olhe Para Cima

Com críticas que se pautam diretamente em problemas reais e personificados tão bem por figuras-chave da sociedade, o elenco reunido por McKay se sai bem, mas com uma ou outra exceção, não parece ir muito além da sátira, fazendo com que Não Olhe Para Cima ganhe ares de uma grande sketch de um humor extrapolado, tal qual às vistas no Saturday Night Live. Enquanto Meryl Streep e Cate Blanchett trazem interpretações incríveis, mas não soam completamente à vontade, DiCaprio e Lawrence compreendem bem as camadas de seus personagens e entregam momentos memoráveis. O destaque, entretanto, fica para Jonah Hill — que já trabalhara antes com o diretor —, único que parece conseguir se entregar à sátira caótica proposta, mas sem destoar ou soar contido no papel.

Até menos ácido do que o esperado, Não Olhe Para Cima acerta o tom de sua paródia e consegue engatar um humor que realmente faz rir, não por usar o sarcasmo como uma muleta para soar mais inteligente, mas sim por ridicularizar uma sociedade com comportamentos já inacreditavelmente estúpidos. Fosse um pouco mais além, McKay poderia ter realizado um filme ainda mais potente, mas sem dúvidas entrega algo com muito potencial para gerar burburinho e debates ao longo do tempo. E talvez daqui a uns anos, quando as pessoas estiverem tentando compreender a epidemia que tomou o mundo pouco antes de 2020 — não a epidemia de COVID-19, mas sim a da estupidez generalizada —, Não Olhe Para Cima servirá como um objeto de estudo desses tempos tão sombrios e que, sem nenhum meteoro, já parecem suficientemente catastróficos.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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