Na Mira dos Assassinos

 Na Mira dos Assassinos

Marcada pela ausência de vilões icônicos — Octopussy e Jaws são exceções, porém nenhum deles é o principal antagonista dos filmes em que estão presentes —, a fase-Moore carecia de um vilão que fizesse jus à Bond e fosse digno de estar ao lado dos grandes algozes do espião. Felizmente, ver o nome de Christopher Walken nos créditos iniciais de Na Mira dos Assassinos (A View to a Kill) — ao som da ótima música homônima entoada pela banda Duran Duran — cria uma expectativa que não é desperdiçada: Zurin, personagem de Walken, é o mais interessante e assustador vilão enfrentado pelo James Bond de Moore até aqui. E, apesar de não parecer, isso diz muito, pois aparentemente a qualidade dos filmes do espião britânico estão intrinsicamente atreladas à qualidade de seus vilões.

Contando com o retorno de Moore como o espião com licença para matar e também do diretor John Glen — que assina os filmes da franquia desde Somente Para Seus Olhos —, Na Mira dos Assassinos dá o tom de sua narrativa com ares mais contemporâneos, seguindo o rastro de uma ameaça envolvendo a tecnologia de microchips e também alterações biológicas — através de esteroides — ao passo que a obra traz velhos costumes de volta: o perigo de explosões nucleares pincelando o clássico — para não dizer batido — conflito EUA/Rússia. Temáticas já abordadas em diferentes filmes da franquia, mas que são complementados por uma sensação clara de avanço no tempo. Aliás, este é um dos aspectos mais interessantes de uma jornada tão antiga quanto os filmes de 007, a noção do avanço da história do mundo e como isso se reflete nas narrativas contadas.

Na Mira dos Assassinos

Glen, que trouxera uma uma atmosfera menos cômica para o espião, ainda que mantendo suas tiradas mais ácidas, encontra em Na Mira dos Assassinos seu ápice enquanto diretor, evitando problemas que tiveram em suas duas obras anteriores da franquia. O terceiro ato do filme é bem menos inflado e apresenta uma sequência bem mais equilibrada do que o clímax de Octopussy, e seus coadjuvantes e antagonistas são bem mais interessantes do que os apresentados em Somente Para Seus Olhos, principalmente se tratando dos vilões. Afinal, além do ótimo Zurin, personagem que possui uma presença distinta em cena, com uma atmosfera realmente ameaçadora — sem que a equipe de maquiagem recorra a uma aparência desfigurada, algo comum na franquia —, há também o devido capanga icônico, ou neste caso, icônica: May Day, vivida por Grace Jones, suficientemente marcante por si mesma e não apenas como uma extensão da ameaça principal.

E ao passo que o diretor não repete erros cometidos, Glen mantém em Na Mira dos Assassinos alguns acertos, principalmente no que tange à sequências de ação divertidas de acompanhar. Momentos como a abertura na neve e o clímax são ótimas cenas, mas o maior destaque fica para a cena do “hipismo”, bastante divertida de acompanhar. Outros momentos tornam-se marcantes pela simples presença dos personagens, como a cena do leilão onde Bond percorre conhecendo as pessoas e depara-se, pela primeira vez, com Zurin. O diálogo, simples, torna-se interessante pela presença de Walken e Moore em cena, que a esta altura já dominou sua persona como James Bond e demonstra estar bem à vontade no papel, encontrando o equilíbrio entre o Bond original — de Sean Connery — com uma identidade própria para si, sem descaracterizar o personagem.

Na Mira dos Assassinos

Um dos aspectos em que Na Mira dos Assassinos deixa a desejar, entretanto, é justamente na coadjuvante feminina. A fase-Moore tem o mérito de entregar algumas das melhores Bondgirls até então, mas infelizmente a personagem interpretada por Tanya Roberts é uma dos mais insípidos pares românticos do personagem. Apesar de muito bonita, sua personagem é pouco valorizada pelo texto, sem uma personalidade distinta e tampouco com uma boa atuação por parte de Roberts e a obra perde muito quando foca em momentos entre a personagem em Bond no final do segundo ato, gerando alguns momentos esquecíveis que só não desaparecem por completo devido à uma sequência de ação envolvendo uma perseguição nas ruas de São Francisco.

Alternando alguns momentos interessantes com outros esquecíveis, Na Mira dos Assassinos mostra um bom amadurecimento de John Glen na direção enquanto contempla um James Bond muito mais acertado no quesito atuação, com um bom Roger Moore em cena. Sua trama mirabolante é elevada a um clímax inverossímil — ainda que contido ante às alguns confrontos finais mais megalomaníacos —, mas mantém-se firme graças ao bom trabalho no desenvolvimento do vilão interpretado por Walken. E se não é dos melhores filmes do espião, mostra-se como uma obra suficientemente divertida a ponto de destacar-se entre os filmes protagonizados por Moore.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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