Mulher-Maravilha 1984

 Mulher-Maravilha 1984

Sendo um dos poucos consensos entre público e crítica, Mulher-Maravilha foi o primeiro filme do universo estendido DC a se afastar do tom atribuído por Zack Snyder ao — tentar — estruturar uma franquia única com os heróis da editora. É curioso, portanto, que Mulher-Maravilha 1984 (Wonder Woman 1984) chegue ao público quase como uma síntese dos erros e acertos ocorridos nos sete anos passados desde o lançamento de Homem de Aço, ao passo que encontra no passado distante — mais precisamente no Superman de 79 — os caminhos a serem trilhados no futuro.

Novamente sob o comando de Patty Jenkins, a continuação deixa o cenário da primeira guerra mundial para trás, optando por apostar na icônica década de 80, mas só após uma introdução que mostra a heroína ainda criança (interpretada pela fofíssima Lilly Aspell) aprendendo uma lição que será devidamente reiterada pela narrativa ao longo de seus 155 minutos. Inclusive, a mensagem de “heróis de verdade não nascem de mentiras” veste bem uma obra cuja protagonista, de uma forma ou outra, é uma estranha no “mundo dos homens”, onde mentiras e falsas-verdades parecem ser cada vez mais normais para que estes conquistem suas ambições.

Esse contraste é também utilizado para estabelecer a relação de Diana (Gal Gadot) e os antagonistas, Max Lord (Pedro Pascal) e Bárbara Minerva (Kristen Wiig), vilões cujas origens estão ligadas a esse preceito de conquistas falsas ou através de mentiras e manipulações. Dessa forma, os personagens não apenas se opõem pelos seus objetivos, mas também por suas ideologias, fortalecendo o conflito da dupla com a heroína. Algo que, infelizmente, não é totalmente aproveitado pela diretora para compor as cenas em que Diana enfrenta Max ou Bárbara, já que o filme sofre com a escassez de cenas de ação e problemas com os efeitos visuais nestes momentos, principalmente no confronto final entre Diana e Bárbara — já transformada em Mulher-Leopardo —, cujo CGI ruim da vilã é disfarçado com uma fotografia exageradamente escura, que esconde a cena quase que por completo.

Mulher-Maravilha 1984

A escolha dos anos 80, embora não seja tão clara — sente-se a ausência, por exemplo, de músicas icônicas da década —, mostra-se um acerto dada a escolha estética de Jenkins, que faz de Mulher-Maravilha 1984 uma grande e divertida cafonice, como se o filme realmente fosse produzido no ano em questão. Ao mesmo tempo, a diretora aproveita para realizar rimas visuais e homenagens, inserindo pontuais referências à obras como o já citado Superman de Richard Donner e Batman: O Retorno de Tim Burton. Estas cenas, algumas das melhores do filme — a pós-créditos, inclusive, aquece o coração —, são um verdadeiro tesouro escondido na produção. Abre-se mão, entretanto, da atmosfera grandiosa do primeiro, que remetia diretamente às epopéias protagonizadas por grandes heróis da mitologia, em prol de uma trama mais mundana, fazendo com que a continuação seja bastante distinta — em estética e tom — do anterior. 

Contudo, o longa sofre com a montagem executada, atribuindo um ritmo inconstante e episódico à obra, além de possuir erros de continuidade que chamam muita atenção, como na sequência de ação do Egito. Com uma duração extensa e muitos personagens e núcleos a serem trabalhados, o primeiro e segundo ato soam demasiadamente lentos enquanto o terceiro não parece ter tempo suficiente para administrar o megalomaníaco clímax. Nesse meio, quem sai prejudicado é Chris Pine, cujo Steve Trevor nunca parece ter, de fato, lugar na trama. O personagem entra e sai de cena com uma velocidade digna dos deuses, sendo apenas um recurso fácil para atribuir vulnerabilidade à Diana e sem ter uma função narrativa relevante para o enredo. Não bastasse isso, Jenkins não consegue repetir a piada do peixe fora d’água com a mesma graça do primeiro filme, pois falta a Trevor algo que contraste com sua ingenuidade, diferente de Diana cuja herança divina impede que a personagem se torne boba ou simplesmente desinteressante.

Mulher-Maravilha 1984

Apesar disso, é no elenco que Mulher-Maravilha 1984 se sustenta. Gal Gadot mostra-se uma escolha excelente para o papel da amazona, passando a dose certa de doçura e força que sua personagem requer. A veterana Kristen Wiig e o versátil — e atual “ator-coringa” de Hollywood — Pedro Pascal também entregam bem o que lhes é exigido, embora a atriz que fez sucesso no Saturday Night Live, ainda que de longe a melhor atriz do elenco, seja também a mais subaproveitada destes. Há uma promessa em sua personagem que não chega a se cumprir de fato e fica o desejo — ainda que bastante improvável — de rever Bárbara Minerva em um futuro terceiro filme.

Com problemas de outrora — um terceiro ato apressado, CGI ruim, lutas pouco inspiradas — e acertos inesperados, Mulher-Maravilha 1984 infelizmente fica aquém do que fora apresentado antes ou mesmo das reflexões a que se propõe causar. Entretanto, passa longe de ser um filme esquecível, pois Patty Jenkins é uma verdadeira entusiasta do subgênero que conduz e os melhores momentos do filme refletem isso. Cabe aguardar que a próxima aventura da heroína, já nos tempos atuais, se afaste de vez dos problemas do universo estendido DC e traga essa paixão não apenas em momentos pontuais, mas no todo. Dessa forma, talvez tenhamos um filme que finalmente entregue a apoteose máxima para a personagem. Ela merece.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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