Morte no Nilo

 Morte no Nilo

Não é comum filmes que precisam fazer um grande malabarismo para chegarem à tela dos cinemas — ou streaming — em meio a tantos problemas quanto os enfrentados por Morte no Nilo (Death on the Nile). Adiado mais de uma vez devido à pandemia, a produção viu as polêmicas se acumularem por trás das câmeras devido aos posicionamentos controversos de seus astros — Gal Gadot e Letitia Wright —, além de um caso ainda mais complexo envolvendo Armie Hammer. Uma trinca que, com mais ou menos tempo em tela, tem papéis suficientemente importantes para impactar a obra. Com isso, chega a ser um alívio que a adaptação finalmente chegue às telas. Mas a que custo?

Novamente sob o comando de Kenneth Branagh, a continuação de Assassinato no Expresso do Oriente traz Hercule Poirot de férias, até que o destino o leva a cruzar caminhos com a milionária Linnet Ridgeway (Gadot) e seu noivo, Simon (Hammer). Temendo que a ex-noiva de Simon, Jacqueline de Bellefort (Emma Mackey, de Sex Education), atente contra a vida deles, a dupla pede ajuda a Poirot e este acaba se encontrando envolvido demais no assunto quando a lua-de-mel é interrompida por um assassinato. Com diversos suspeitos à bordo, o detetive precisa descobrir o que ocorreu de fato antes do navio chegar ao seu destino, seguindo a lógica familiar das histórias de Agatha Christie e tantas outras inspiradas em sua obra.

Morte no Nilo

O maior problema em assistir Morte do Nilo e notar os artifícios usados por Branagh para desviar das polêmicas — diminuindo a participação de Hammer, por exemplo — é perceber que, apesar da estranheza, isso não chega perto de ser o maior problema da obra. Se Assassinto no Expresso do Oriente incomodava por sua resolução — já no livro, uma reviravolta blindada por sua obviedade, que faz com que o clímax soe quase como um deus ex machina, ainda que exista a devida construção —, essa segunda adaptação sofre de problemas semelhantes, pois uma vez preso à narrativa do livro, acaba com um terceiro ato que soa um tanto datado e até previsível. Uma premissa que, ironicamente, transparece tão logo o crime da vez aconteça.

Se essa previsibilidade é um problema por si só — é impossível dar muitos detalhes sem dar spoilers diretos sobre a resolução do crime —, existe ainda o agravante de uma montagem que sofre para trabalhar com tantos personagens e fatos ocorrendo tão rapidamente. Isso resulta em alguns enquadramentos ou cortes que acabam evidenciando de forma exagerada alguns detalhes durante a trama, transformando-os em pistas que permitem o espectador mais atento antecipar a reviravolta. Um grande problema, pois enquanto Morte no Nilo passa parte da narrativa construindo personagens suspeitos — e motivações válidas —, encerrar com uma resolução frustrante e óbvia faz com que toda a jornada até ali soe vazia.

Exagero, por sinal, não é um problema notado apenas na montagem da obra: Morte no Nilo frequentemente incomoda pela forma como tudo soa artificial demais, beirando o caricato — a sequência que Gadot aparece trajada como Cleópatra poderia ser impactante, mas acaba se tornando cômico de tão cafona —, além de resultar em alguns planos que beiram as animações fotorrealistas como As Aventuras de Tintin ou o mais recente O Rei Leão, causando um estranhamento imediato. Não fosse uma narrativa que frequentemente se leva tão a sério, esse estilo mais caricato de Morte no Nilo poderia representar uma saudável quebra de expectativa após o tom sombrio de Assassinato no Expresso do Oriente, mas o resultado soa mais deslocado do que funcional.

Morte no Nilo

Um aspecto chamativo da nova adaptação, porém, é a forma que o texto se apoia em uma tentativa de dar maior peso ao real protagonista, ou seja, Poirot. Com a inserção de um prólogo e uma série de diálogos pontuando um lado mais humano do detetive, abordando suas cicatrizes físicas e psicológicas, a obra acerta quando dá mais espaço para que Branagh brilhe no papel, embora fique claro que seu carisma não é suficiente para compensar um ritmo que soa tão inconstante. Logo, enquanto algumas decisões soam convenientes demais, outras passagens parecem bruscas — algum remendo para diminuir a presença de Armie Hammer, talvez? —, sendo interrompidas por cortes súbitos que atrapalham o entendimento de como o tempo dentro da obra está se passando. Já outras sequências soam puramente cansativas.

Optar por um maior desenvolvimento de Poirot mostra-se uma decisão inteligente também pelo fato de que o elenco deste filme é ligeiramente menos interessante que o do antecessor. A construção dos suspeitos que se dá no primeiro ato ressalta a quantidade de personagens, que em geral irão atuar sem grande profundidade, dificultando que algum específico se destaque muito dos demais — embora a atuação de Emma Mackey e Tom Bateman, o único a retornar além de Branagh, sejam bem consistentes —, fazendo com que o aspecto mais memorável dessa reunião de nomes seja as polêmicas trazidas com eles. É uma aposta menos arriscada por assim dizer, sensação que também é passada pela trilha sonora ligeiramente menos inspirada de Patrick Doyle, cujo trabalho no antecessor funcionava bem, mas que aqui parece presa ao óbvio, remetendo a qualquer filme com temáticas egípcias dos últimos anos. 

É neste tom mais cansado e artificial que Morte no Nilo peca, ainda que justifique muitas escolhas na tentativa de construir um mistério enquanto apresenta um novo grupo de suspeitos. Se o roteiro acerta por evitar a fórmula do antecessor — é surpreendente que a continuação não soe como uma repetição simples de Assassinato no Expresso do Oriente —, ao mesmo tempo incomoda por não conseguir evocar a malícia necessária para que o público suspeite verdadeiramente de seus personagens. Conforme a obra se desenrola e seu final vai ficando ainda mais claro, suas falhas estruturais — seja no texto, seja na execução — tornam-se mais evidentes, evitando que sua revelação e seu desfecho consigam trazer o impacto almejado. Felizmente, a obra se veste muito bem dos deslumbrantes cenários do Egito, acertando visualmente em transmitir toda a beleza daquele lugar. Se a obra é um navio fadado a naufragar, ao menos escolhe o melhor lugar para fazê-lo com estilo.

Avaliação: 2 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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