Mortal Kombat

 Mortal Kombat

Enquanto as franquias de quadrinhos já chegaram ao nível de poder se tornar auto paródias de tão bem sedimentadas no imaginário do público, expandindo o escopo primário do “bem versus o mal”, Hollywood ainda busca uma forma de adaptar, com sucesso, os games para o cinema. Com raras exceções, falta algo para completar a adaptação da mídia, que por vezes entrega uma meia-experiência, mas nunca o pacote completo.

Mortal Kombat, dirigido por Simon McQuoid acaba caindo nessa vala, mas pecando pelo excesso. Para um jogo considerado por muitos como “sem história” — o que não é bem verdade, mas é uma visão compreensível para um “jogo de lutinha” —, a atual versão cinematográfica até que… tenta. Mas o motivo para isso é um tanto incompreensível, não pela questão de inserir ou não uma narrativa — o que é obviamente necessário —, mas pelo fato de que MK não requer uma trama complexa, cheia de dramas e nuances emocionais. Uma ação decente e fiel aos games no que tange aos baldes de sangue seria o suficiente para garantir a ele um atrativo natural, assim como outras obras como John Wick fizeram no cinema recente.

Sendo assim, eis o maior questionamento: já que McQuoid e o trio de roteiristas decidiu encaminhar o filme para uma obra com um pouco mais de roteiro, porque não trabalhar em uma história minimamente satisfatória? Ou, para dizer o mínimo, porque não se ater aos personagens do jogo, escolhendo um protagonista e decidindo contar a obra pelo seu ponto de vista? Inexplicavelmente, os roteiristas se deram ao trabalho de criar Cole Young, personagem central que não convence dramaticamente e cujo maior apelo é ser interpretado por Lewis Tan, conhecido por ser praticante de artes marciais na vida real. E aí entra o segundo e maior problema do filme: as cenas de ação. Não adianta trazer um elenco de lutadores sem uma filmagem e uma montagem que extraia o melhor disso.

Dessa forma, o novo Mortal Kombat decepciona dos dois lados: na trama mirabolante, que envolve o torneio que dá nome ao filme, mas não é sobre ele, e também na ação, pois embora sanguinária, é quase totalmente retalhada pela montagem, com cortes em excesso que não só incomodam por surgirem nos pontos altos dos conflitos como, volta e meia, dão a impressão de que alguns segundos da cena simplesmente ficaram de fora. O que não parece muito, mas é mais que suficiente para causar estranheza durante os combates, quebrando a imersão da cena. Nem mesmo o teor sangrento, que remete direto aos games da franquia, faz valer já que quase tudo está nos material de divulgação da obra — ainda que exista um ou dois fatalities inéditos e bem divertidos.

Para além das lutas, o aspecto visual da obra deixa a desejar em alguns momentos. Tirando o trabalho realizado com Sub-Zero e os efeitos de seus poderes, todos os outros combatentes que exigem um maior apuro visual são mal trabalhados, com alguns lembrando facilmente o gráfico utilizado em videogames de gerações passadas — o PlayStation 2 me veio a mente em mais de um momento —, sendo possível encontrar um trabalho mais cuidadoso — ou ao menos mais equilibrado — nos próprios games atuais da franquia. É até compreensível que o próprio estúdio tenha liberado os minutos iniciais na internet há alguns dias, já que eles oferecem o ápice do filme, com uma boa luta, bons efeitos e antes de termos qualquer relance da inconstante narrativa.

Para além de alguns fanservices soltos — as frases icônicas surgem em momentos tão gratuitos que nem vale lembrar —, o novo Mortal Kombat não funciona e aposta em uma possível sequência para entregar um trabalho completo. Talvez aí seja o ponto em que mais se aproxima de sua mídia original, onde não é incomum que a obra, para ser aproveitada ao máximo, ofereça conteúdos comprados à parte para o público. Enquanto cinema, erra a mão ao desperdiçar o privilégio de poder ser mais simples, buscando uma complexidade que jamais lhe fora cobrada e, para isso, abrindo mão do mais importante: ser divertido. Neste quesito, o filme de 95, por mais brega e datado que seja, permanece imbatível.

Avaliação: 1.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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