44ª Mostra de SP | Meu Coração Só Irá Bater Se Você Pedir

 44ª Mostra de SP | Meu Coração Só Irá Bater Se Você Pedir

É inegável que existe uma onda de obras de terror que fogem do lugar comum ao utilizar características e criaturas já estabelecidas no imaginário do público em tramas não convencionais. Diversos filmes neste estilo surgiram nos últimos anos, com narrativas que vão desde as menos explícitas, mas extremamente intensas, como no caso de A Bruxa de Robert Eggers, até aquelas que se permitem realizar certa “releitura” ao que é apresentado, como Ao Cair da Noite, de Trey Edward Shults, que é um terror psicológico intimista, mas também um filme de zumbi. Por sua vez, Meu Coração Só Irá Bater Se Você Pedir (My Heart Can’t Beat Unless You Tell It To) do estreante Jonathan Cuartas se encaixa nessa vertente, criando um drama familiar em torno do mito do vampiro.

A trama, também escrita por Cuartas, centra-se em um trio de irmãos, Dwight (Patrick Fugit), Jessie (Ingrid Sophie Schram) e o caçula Thomas (Owen Campbell), que vivem praticamente isolados em uma casa. Thomas é fotossensível e não sai de casa, além de não conseguir se alimentar de algo que não seja sangue, de modo que a dupla de irmãos mais velhos precisa dar um jeito de assegurar a alimentação do mais novo. Sem nunca despontar para o lado fantástico — a palavra “vampiro” sequer é mencionada —, Cuartas estabelece uma narrativa intimista e quase apática que prefere observar a situação pelo lado da doença e como ela afeta o trio. 

Meu Coração Só Irá Bater se Você Pedir

A obra constrói sua narrativa de forma lenta, mas bem direcionada desde o início. A sensação de deterioração vivida pelos personagens é transmitida pela paleta de cores frias, que abusa dos tons de marrom, principalmente nas cenas ambientadas dentro de casa, onde a maior parte da trama se desenrola. Ainda que possa ser uma escolha “óbvia”, faz sentido e funciona. Da mesma forma, os diálogos mais contidos e, principalmente, os sentimentos não verbalizados, contribuem para a constante sensação de que aquele cenário insustentável está prestes a explodir. Instigante, principalmente por que a obra dá margem para vários gatilhos possíveis, sendo impossível prever o que irá ocorrer na próxima cena, elevando a tensão em cenas simples e quase inocentes, como quando os irmãos se reúnem à mesa de jantar.

Cuartas tem um domínio muito bom de seu enxuto, mas ótimo elenco. O trio composto por Fugit, Schram e Campbell segura muito bem a obra, com destaque para o último, que vive o irmão mais novo. Sua interpretação é bastante sentimental e ele transmite bem o anseios e a fragilidade de seu personagem. Fugit, de longe o mais experiente do trio, cria uma atuação de nuances interessante, enquanto Schram de longe entrega a interpretação mais equilibrada, já que sua personagem é bastante dura, mas também sofre muito com a condição do irmão. O trio se complementa muito bem e a química entre eles é crível, o que atribui um realismo intrigante para a situação vivida por eles, que poderia facilmente tornar-se exageradamente dramática ou até mesmo inverossímil a ponto de atrapalhar a experiência.

Meu Coração Só Irá Bater se Você Pedir

Para uma parte dos espectadores, entretanto, pode ser difícil lidar com a relação de construção versus recompensa que a obra apresenta. Ainda que em nenhum momento Cuartas demonstre a intenção de realizar uma obra de terror, mas sim um estudo meticuloso dos personagens, a obra passa um bom tempo construindo um clímax que, quando acontece, não é algo grandioso e tampouco violento. As obra segue um curso lógico dentro dos acontecimentos e nunca sai do caminho proposto, o que pode torná-lo frustrante diante da expectativa criada. Além disso, o ritmo é levemente prejudicado em alguns momentos, quando há a sensação de que o desenvolvimento da obra estagnou devido algumas cenas cíclicas da rotina do trio.

Meu Coração Só Irá Bater se Você Pedir é um filme bastante interessante que exige atenção e paciência dado seu ritmo mais lento, mas cuja atmosfera fúnebre e melancólica pode ser uma recompensadora para o espectador que mergulhar nessa narrativa. Jonathan Cuartas demonstra uma grande direção — principalmente ao considerar que esta é sua estréia — construindo sua obra deixando claro o que quer passar para seu público. O resultado é longe de ser convencional, e por isso mesmo revela-se tão fascinante, dando um novo sopro de vida — ou seria de morte? — para uma temática que não muito tempo atrás soava totalmente saturada.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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