Memória

 Memória

Um fato curioso: no circuito estadunidense, o novo filme de Apichatpong Weerasethakul será uma experiência exclusiva do cinema. Ora, como assim? Aparentemente, não haverá uma distribuição oficial no país fora do cinema, com a obra sendo exibida em uma cidade e depois indo para outra, como uma peça de teatro ou uma exposição, por exemplo. Fora dos EUA, entretanto, a obra já tem distribuição garantida, mas ainda assim, esta forma de exibição dentro do país concede um certo ar de misticismo em torno de Memoria, que veste muito bem uma narrativa que já seria suficiente mística por si mesma. Mas além disso, existe algo realmente precioso em desvendá-la, com o diretor aproveitando-se da falta de conhecimento do espectador para poder surpreendê-lo. E quando o faz, a sensação é igualmente prazerosa e chocante.

Tilda Swinton protagoniza Memoria como Jessica, personagem que sofre ao ouvir um barulho incessante durante a noite, sem explicação aparente, que a impede de dormir. Perturbada por isso, ela passa a tentar entender o que está havendo. Não há muito mais a ser dito sobre a história do filme, que opta por planos contemplativos com pouco ou nenhum movimento de câmera enquanto acompanhamos a jornada da personagem. Para muitos, talvez a obra se apoiaria exclusivamente na atuação de Swinton, que apesar de ser como uma força da natureza no quesito atuação, surge aqui em um de seus papéis mais contidos, com uma atuação sutil que marca muito mais pelas nuances do que por sobressair aos olhos como tantos outros personagens da atriz na qual Tilda mostra-se irreconhecível. Entretanto, não dá pra ignorar a incrível construção de atmosfera por parte de Apichatpong, que consegue extrair interesse mesmo partindo do “nada”.

Memória pode ser desafiador justamente pela forma vagarosa com que a narrativa se desenvolve, aparentemente muito mais interessada em fotografar Jessica em lugares distintos do que realmente contar uma história. Mas ao trazer um mistério para o centro da trama, Apichatpong consegue segurar a atenção do espectador. Sabiamente, e de forma cabível à narrativa, o diretor insere pontualmente o som novamente, de maneira a reforçar o mistério e impedindo que o público “fuja” da obra, já que quando ela parece que irá começar a se tornar desinteressante, ouvimos o misterioso som novamente, a ponto do próprio espectador começar a tornar-se incomodado. Não um incômodo ruim, que estrague a experiência do filme, pelo contrário, é uma sensação que aproxima o público da protagonista, como um suporte para sua jornada. Torcemos por Jessica, para que ela desvende o mistério, não porque seja uma questão pessoal para ela, mas por ser uma questão pessoal nossa também.

Memória

É divertido notar, portanto, a forma como Apichatpong envolve o espectador em uma narrativa tão contemplativa. Com poucos diálogos — mas o suficiente para se fazer entender —, o diretor permite que as imagens falem por elas mesmas em grande parte do filme, que aqui e ali nos permite, enquanto acompanhantes da jornada de Jéssica, apenas um respiro. O resultado é quase uma meditação guiada, principalmente no ato final em um diálogo em meio à natureza. Nestes momentos é também possível notar o belo trabalho de sonorização realizado, que valoriza a ambientação de toda a sequência. Uma obra cinematográfica que paradoxalmente convida o espectador a fechar os olhos, para que, mais do que ver entender, ele possa sentir a experiência. Memória acaba sendo isso, uma obra muito mais sensorial, voltada para que o público se encontre com seus sentimentos em vez da lógica, do entendimento. Em tempos em que o cinema mastiga cada vez mais suas narrativas, Apichatpong simplesmente abdica desta necessidade para que seu público sinta. Simplesmente sinta.

Memória é onde o cinema transcende as telas para tornar-se uma experiência maior ao mesmo tempo que torna-se mais introspectiva, e que irá funcionar especificamente com alguns espectadores. Com sua conclusão incrivelmente surpreendente — fico triste só de pensar naqueles que podem ter essa experiência estragada com algum spoiler —, Apichatpong entrega uma obra que é suficientemente marcante para ser lembrada, e paradoxalmente incômoda por este mesmo fator, já que o espectador que for realmente tocado pelo filme provavelmente irá desejar apagá-lo da memória imediatamente, apenas para poder reviver essa experiência tão distinta. O irônico é que o título poderia facilmente ser uma alusão a este efeito, mas na verdade possui uma justificativa dentro da narrativa com outro sentido, tão interessante quanto. E este é apenas um traço, entre tantos, da qualidade ostentada aqui.

Filme visto durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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