Medusa

 Medusa

A origem da Medusa, uma das criaturas mitológicas mais conhecidas do público — provavelmente em decorrência do tanto de obras que adaptaram seu mito —, é uma das mais intrigantes e revoltantes histórias na mitologia grega. Antes de se tornar a criatura monstruosa retratada no mito de Perseu, Medusa era uma bela mulher que atraía com facilidade as atenções dos homens e deuses, tornando-se afeto de Poseidon, deus dos mares. O sentimento não era recíproco e a mulher, para fugir da divindade, abrigou-se no templo de Atena — outra deusa —, mas mesmo assim foi encontrada e estuprada por Poseidon. Sentindo-se desrespeitada, Atena voltou sua ira contra a mortal, condenando-a por sua beleza: seus cabelos, um dos grandes atrativos de Medusa, foram transformados em serpentes, e seu rosto fora amaldiçoado para que qualquer homem que o visse, se tornasse pedra. Os detalhes variam — há versões que indicam que Medusa tenha atentado diretamente contra Atena, posando-se como mais bela que a deusa, por exemplo —, mas de toda forma, o mito mostra-se calibrado e adaptado aos dias de hoje de uma forma muito inteligente por parte da diretora e roteirista Anita Rocha da Silveira, que mistura as alegorias do mito grego com outras referências — infelizmente — muito mais próximas dos dias atuais do país.

Medusa, obra que carrega no título o nome da mulher punida pela deusa, conta a história de um grupo de mulheres que toma para si a tarefa de ensinar outras mulheres o caminho correto para viver, segundo seus próprios dogmas e princípios. Como uma boa sátira, é claro que “ensinar” é apenas um eufemismo para o que o grupo, liderado por Michelle (Lara Tremouroux) e Mariana (Mari Oliveira), fazem de verdade, é perseguir e punir toda e qualquer mulher que não vivem uma “vida digna” segundo sua própria crença. Crença, por que a obra tem uma forte linha crítica com o fanatismo religioso, exagerando — será? — o comportamento que vem se tornando cada vez mais comum no mundo, principalmente no que tange à governos de direita, onde a religião caminha lado a lado com a política.

Medusa

E por mais que pareça gratuito citar a questão política ao falar de Medusa, já que esta não é o alvo principal da crítica elaborada pela obra, é impossível não ler certas entrelinhas de alguns momentos da obra, como quando o personagem de Thiago Fragoso — o pastor de uma congregação — comenta que a igreja esteve, por muito tempo, “afastada dos rumos do país”. Ou mesmo o nome de uma das protagonistas — a interpretada por Tremouroux, sim —, suficientemente propício. O fato é que Anita, que também roteiriza a obra, brinca com as percepções do espectador ao inserir um sem-número de referências — que podem ou não ser o que pensarmos durante o filme — para construir sua narrativa, encorpando um roteiro que poderá ser lido de diversas formas, mas cuja acidez não irá passar despercebida nem mesmo para o mais cínico dos espectadores. É uma sacada inteligente, pois embora Medusa aborde diversos aspectos sociais, comuns hoje em dia, a diretora não perde de vista sua premissa e usa temáticas distintas — política, igreja, sororidade — para potencializar a narrativa, em vez de esvaziá-la.

Para regar sua sátira de forma mais “cinematográfica”, extrapolando a — infeliz — realidade, Anita faz um bom uso de elementos do gênero de terror — o qual, no decorrer de seu desenvolvimento, o filme abraça cada vez mais —, intensificando a atmosfera de sua experiência. Há diversos cenários — destaque para o hospital que ocupa parte do segundo ato — devidamente caprichados para serem assustadores, o que é ressaltado pela mixagem de som e pelo ótimo trabalho de iluminação, que com tons de verde e rosa, geram bastante angústia ao provocar sentimentos conflitantes, como nas cenas da igreja — nas caricatas apresentações musicais —, cujo cenário acaba paradoxalmente acolhedor e opressivo ao mesmo tempo. Vale também observar as letras das músicas e pequenos detalhes nos diálogos que constroem de forma sútil uma sensação cada vez mais claustrofóbica. Para os personagens e também para os espectadores.

Medusa

Não apenas isso, mas a diretora toma o cuidado de criar toda uma mitologia própria, criando sua própria “Medusa” dentro da obra: Melissa (interpretada pela ótima Bruna Linzmeyer), cuja história aparelha-se a do mito grego enquanto serve de inspiração para os atos cometidos pelas protagonistas. Esta mitologia construída pela diretora acaba se manifestando principalmente pelas máscaras usadas no filme, cada qual com forte simbolismos: uma máscara “de anjo” usada pelas personagens principais, que reflete bem a ideia da perda de identidade, algo que é aprofundado pela mudança de visual de Mariana — e na reação das outras personagens a isso — no decorrer da obra. Já os personagens “mundanos” — que não seguem as mesmas doutrinas das protagonistas — usam máscaras de animais, como que representando um comportamento instintivo, indomável. Diferente do ser humano, afinal, os animais não podem ser subordinados às mesmas leis e dogmas.

Com um roteiro intrincado e um ótimo uso de simbolismos, metáforas e caricaturas — pois não há termo melhor para descrever os “Vigilantes de Sião”, responsáveis por gerar uma boa dose de vergonha-alheia —, Anita realiza em Medusa um filme-catarse para os tempos atuais. A diretora sabe muito bem como fomentar tal sensação de angústia que, já presente no público, acumula-se na garganta por toda a obra para, enfim, ser liberada em um grito catártico, metafórico e literal, dado em um dos atos finais mais satisfatórios do ano. Divertido e quase tão assustador quanto o Brasil atual, Medusa é uma experiência que promete permanecer na memória, volta e meia nos lembrando de exorcizar nossos medos, ansiedades e frustrações através de um grito sonoro e libertador, um escudo para uma sociedade lotada de “cidadãos de bem”, mas cada vez opressiva, hipócrita e escrota. Mas claro, com tudo escondido isso sob um véu belo, recatado e do lar.

Filme visto durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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