Crítica | Me Chama Que Eu Vou

 Crítica | Me Chama Que Eu Vou

Confesso que não sou o maior fã de Sidney Magal, embora eu conheça suas músicas — e cante junto por que é meio impossível não se contagiar — e simpatize com sua figura, nunca acompanhei sua carreira de perto. Nada disso, por sua vez, foi relevante quando Me Chama Que Eu Vou começa. Logo de cara, as músicas já pescam a nossa atenção, mas é o carisma de Magal que sustenta nosso interesse na obra.

Embora o documentário prefira não ousar dentro do formato — não que isso seja necessário —, o filme funciona muito bem ao reunir imagens de arquivo e alterná-las com as entrevistas de Magal e aqueles próximos a ele, como sua esposa Magaly e seu filho, Rodrigo. As imagens de arquivo desde o início já deixam bem claro o impacto que o cantor teve na música e cultura brasileira, mesmo para aqueles que não acompanharam seu auge. Além disso, também expõem outro lado de Magal, já que muitas entrevistas — e recortes de jornais e revistas mostrados na obra — comentam seu status de “sex symbol”.

É interessante como o longa de Joana Mariani deixa claro que existe uma linha separando Sidney Magal de Sidney Magalhães, o homem por trás do astro. E é quando a diretora aborda este lado mais humano que sua obra sai do lugar comum e ganha muito mais peso. Principalmente ao vermos momentos mais simples e significativos, como quando Magal exibe com orgulho a foto de um garotinho que era aficionado por ele. “De todos que já me imitaram, nenhum foi tão bom quanto ele” diz, bastante emocionado, logo antes de emendar que a criança faleceu jovem, com 10 anos. 

Ainda neste viés mais pessoal, temos alguns momentos bastante tocantes quando vemos situações simples que ainda fazem os olhos de Magal marejar de emoção enquanto ele compartilha conosco. Assisti-lo falando de sua mãe ou de quando se apaixonou por sua esposa, ou mesmo comemorando um momento singular em sua carreira — quando conseguiu a abertura Rainha da Sucata, novela da globo dos anos 90 — compõem sequências valiosas e muito prazerosas de ouvir. É impossível permanecer alheio à sinceridade de Magal nestes que se revelam momentos mais valiosos da obra.

Entretanto, são esses momentos também que evidenciam o ponto fraco da obra, que é quando o documentário se atém mais à carreira do cantor do que necessariamente a pessoa. Se as imagens de arquivo rendem uma boa montagem, estas não agregam muito além de ilustrar o que está sendo dito nas entrevistas. Dessa forma,quando simplesmente aborda a carreira do “amante latino” que conquistou gerações, a obra perde um pouco do brilho que ganha quando volta seus olhares ao lado mais humano e pessoal.

De toda forma, ao observarmos a carreira de Magal pela ótica da diretora, sobressaem-se o talento e o carisma do cantor, mas é sua sinceridade tocante que se destaca e faz com que Me Chama Que Eu Vou um filme verdadeiramente cativante, que promete embalar os espectadores tão fortemente quanto os sucessos do cantor. Ao passo que é impossível permanecer indiferente quando músicas como Sandra Rosa Madalena tocam, o mesmo pode-se dizer sobre não ser fisgado pela pessoa que conhecemos mais a fundo no documentário.

Filme visto online durante o 48º Festival de Cinema de Gramado em setembro de 2020.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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