Matrix Resurrections

 Matrix Resurrections

Sejamos sensatos — e sinceros —, incumbir qualquer filme de ser tão revolucionário quanto foi o primeiro Matrix é exigir um tanto demais, mesmo quando se trata de uma continuação do próprio. E Matrix Resurrections, por sua vez, já foi anunciado com muitas expectativas — nem sempre positivas — em torno deste. Afinal, são mais de 20 anos desde o filme original, parte do elenco principal presente na trilogia não retornaria para a continuação e até mesmo a dupla de diretoras responsável pelos filmes anteriores não retorna como antes, já que apenas Lana Wachowski volta para escrever e dirigir este quarto filme. Não bastasse tudo isso, a trilogia Matrix é conhecida também por ter entregue dois filmes que não apenas são aquém do original como possuem narrativas confusas e cujos efeitos envelheceram mal devido ao excesso de CGI. Tudo isso representa um grande “por que?”, que ressoou em uníssono na internet quando Resurrections foi confirmado.

De certa forma, apenas o questionamento deste anúncio já justifica a necessidade de um novo capítulo. Quando o fenômeno Matrix começou, ainda em 1999, a internet não era um conceito tão claro na mente do público, de forma que até a ideia original foi modificada para ficar mais simples — humanos usados como baterias —, mas neste meio tempo, além da própria evolução da sociedade — se é que dá para chamar de evolução — houve o surgimento das redes sociais. Assim, essa diferença de 20 anos coloca o quarto filme em uma posição privilegiada de liberdade criativa, com possibilidades infinitas para expandir conceitos e trabalhar Matrix sobre várias óticas novas, agregando à sua afiada metáfora aspectos atuais da sociedade e da internet, como a velocidade da informação, a proliferação de fake news, manipulação midiática com base em algoritmos, etc. Com tantas possibilidades, Resurrections retomou um benefício que as outras continuações de Matrix não tinham: a imprevisibilidade. Se em 1999 a pergunta era “o que é a Matrix?”, agora é “como — e porque — voltaremos à Matrix?”. 

Lana Wachowski não se deixou levar por todas as oportunidades e soube escolher bem quais temas trazer para a obra, evitando que Matrix Resurrections se tornasse um emaranhado sem sentido de temáticas vazias. E para um filme longo — são mais de duas horas de duração —, é surpreendente ver como sua narrativa é, à sua própria forma, contida. Além disso, apoia-se na visão do público atual, acostumado a consumir séries e franquias nas quais nostalgia e auto-referência — um termo mais sério para fã-service — estão entre os ingredientes principais, realizando um trabalho muito interessante com a metalinguagem, flertando aqui e ali com a quarta-parede ao utilizar a mitologia construída nos três filmes anteriores como uma espécie de válvula de escape. Assim, a primeira hora do novo capítulo trata de reapresentar aquele universo enquanto reflete sobre o próprio impacto da experiência proporcionada pela trilogia anos atrás, tanto para o público quanto para o cinema em si.

Matrix Resurrections

Com isso, Matrix Resurrections ganha uma leveza estranha, quase incômoda, com um veia cômica notável, mas não boba a ponto de descaracterizar a obra. E ao mesmo tempo que insere diversas linhas de diálogo que expõem uma crítica ao entretenimento mainstream — sendo que pós-1999 todo o mercado de entretenimento baseou-se na trilogia —, lota os cenários com referências à personagens e cenas dos filmes anteriores. Com este conceito metalinguístico armado, até algumas “limitações” — como a ausência de Hugo Weaving e Laurence Fishburne — tornam-se escolhas narrativas interessantes, permitindo o filme revisitar o passado com um novo olhar, sem parecer preguiçosa como os recentes soft-reboots que tomaram Hollywood há alguns anos. A “ressurreição” do título, afinal, se refere a muito mais que apenas repetir o passado.

É fascinante notar o uso das rimas visuais nas cenas de abertura e conclusão, como se Resurrections tentasse mimetizar o mesmo sentimento do primeiro filme — o senso de descobrimento do início e a ascensão do herói ao final — enquanto contempla o passado como uma espécie de divindade, ora louvando-a — com o Morpheus de Yahya Abdul-Mateen II —, ora revoltando-se — no personagem de Neil Patrick Harris —, enquanto expõe de forma bem expositiva que é “mais fácil manipular sentimentos do que fatos”. Afinal de contas, o que é Matrix Resurrections se não uma história de amor? Nessa ideia, a lógica metalinguística se fortalece ainda mais por permitir que Lana se distancie de sua obra para que ao mesmo tempo possa alfinetar o que lhe desagrada enquanto — literalmente — resgata seus protagonistas daquela ameaça — a forma que o entretenimento funciona hoje em dia, “personificada” na nova versão da Matrix.

Matrix Resurrections

Neste meio, é até uma escolha interessante não retornar à Morpheus e Neo (Keanu Reeves) os mesmos papéis de outrora — o primeiro resgatando o segundo, baseando-se na fé de encontrar “O escolhido” — de imediato, reintroduzindo a franquia através dos olhos de Bugs (Jessica Henwick em uma performance adoravelmente magnética). É ela a responsável por observar a “releitura” do filme original enquanto apresenta as novidades do status quo sem tornar Resurrections uma bomba de diálogos expositivos, além de também questionar toda a “binaridade” da coisa. Com carisma de sobra, Henwick consegue estabelecer facilmente um vínculo do espectador com o novo filme, sem desaparecer diante de Reeves e de Carrie-Anne Moss, que também faz seu retorno à franquia como Trinity. Esta última, aliás, retorna em grande estilo, já que protagoniza os dois melhores momentos de Resurrections

Apesar de outros retornos de coadjuvantes — e um que justifica-se apenas pelo easter-egg rápido, mas bem colocado —, é o retorno de Reeves e Moss que fazem Resurrections ser possível, já que a obra poderia ter saído do papel sem a presença da dupla, mas dificilmente justificaria sua existência sem eles. A química e o equilíbrio que ambos trazem em cena é o que permite Matrix Resurrections se assumir como uma história de amor badass, funcionando bem para sustentar a produção para além dos comentários sobre o cinema em si. A dinâmica da dupla justifica toda a jornada de volta à Matrix enquanto cria novas possibilidades, oferecendo também uma leitura distinta para todo o dilema do escolhido que permeou a trilogia. E se isso já fosse suficiente para elevar a produção, Lana Wachowski compõe cenas de ação realmente interessantes usando a dupla, baseando-se no contraste entre as personalidades de Neo e Trinity.

É realmente prazeroso retornar à Matrix após vinte anos desde que Lana Wachowski — e sua irmã Lilly que optou por não retornar aqui — revolucionou o cinema. Com uma originalidade invejável — driblando tantas outras “realidades virtuais” que surgiram no cinema desde então —, a diretora nos conduz por tal jornada metalinguística que questiona a arte, o entretenimento e os próprios pilares de sua obra. Como um artesão, disseca sua própria criação, expondo peça por peça para que vejamos a Matrix como nunca antes. E para aqueles que clamam Matrix Resurrections destruiu a franquia, vale apontar que até a destruição pode ser um tipo de criação. E só uma diretora a frente de seu tempo poderia “destruir” — com todas as aspas possíveis — sua obra-prima de uma forma tão extraordinária quanto a vista aqui. Com certeza o cinema seria ainda melhor se toda continuação controversa destruísse suas franquias desta forma.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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