44ª Mostra de SP | Mamãe, mamãe, mamãe

 44ª Mostra de SP | Mamãe, mamãe, mamãe

É interessante observar alguns sentimentos através dos olhos — ou neste caso, das lentes — dos diretores. No caso de Mamãe, Mamãe, Mamãe (Mamá, Mamá, Mamá) da diretora estreante Sol Berruezo Pichon-Riviére, esse sensível olhar mostra não apenas o sentimento de luto, mas a jornada de amadurecimento da protagonista, em um filme quase que completamente feminino, tanto na frente quanto atrás das câmeras.

Na obra, acompanhamos a jovem Cleo (Agustina Milstein) cuja irmã faleceu há pouco, afogada na piscina. Este chocante acontecimento faz com que sua mãe entre em um luto constante, trancando-se em um quarto e deixando a garota sozinha, não fosse a presença de sua tia (interpretada por Vera Fogwill) e, claro, suas primas. Juntas, o grupo de garotas irão compartilhar o amadurecimento e tudo que vem com ele, como as mudanças e os sentimentos que vem junto com a adolescência.

Mamãe, Mamãe, Mamãe

Dentro da temática, é incrivelmente satisfatório que Pichon-Riviére já em seu filme de estreia, consiga abordar de forma tão tocante e sensível sentimentos provindos de um evento tão impactante quanto o visto aqui. A forma como a diretora enquadra Cleo e mostra este “mundo de mulheres” — ainda que reduzido a uma pequena sociedade, formada pela garota e suas primas — é de uma delicadeza ímpar. Isto faz com que a obra, ainda que bastante sentimental, não se torne exageradamente melodramática, permanecendo em um equilíbrio bastante satisfatório. 

O modo como a diretora trabalha os espaços — a obra se passa na casa de Cleo, logo, o cenário é razoavelmente limitado — é bastante efetivo para deixar claro os sentimentos engasgados — do mais explícito ao mais contido — nas personagens. O companheirismo entre as primas — quase sempre dividindo os quadros — até o afastamento da mãe, isolada em sua depressão, são expostos sem necessidade de palavras fáceis. Ao mesmo tempo, a estética da obra — que parece uma filmagem caseira e antiga, devido a granulação das imagens — cria uma atmosfera nostálgica e bastante intimista, quase documental

Mamãe, Mamãe, Mamãe

A narrativa segue desta forma intimista, sem grandes variações emocionais. Pelo contrário, a nostalgia também é dotada de uma sensação rotineira, demonstrada pelas atividades quase repetitivas das garotas no dia-a-dia. Ainda assim, o ritmo não se afeta, principalmente pela obra ser relativamente curta — apenas 65 minutos —, funcionando muito bem neste sentido, principalmente pela boa atuação do elenco mirim, que cativa e prende a atenção do espectador. Esse aspecto, somado a ambientação criada e a atmosfera quase onírica que rege Mamãe, Mamãe, Mamãe remete diretamente a outra obra também focada em um grupo de mulheres, As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, embora as semelhanças terminem por aí.

Mamãe, Mamãe, Mamãe é uma obra incrivelmente tocante que aborda temas delicados com uma sutileza no olhar que dá gosto de ver. A jovem diretora Sol Berruezo Pichon-Riviére realiza aqui uma ótima estreia, com uma direção firme e uma técnica interessante, que veste muito bem sua narrativa que, embora lenta, é bastante cativante, principalmente por conta de sua protagonista. Uma obra fascinante, melancólica e bela.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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