44ª Mostra de SP | Malmkrog

 44ª Mostra de SP | Malmkrog

Se Deus e o diabo entrassem em um debate, talvez os questionamentos não fossem tão afiados e provocativos como os vistos em Malmkrog, filme baseado na obra do filósofo Vladimir Solovyov e dirigida pelo romeno Cristi Puiu. Isso por que é simplesmente difícil imaginar figuras tão maniqueístas debatendo moralidade com tanto cinismo e malícia quanto os personagens desta obra que, apesar de interessante, com certeza será difícil para o espectador. Para dizer o mínimo, já que o filme não apenas é longo — mais de três horas — como também é composto por, apenas, diálogos.

O enredo apresenta cinco personagens com ares aristocráticos debatendo temas como guerra, política e religião, no decorrer de um único dia. Em meio aos empregados da casa, o grupo dialoga e expõe opiniões nem sempre confortáveis de se ouvir, mas sempre de forma cortês. Nomes de filósofos, cientistas e estudiosos são pronunciados à torto e a direito e mesmo que o espectador não os reconheça, não há problema, já que é um deleite acompanhar diálogos tão intrigantes. É a arte do debate — que parece estar em extinção — pura e simples. E que por sua vez, são disparados com tal elegância e naturalidade que sequer parecem roteirizados — na verdade, é possível notar hesitações e lapsos aqui e ali, mas que são brilhantemente incorporados às próprias discussões, gerando mais naturalidade ainda.

Malmkrog

A forma como Puiu direciona sua câmera cria planos certeiros para abranger tal debate. Note como seus movimentos segue os personagens sem necessariamente atribuir a algum deles “protagonismo” — o que poderia fortalecer um dos discursos em prol dos restantes. Pelo contrário, a câmera transita de um para outro sem tomar nenhum partido, sempre exaltando o debate e nunca buscando respostas fáceis ou certas. Essa estética, que cria momentos realmente belos — uma cena que enquadra todos os personagens após a leitura de uma carta parece uma pintura, principalmente dado os detalhes do cenário — veste bem a obra sem transformá-la em um mero teatro filmado.

Um bom exemplo disso é um plano que enquadra o quinteto aristocrata ao redor de uma mesa com seis lugares. No momento, o debate é sobre a fé e como ela deve ser utilizada para converter o coração dos ‘maus’, ao invés de usar a força para impedi-los de cometer certos atos. Todos permanecem em pé, mas caso sentassem, uma cadeira vazia permaneceria. Da mesma forma que falta algo para que algum dos argumentos disparados por eles seja suficientemente completo a ponto de ser inquestionável e findar a discussão, que parece fadada a permanecer sem uma resposta correta.

Tais debates sobre o bem vs mal e tantos outros assuntos de cunho filosófico são muito interessantes, mas cobram seu preço à certa altura, começando a soar um pouco repetitivos. Isso impacta diretamente no ritmo do filme, afinal é uma obra cujo avanço se dá majoritariamente pelos diálogos. O diretor-roteirista acerta ao dividí-lo em seis capítulos — cada um batizado com o nome de alguém do grupo e um sexto que traz o nome do chefe dos empregados, István — para tentar conseguir mais dinamismo ao filme, mas ainda assim é insuficiente.

Malmkrog

Ainda assim, é um grande mérito que Puiu consiga manter o espectador interessado apenas pelo debate, haja vista que não existem personagens carismáticos — mesmo Olga (Marina Palii), a que menos demonstra arrogância dos cinco, tem seus momentos —, mas dada a própria visão de mundo do espectador, é facilmente presumível que cada um irá se identificar mais com um ponto de vista e, por consequência, com algum dos personagens. Que por sinal são interpretados por um elenco com elegância à altura para figuras tão pomposas quanto estas, já que todos estão muito bem em seus papéis, com destaque para Frédéric Schulz-Richard como o fascinante e irritante Nikolai.

Cristi Puiu constrói uma obra de diálogos poderosos, mas que pode ser difícil de encarar. Ainda assim, é um filme inteligente e com uma estética forte, além de sugerir outra tantas leituras interessantes. Notar que o grupo tão erudito sequer parecem enxergar os empregados, desdenhando de semelhantes enquanto discutem sobre moral, por exemplo, é só um dos aspectos que poderiam engrandecer ainda mais Malmkrog caso fossem desenvolvidos. Mas fica clara a intenção de Puiu ao simplesmente elaborar a arte do debate em uma produção cinematográfica que, graças ao teor dos temas discutidos, deve render experiências bem distintas e particulares para cada espectador. Algo que por si só, já faz valer enfrentar as quase três horas e meia de filme.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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