Mães Paralelas

 Mães Paralelas

Há um esforço coletivo — e necessário — para reafirmar a memória de alguns períodos não tão cômodos da história, cuja lembrança parece cada vez mais questionada por parte da sociedade. E é com este sentimento que Pedro Almodóvar abre seu Mães Paralelas (Madres Paralelas), usando das sombras de um passado sangrento e suficientemente recente para estabelecer sua narrativa, ainda que não necessariamente a trama protagonista de sua obra, já que a proposta do diretor aqui transita entre duas tramas quase distintas que alternam-se entre si — de forma um tanto turbulenta — para criar um conjunto cheio de simbolismos e significados, que expandem, à sua própria maneira, o conceito de maternidade dentro da obra.

É curioso que, embora traga a palavra “mães” no título, a obra aborde sua narrativa muito mais por um viés de hereditariedade do que necessariamente maternidade. E mesmo que não sejamos todos pais ou mães, somos todos filhos. E aqui Almodóvar expande este conceito para além do indivíduo, desenvolvendo sua trama por um viés de Pátria-Mãe, com um olhar que busca mostrar o peso de uma história manchada por sangue — e cujas feridas nem sempre estão totalmente cicatrizadas — em seus filhos, netos e bisnetos, ou seja, as gerações posteriores ao período ditatorial que mesmo sem vivê-lo diretamente, carregam em sua própria história o legado da Espanha. É uma forma bonita — e funcional, por manifestar-se através de uma arte tão plural quanto cinema — de tentar fazer as pazes com o passado, mas sem esquecê-lo jamais.

Com um conceito tão grandioso e complexo em mãos, Almodóvar trata de direcionar o olhar de seu público — não é à toa que seu filme seja aberto com a imagem da lente de uma câmera fotográfica — para uma forma de narrativa mais simplificada, por assim dizer. Em vez de tentar abordar todo um significativo período histórico dentro de sua obra, o diretor opta por fazer o que sabe: contar uma história com ares rotineiros, abordando as idas e vindas, as coincidências e as reviravoltas da vida. Assim, direciona seu foco para aquela que será a trama principal do filme, a tal da maternidade em paralelo anunciada pelo título, envolvendo Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit), mulheres de gerações diferentes que engravidam por acidente e tem seus destinos cruzados por isso.

Conforme a narrativa destas protagonistas se desenvolve, cria-se um clima de suspense que é bem-vindo, embora Almodóvar não faça muito esforço para elaborar reviravoltas extremas, permitindo que o espectador permaneça passos à frente das grandes surpresas guardadas pela narrativa. Seu foco é muito mais sobre o emocional de suas personagens e a forma como tais reviravoltas afetam a elas, o que é um trabalho condizente com sua filmografia e realizado com o mesmo cuidado observado em obras como Tudo Sobre Minha Mãe e o mais recente Dor e Glória. Logo, nota-se um amadurecimento em sua forma de melodrama, que potencializa emoções em um cenário menor enquanto traz nas dores explicitadas um eco de uma história maior, que transcende aquelas personagens.

Neste meio, entretanto, Almodóvar lida com algumas questões delicadas que opta por trazer à sua narrativa de modo um tanto irresponsável, pois mais parece um tipo de adorno à obra que pouco agrega, como em uma intenção de fazer com que seu Mães Paralelas soe mais progressista do que é de fato. É o caso, por exemplo, da forma como o diretor expõe o que houve com Ana antes de sua gravidez. Já outras questões surgem com sua devida complexidade, mas são relegadas a soluções demasiadamente apressadas, ou que não fazem jus ao peso emocional que carregam dentro da obra, o que torna boa parte da narrativa preenchida por conflitos que, se não são vazios, são tratados como se fossem. E o próprio conflito principal da obra sofre com isso.

Mães Paralelas também tem certos problemas para lidar com a dinâmica exigida pelas duas tramas, que embora sejam ligadas conceitualmente de forma bem efetiva — Janis, Ana e a própria Espanha como mães —, não se encaixam tão bem dentro da montagem, que usa de uma estrutura de roteiro que isola uma trama da outra. Desta forma, sempre que Almodóvar volta seu foco para o personagem de Israel Elejalde — que funciona como uma ponte entre as duas narrativas —, o filme perde em ritmo, beirando à distrair o espectador. Atrapalha também que Almodóvar não preze por equilibrar melhor as duas trajetórias, de modo que a trama principal — focada em Janis e Ana — se torne ligeiramente mais interessante, a ponto de incomodar sempre que o foco da obra seja desviado dela. Assim, quando o filme se volta completamente para a narrativa envolvendo a memória do país no terço final, a transição não apenas soa abrupta, mas também desencaixada do todo.

Mesmo nos momentos em que a montagem soa turbulenta ao tentar equilibrar tudo, há algo que segura toda a estrutura de Mães Paralelas no lugar: Penélope Cruz. Em sua sétima parceria com o diretor, a veterana expõe toda a força e fragilidade possível através de uma personagem resiliente e magnética de uma forma quase sobrenatural. É impossível desviar o olhar sempre que Penélope está em cena e felizmente isso ocorre em grande parte do filme. Milena Smit, por sua vez, se esforça para não permitir que se torne ainda mais perceptível a diferença de experiência entre as duas atrizes, mas se garante na fragilidade de sua personagem, embalada pelo tom melodramático costumeiro que é empregado por Almodóvar. O retrato deste contraste entre as duas atrizes acaba se tornando essencial para a dinâmica entre suas personagens e, por extensão, para a dinâmica de toda a obra.

Profundo e particularmente sufocante em certos momentos, Mães Paralelas transpira por entre os exageros melodramáticos uma dor palpável e, à sua própria forma, pertinente. Forçando o olhar, de forma necessária, para a dor contida nestas memórias — de forma quase literal, como no diálogo cirúrgico sobre a importância de olhar para a própria história —, Pedro Almodóvar compõe uma narrativa interessante mesmo com problemas, que encontra em Penélope Cruz uma forma de driblar as limitações da obra, tornando-a mais envolvente do que o esperado. No entanto, o desequilíbrio de sua estrutura cobra seu preço ao desfecho da obra, prejudicando o impacto de todo o simbolismo trabalhado nos minutos finais, que mesmo afetado por isso, ainda é forte o suficiente para deixar o espectador com um nó na garganta enquanto os créditos surgem em cena.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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