44ª Mostra de SP | Mães de Verdade

 44ª Mostra de SP | Mães de Verdade

Em Mães de Verdade (Asa Ga Kuru), há uma boa dose de poesia no modo como Naomi Kawase filma, acrescentando um alto grau de contemplação em sua narrativa que, por si só, já é interessante. É notável a sensibilidade com que a diretora capta sequências simples, ao mesmo tempo em que traduz visualmente os sentimentos de seus personagens.

Na obra, somos apresentados ao casal Satoko (Hiromi Nagasaku) e Kiyokazu (Arata Iura) e seu filho Asato. Aparentemente não há nada extraordinário na enxuta família, que vive seu dia-a-dia normalmente. Não demora para que a diretora exponha o conflito principal da obra quando uma moça aparece alegando que é a verdadeira mãe de Asato. Assim, Kawase muda o foco da obra ao inserir um flashback que acompanha o casal desde seus primeiros encontros, a descoberta da infertilidade do marido e a decisão da adoção. Confirmando que houve uma adoção, Kawase deixa a questão: a mulher que está alegando ser mãe de Asato diz a verdade? E quais são suas intenções?

Kawase, que co-escreve o roteiro ao lado de Izumi Takahashi com base no romance de Mizuki Tsujimura logo insere um novo flashback para que as peças se encaixem. Essa forma de tratar o conflito de Mães de Verdade sem deixar o espectador digerir e especular por si só é um dos pontos falhos da obra. Mas não apenas isso, já que Kawase não economiza nos diálogos e trata de explicar detalhadamente a história de Hikari (Aju Makita), a mãe biológica, felizmente economizando algumas informações para manter o suspense até o final, já que o flashback não confirma ou nega que seja Hikari a mulher que se apresentou ao casal no primeiro ato.

Por vezes, essa jornada expositiva também rende alguns momentos artificiais, como a cena em que o casal descobre a empresa que intermedia as adoções, com um vídeo institucional com depoimento de outros casais. Outra sequência é no flashback de Hikari, onde a linguagem da obra assume um estilo de documentário, como se filmado por uma das colegas da jovem, mas sem motivos aparentes para este uso. Ainda que a linguagem mais intimista — de uma câmera na mão — funcione, ela é mal encaixada no momento, começando e terminando de forma brusca. E de fato, a história em si é interessante o suficiente sem que Kawase utilize tais recursos, que soam deslocados e até exagerados.

Mães de Verdade

Ainda assim, há bons momentos em Mães de Verdade que rendem uma provocação interessante, principalmente para os espectadores que podem sofrer um “choque cultural” ao observar alguns diálogos que tratam sobre o machismo na sociedade. Seja de forma implícita — o marido ser infértil é quase sempre tratado como uma vergonha, uma desonra para ele — ou explícita — a falta de responsabilidade do namorado de Hikari, que a engravidou —, o roteiro insere tais temas que poderiam ser tratados com mais atenção, ao invés de investir em algumas subtramas desinteressantes e que fogem à trama principal. 

A fragmentação da narrativa e a opção da não-linearidade não fazem jus à trama de Mães de Verdade, principalmente dada sua duração um pouco excessiva — há uma ou duas cenas que poderiam ser mais curtas ou até mesmo cortadas na edição final —, embora mesmo os momentos mais simples sejam exaltados pela direção de Naomi Kawase. Uma obra tocante e com boas atuações, mas que dada sua premissa, poderia ser mais.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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