Madeira e Água

 Madeira e Água

A temática da saudade é relativamente difícil de ser retratada no cinema, ainda que muitos filmes consigam delinear narrativas sobre personagens que sentem-se solitários, partindo daí para uma jornada de reencontro, estilo de história bastante comum na sétima arte. A princípio, Madeira e Água (Wood and Water) cativou por tocar no mesmo tópico que o curta documental Do Not Split: os protestos que ocorrem em Hong Kong. Entretanto, apesar do diretor Jonas Bak empregar uma estética semelhante à documental em sua obra, o longa não é um filme sobre os atuais protestos ou sequer um documentário, mas sim um sensível drama sobre uma mãe (Anke Bak, mãe do diretor) buscando encontrar o filho que não vê há algum tempo.

É belo como o diretor conduz sua narrativa de forma bastante minimalista, a ponto dos personagens sequer terem seus próprios nomes. É algo curioso, mas que funciona como um jeito de manter a narrativa de Madeira e Água em um campo mais sentimental, de modo que possamos compreender e ter empatia por aquelas pessoas, sem que necessariamente nos identifiquemos com a história de vida delas. A própria motivação da protagonista não precisa ser colocada em palavras, já que ela quer apenas reencontrar o filho, que está impossibilitado de deixar Hong Kong devido aos protestos. Não é necessário desenvolver uma razão mais profunda, ou mesmo justificá-la e explicá-la, pois a saudade de um ente querido é algo natural, que qualquer espectador pode compreender sem pensar sobre.

Madeira e Água

Sendo este o mote principal, é até irônico como o espectador acaba ansiando pelo encontro logo na primeira metade do filme. Ainda que este seja o “conflito” central da obra — logo, se ocorresse tão cedo, a obra precisaria justificar sua história de outras formas —, nos tornamos apreensivos para que a busca da mãe não seja em vão, mas também que dê tudo certo em sua jornada. Logo no início da sequencia em Hong Kong, por exemplo, vemos um homem atendendo o celular e acabamos tão focados na possibilidade deles estarem conversando que demora para enxergarmos a protagonista caminhando atrás dele até que o diretor evidencie isto. É um fio-condutor puramente sentimental que chega a ser contrastante com o estilo de filmagem de Bak, que através de sua estética documental, evoca certa frieza.

Essa construção, que opta deliberadamente por não focar no que é externo à busca da mãe — as causas e os impactos dos protestos, por exemplo —, funciona para potencializar o desenvolvimento da protagonista, ainda que o faça a passos lentos e planos longos. Madeira e Água acaba sendo, portanto, uma experiência imersiva, mas que pode ser desafiadora para os espectadores que estiverem buscando um desenvolvimento mais direto. Acompanhamos a mãe andando para cima e para baixo, conversando com as pessoas e absorvendo um pouco da cultura local. É, entretanto, em uma ótima cena com um cartomante que a história traz para a superfície toda a temática trabalhada em subtexto, criando uma bela catarse, além de explicar o título do filme de uma forma bastante poética.

Madeira e Água

Vale mencionar também o bom trabalho de fotografia realizado por Alex Grigoras que carrega para a estética este desenvolvimento e também a dualidade referente à madeira e água. As primeiras sequências, Grigoras e Bak optam por takes que exaltam o cenário natural, cheio de árvores, que irão contrastar diretamente com o cenário de Hong Kong, tomado por prédios. Com isso, existe uma fácil leitura das cores trazidas ao filme, com uma paleta de tons quentes e uma de tons frios que dialogam entre si para dar o tom da jornada da mãe, dando preferência aos tons azulados nas sequencias da cidade, pontuando alguns momentos com a paleta quente, quando a personagem parece estar mais em contato consigo mesma, como observado na sequência em que a protagonista conversa com uma viajante em uma beliche, com a mãe sendo o foco da iluminação enquanto o quadro é, majoritariamente, azul.

Madeira e Água é uma bela contemplação do vazio. Não do vazio existencial advindo de alguma crise ou de uma ansiedade, mas daquele deixado por entes queridos quando estes não estão conosco e a saudade toma conta. Ao mesmo tempo, Jonas Bak transforma sua obra em um filme relativamente caloroso, criando sequencias marcantes pelo sentimento evocado, ainda que apresentados por uma cinematografia fria e simples. É uma obra de fácil leitura e identificação, que irá conversar com o espectador em diversos níveis, mas que provavelmente não permitirá que este chegue a seu final sem ser tocado pela narrativa em algum momento.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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