Luca

 Luca

Com o passar dos anos, acabamos nos acostumando com a régua alta da Pixar. O estúdio, cujo hobby principal parece ser fazer o espectador chorar, entregou uma montanha-russa de obras que vão desde inquestionáveis obras-primas até aquelas que nos fazem dar uns risinhos bobos e depois desaparecem de nossas mentes. Luca, de Enrico Casarosa fica no meio-termo desses extremos. A obra não é uma viagem magnífica do estúdio para a Itália — como Ratattouille e Viva: A Vida é uma Festa foram, respectivamente, para a França e México —, mas tem o suficiente em sua história para encantar o espectador e fazê-lo se emocionar com um belíssimo “conto de verão”, tipo de narrativa que é familiar no cinema e que, algumas vezes, é também com coming of age, ou seja, uma obra sobre amadurecimento.

Na obra, Luca (voz original de Jacob Tremblay) é um garoto que vive sua vida monótona sob o olhar vigilante — e superprotetor — de sua mãe (Maya Rudolph). Como qualquer criança, ele sonha em partir para o desconhecido e descobrir o mundo, a diferença é que ele e sua família são monstros marinhos, que vivem abaixo do oceano. Um dia, após conhecer Alberto (Jack Dylan Grazer), outro garoto da mesma espécie, Luca acaba vindo para a superfície e, metamorfoseado em um humano, decide partir para um vilarejo local e perseguir este sonho. É lá que a dupla conhece Giulia (Emma Berman) com quem desenvolvem um laço de amizade, e também Ercole Visconti (Saverio Raimondo), o antagonista principal da obra que não tarda a despertar a antipatia dos protagonistas. E também do espectador.

Luca

Diferente de tantas outras produções do estúdio, Luca segue sua narrativa de forma mais simples, com breves lampejos da criatividade do estúdio. Sua trama é mais linear que o esperado e preocupa-se mais em trabalhar os conflitos internos do protagonista do que desenvolver todo um universo para aquela história. De fato, o mundo subaquático sequer é explorado pela trama e sua importância resume-se a atribuir uma origem mítica para a jornada de autodescoberta e auto aceitação de Luca. Apesar disso, é por concentrar-se nos detalhes que Casarosa consegue, à sua maneira, expandir o potencial emotivo do filme, que transborda emoção em cada uma de suas sequências — eu dei genuínas gargalhadas com a dupla sentada à mesa, quando Luca derruba água em Alberto ou com ambos lidando com as suspeitas do gato Machiavelli —, das mais divertidas as mais dramáticas. Se há um estereótipo dos italianos serem um povo apaixonado e de emoções intensas — sejam elas positivas, sejam elas negativas —, Luca faz jus à isso.

Este aspecto minimalista da obra é sentido, também, no trabalho gráfico realizado aqui. Embora visualmente impecável, não existe um aspecto de sua animação que salte aos olhos como é de costume do estúdio, onde cada obra parece trazer um novo nível, sendo sempre visualmente superior à anterior. Isto está longe de ser um demérito de fato, já que a Pixar sempre foi mais do que belos gráficos, arrebatando seus fãs pelo coração de suas narrativas, e isso, como já dito, é encontrado de sobra aqui. Além disso, o aspecto “fofo” do protagonista aliado a um bom trabalho de construção de ameaça que o cerca — afinal, existe o perigo iminente de alguém descobrir o segredo dele e de Alberto — faz com que vários momentos cômicos, ao mesmo tempo que nos façam rir, nos deixem apreensivos, por pensarmos em qualquer mínima hostilização que o personagem possa sofrer.

Luca

Se há um problema na animação é o fato de Luca soar derivativa demais, aqui e ali despertando uma sensação de “eu já não vi isso antes?”. A própria natureza de Luca — e seu fascínio pelos humanos — remete à A Pequena Sereia, enquanto o cerne da trama — pais que não conseguem lidar com a independência que o filho ganha ao ir crescendo — é tema de outro filme da própria Pixar, Procurando Nemo. Não será este aspecto que irá impedir a diversão gerada pela obra de Casarosa, mas é um sentimento incômodo que surge de tempos em tempos, pois — com o perdão do trocadilho — nos impede de mergulhar de cabeça na narrativa. Felizmente, Casarosa compensa isso com uma atmosfera tipicamente italiana que deleita o público, ora com a ambientação e culinária típica exibida em tela — tente não ficar com vontade de experimentar os pratos e falhe miseravelmente —, ora com a belíssima trilha sonora composta por Dan Romer.

Luca é aquele tipo de filme que se resume a trazer uma narrativa básica, que pode soar batida por diversos aspectos. Seu trunfo entretanto é justamente o diretor Enrico Casarosa, que realiza tal básico com tanta paixão que torna tudo mais cativante. Tanto sentimento pode não ser suficiente para torná-la uma obra verdadeiramente marcante, mas resulta em uma produção de uma pureza única. Um filme divertido e caloroso, como uma tarde na Riviera Italiana deve ser.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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