Lua Azul

 Lua Azul

Não é preciso que o espectador seja um especialista na sociedade romena para identificar — tal qual no Brasil — a misoginia presente no país. Ao menos, é isso que é testemunhado no pequeno recorte criado em Lua Azul (Crai Nou), obra da diretora Alina Grigore que trata diretamente da violência contra a mulher de uma forma chocante — até gratuita, em alguns aspectos — criando, na abordagem de um único núcleo familiar, uma espécie de alegoria à forma que muitas sociedades oprimem e violentam suas mulheres, seja de forma física ou psicológica.

A trama foca em Irina (Ioana Chițu) e sua família. Apesar de sugerir interações comuns e esperadas entre os familiares, o que se assiste são constantes demonstrações de violência — em diversas formas, verbalmente, psicologicamente, etc — que sempre ocorrem com algum tipo de compensação emocional, assegurando que mesmo que seus parentes ajam de forma violenta, eles a amam. Embora a situação possa funcionar como recorte da sociedade romena, também é uma metáfora clara para a forma que relacionamentos abusivos são construídos, mas em vez de utilizar uma situação mais comum — relacionamentos abusivos entre um casal —, Lua Azul monta sua obra com outro cenário, também comum: o relacionamento abusivo dentro da própria família.

Este terror psicológico que se dá pela construção da violência clara, mas velada pela compensação emocional, é o centro da narrativa elaborada por Grigore, expondo o sentimento de pássaro engaiolado sentido pela protagonista, cuja única finalidade aparenta conseguir escapar daquele cenário construído cuidadosamente para aprisioná-la. A diretora utiliza um estilo frio, com câmera tremida e closes constantes, quase “assediando” sua protagonista, expondo-a para o público. As cores frias remetem a falta de emoção daquela família, ainda que — verbalmente — haja muito sentimento, assim como um bom uso do desfoque, que aparece em alguns momentos como se o próprio espectador estivesse com sua visão turva, como se também estivesse sofrendo das violências presentes no filme.

Grigore é eficiente na elaboração deste ambiente claustrofóbico, onde as emoções não possuem um viés saudável de manifestação, surgindo sempre através de explosões dos personagens. Entretanto, tal frieza aparente acaba se espalhando por toda a execução de Lua Azul, que falha em extrair do espectador alguma resposta emocional além do choque. Ora, se a metáfora fica clara logo nos primeiros minutos, não faria mal elaborar outros aspectos e construir algo para além do choque, já que mesmo com toda a agressão presente no filme — que literalmente abre com a protagonista sendo intimidada por outra familiar —, é difícil se conectar genuinamente com a narrativa. Existe, claro, empatia para com Irina, mas isso não se mostra suficiente no decorrer da narrativa, já que existe certa desumanização da própria personagem. Não sofremos com ela, pois ela não parece mais sofrer, embora racionalmente, saibamos que ela esteja sofrendo.

A montagem um tanto perdida, que desconecta o espectador da narrativa em diversos momentos, além do mote cíclico da obra, que não parece chegar a lugar algum não contribuem. Talvez seja um aspecto intencional, como que para evidenciar que o ciclo de violências impede que todos ali evoluam como seres humanos, mas é algo problemático no que tange à execução, já que mesmo relativamente curto, Lua Azul não tarda para tornar-se enfadonho, já que até mesmo seu viés extremamente realista torna a experiência desconfortável a níveis que a obra não entretém, o que poderiam caracterizá-la como um filme de terror psicológico de fato. Pelo contrário, torcemos para que Irina escape logo daquela provação, de forma a também nos libertarmos de assistir à sua aflição. Com tamanha angústia, perdem-se até mesmo algumas decisões inteligentes, como o sangue presente no ambiente que não parece ter origem em lugar algum. Afinal, a própria violência é escondida em plena vista.

Intrigante, Lua Azul é daqueles filmes cuja premissa acaba tornando-se mais eficiente que a obra em si. Alina Grigore mostra ter um bom controle da narrativa, mas falta um maior aprofundamento para que a produção funcione em sua totalidade, de forma que a ausência de uma conexão além da simples empatia entre espectador e protagonista se deteriora a medida que o filme caminha de forma repetitiva, funcionando enquanto alegoria, mas resumindo-se a isso, já que o choque e a consciência de que violência só irá gerar mais violência não é o bastante para que permaneçamos engajados na luta de Irina por sua almejada libertação.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 1.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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