44ª Mostra de SP | Limiar

 44ª Mostra de SP | Limiar

O que acontece com uma tela em branco quando ela permanece em branco tempo demais? É praticamente a pergunta aflige o espectador por boa parte de Limiar (Threshold), longa-metragem da dupla Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson rodado no Canadá, Armênia e Turquia. Na obra dos diretores estreantes, o público é convidado a permear diversos cenários que, ainda que belíssimos, não soam como parte de uma obra cinematográfica de fato. 

Talvez um experimento, sim. Mas é necessário tentar encontrar um filme em Limiar — algo intrigante, uma vez que não é comum precisar buscar —, já que a obra se resume às belas imagens exibidas na tela e alguns poucos diálogos proferidos pelo protagonista. Robert McKee, um dos maiores acadêmicos do cinema e cuja especialidade é o trabalho com roteiros, já afirmou que um filme depende do conflito, ainda que interno. Aqui, ainda que seja possível identificar certo conflito no protagonista  em questão — um cineasta, buscando locações na Armênia para seu próximo trabalho —, é algo que nunca é desenvolvido de fato. Por sua vez, sua busca soa vazia e só é relevante para que o filme tenha um motivo para percorrer os diversos lugares distintos.

Tais locações possuem sua própria história e uma carga emocional que deve ficar claro para aqueles mais contextualizados pela cultura armênia, mas falta o trabalho de situar aqueles de fora que chegam despreparados aqui. É como turistar por um país sem saber uma palavra do idioma local, resta abrir os olhos e apreciar a paisagem, ainda que elas não tenham nenhum significado verdadeiro. Neste ponto, ao menos existe a vantagem de apreciar a belíssima fotografia de Moeinoddin Jalali. Limiar poderia ser facilmente um exemplo de TCC realizado para um curso de fotografia. Com nota máxima, por sinal.

Limiar

Sem criar uma conexão genuína com a obra, seja de amor, seja de ódio, o filme torna-se mais apático a cada minuto, nunca despertando uma emoção verdadeira. O que vem a ser um problema, já que mesmo curto — a obra tem pouco mais de uma hora —, soa como uma viagem infinita, extensa, mas não prazerosa. Tornando ingrata até mesmo de tentativa de encaixá-la em um gênero ou subgênero do cinema: não causa emoção suficiente para ser um drama, não estabelece uma narrativa que possa fazê-lo um documentário e ainda que se mova entre lugares, não é um road movie, pois sequer chega a algum lugar.

Resta em Limiar a arte de ser uma obra unicamente sensorial. Há espaço — até demais — para que Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson fizessem algo diferente, fosse praticando o uso de metalinguagem — o protagonista é um cineasta, afinal —, ou mesmo desenhando uma jornada mais significativa — fosse de autoconhecimento, de pertencimento, etc —, já que aquelas paisagens claramente significam algo para o personagem. Quaisquer clichês colocados aqui seriam mais proveitosos para aliar a beleza imagética da obra à alguma emoção — qualquer que fosse — instigada no espectador. Infelizmente, o resultado acaba revelando-se apenas um belo, mas vazio exercício cinematográfico.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 1 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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