Lidando com a Morte

 Lidando com a Morte

No centro de Lidando Com a Morte (Dood In De Bijlmer) está uma temática muito interessante: a forma que culturas distintas lidam com a despedida de seus entes queridos, cada qual com suas interpretações, crenças e ritos. O documentário aborda o dia-a-dia de um centro funerário na Holanda que busca construir um serviço que possa abranger, de forma respeitosa, estas diferentes formas de se despedir de entes queridos. Com essa premissa em mãos, é triste constatar que o diretor Paul Sin Nam Rigter não consiga extrair muito para permear sua curta duração.

De fato, Lidando Com a Morte é realmente curto, com apenas 73 minutos — ou seja, pouco mais de uma hora —, mas mesmo assim, o que começa tão cativante perde fôlego rapidamente conforme fica claro para o espectador que não há, de fato, uma narrativa a ser contada. No que tange às culturas, a obra de Nam Rigter é bastante plural, inclusive possuindo um segmento focado em pessoas expondo o que elas acham necessário haver no funeral. Não apenas em medidas culturais, mas até mesmo comentando detalhes estruturais do local, como uma moça ganense comentando que o lugar precisaria ter banheiros grandes, já que os trajes para esta ocasião são bastante grandes e seria desconfortável se os banheiros fossem como “cubículos apertados“.

Lidando com a Morte

Momentos como este, em que o diretor tira proveito da temática ao abordar não apenas os ritos, mas também colocar diferentes costumes lado a lado, funcionam muito bem. Primeiro por ser algo realmente interessante e, provavelmente, novo para a maioria dos espectadores, e segundo por demonstrar, de forma prática, a dificuldade que Anita — a empresária por trás do centro funerário — tem nas mãos. Ela, que é o mais próximo de “protagonista” que Nam Rigter possui para ancorar sua trama, esbanja carisma e funciona por realmente conseguir vender sua vontade de criar um lugar respeitoso para todos, mas assim como ao filme, falta algo que torne a ligação entre Anita e o público mais forte. Nem mesmo certos acontecimentos na segunda parte da obra, que ressaltam este lado “humano” da empresária, conseguem fundamentar este vínculo.

É estranho constatar, justamente, a forma curiosa com que a obra negligência tudo que tem em mãos, tratando de um tema tão rico e com personagens tão interessantes quanto. Sempre que o diretor permite-se sair um pouco da temática, evitando engessá-la ao abordar apenas o lado empresarial da coisa, o resultado é instigante, já que o contato do espectador com tantas culturas e costumes distintos é um fator que chama atenção desde que lemos a premissa do filme. Mesmo assim, Nam Rigter opta por seguir abordando os trâmites burocráticos do centro funerário, optando por deixar de lado o que poderia ser um estudo à fundo daqueles personagens — enquanto recortes de suas respectivas culturas — em prol de abordar o desenvolvimento da empresa, preferindo seguir engravatados falando de negócios, o que não é tão instigante quanto parece, se é que possa parecer intigante.

Lidando com a Morte

Para uma obra que lida com um tema tão sensível, é notável como falta muito sentimento. Nam Rigter opta por uma filmagem indiferente, que segue seus personagens sem nenhuma empolgação, apenas colocando-se no lugar de observador — e como já dito, observando o aspecto menos interessante da obra — enquanto tudo se desenrola em sua frente. Muito se discute sobre os formatos de documentários hoje em dia, já que existe muitos optam por seguir fórmulas específicas, o que dá a impressão de que não dá para revitalizar muito dentro da forma. Mas mesmo assim, no caso de Lidando Com a Morte, formatos mais tradicionais — como o costumeiro “vídeo-entrevista” — poderia ser uma escolha mais acertada para extrair o melhor da temática. Afinal, quanto mais o filme encaminha-se para seu final, mais fica claro que seu maior destaque são as pessoas que passam pelo filme.

Embora isso possa soar um tanto desrespeitoso — entrevistar as pessoas sobre sua cultura em um momento de luto —, não seria o caso já que nem sempre o diretor está acompanhando um momento de luto, como na já citada cena em que grupos expõem suas necessidades para que Anita possa se certificar que poderá atendê-las quando seu projeto estar completo. Fica claro para o público, portanto, que havia espaço para que o diretor fosse mais a fundo e explorasse mais as possibilidades, mas sempre mantendo o respeito com todos ali. Para uma obra como Lidando Com a Morte, o resultado seria mais interessante e com certeza menos apático do que fora apresentado aqui, já que a obra cativa por sua temática que, infelizmente, acaba desperdiçada em uma execução repetitiva e esquecível.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 2 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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