Licorice Pizza

 Licorice Pizza

É fácil entender o fascínio exercido por Licorice Pizza antes mesmo do lançamento de seu trailer. Dirigido por um dos diretores mais interessantes de Hollywood, Paul Thomas Anderson — responsável por filmes como Boogie Nights, Magnólia e o praticamente unânime nas listas de melhores filmes dos últimos anos, Sangue Negro — e se passando nos anos 70, uma das épocas mais emblemáticas da história, a obra que originalmente tinha o título de Soggy Bottom — cujo significado não é relevante para que o nome soe hilário —, a obra já trazia consigo um certo ar de curiosidade e interesse, mesmo sem o público saber sobre o que a obra se tratava. E uma vez conferida, fica claro que é na prática, pouco importa de fato sobre o que é o novo filme de PTA: o que interessa mesmo é viver a experiência oferecida pelo diretor.

Experiência, essa, que encanta o espectador do começo ao fim mesmo com uma duração longa — a obra possui pouco mais de duas horas —, contemplando com bastante paciência a juventude pelo ponto de vista de uma dupla de jovens que, mesmo com a diferença de idade exposta no primeiro diálogo do filme, vive sua juventude aproveitando o máximo que ela pode oferecer. De muitas formas, é sobre isso que se trata Licorice Pizza, que desde seus primeiros minutos — com garotos explodindo uma dos boxes do banheiro da escola, uma “pegadinha” comum e familiar de outros filmes do tipo — até sua cena final, revela-se como jovialidade em forma de cinema. Tudo isso vestido por uma calorosa fotografia e uma trilha sonora lotada de clássicos que com certeza fará a alegria dos mais nostálgicos, sejam eles nascidos nos anos 70 ou não.

Essa proposta é até um tanto complexa para ser absorvida logo de cara, com Licorice Pizza por vezes soando como se seguisse a troco de nada, enquanto apenas contempla a vida — ou mais especificamente, a adolescência — acontecendo. Um olhar mais profundo, entretanto, revela que existe muito mais naquele doce retrato de uma vida sem limites, não de uma forma perigosa, mas sim no sentimento invulnerabilidade sintomático desta fase da vida, afinal, se há uma certeza para a maioria dos jovens é de que nada pode atingi-los. É um olhar cheio de deslumbramento que conduz a narrativa, demonstrado no contraste de seus dois protagonistas, Gary (Cooper Hoffman, filho do saudoso Philip Seymour Hoffman) e Alana (Alana Haim). Ambos caminhando em busca do próximo sonho a ser conquistado, ele sem nenhum medo do que possa aparecer em seu caminho, e a garota, mais velha, com hesitações que parecem diminuir conforme o jeito decidido do rapaz contamina a narrativa.

Licorice Pizza

Com isso, embora o filme claramente se classifique como uma história de amadurecimento, Licorice Pizza soa ao mesmo tempo quase como um anti-coming-of-age. Isso porque apresenta personagens que não seguem a trajetória comum vista em obras do gênero — a dupla demonstra bastante maturidade já na cena inicial, até mais do que em certos momentos no decorrer da trama —, sendo o verdadeiro amadurecimento o do relacionamento entre os dois. Algo realmente divertido de se ver já que PTA consegue desenvolver um relacionamento não apenas palpável — a química da dupla é invejável, de fato — como também interessante, já que os conflitos vividos por Gary e Alana não soam fúteis nem triviais, ainda que pudessem ser contornados com maior facilidade se os próprios personagens colaborassem. O que, de certa forma, cria ainda mais charme para toda a narrativa.

Situar a narrativa nos anos 70 permite também que PTA explore Licorice Pizza por outros ângulos que não necessariamente o amadurecimento da relação entre a dupla protagonista. Há muito espaço para que sua narrativa assuma a função de voltar-se ao cinema com um olhar apaixonado — os closes no olhar da agente durante a conversa com Alana e Gary, ou mesmo toda a sequência envolvendo o personagem de Sean Penn que daria um curta brilhante por si só —, enquanto também assume ares políticos ao tocar na temática da falta de gasolina — o que, por sinal, gera o melhor momento da narrativa — e até trazendo para a obra uma subtrama envolvendo política de forma mais direta em seu terço final. Não é à toa, portanto, que o filme acumule referências, detalhes, easter-eggs — o carro do Batman da década de 60 é tão aleatório quanto divertido — e coadjuvantes de luxo, como é o caso do hilário personagem vivido por Bradley Cooper, que levanta o nível da obra sempre que está em cena.

E ainda que estes momentos sejam tratados com um tom episódico dentro da obra, sem receber necessariamente um grande aprofundamento cada um, todos rendem sequências memoráveis por si só, acentuando a atmosfera nostálgica da obra. Como uma história narrada em memória, passando apenas pelos melhores momentos de uma vida sem oferecer necessariamente uma ligação entre tudo que não a presença de Gary e Alana. Não importa o que havia entre aqueles momentos de euforia que marcam a vida dos personagens, importa apenas tais acontecimentos e a montagem de Andy Jurgensen não apenas evidencia, como valoriza este fio-narrativo de aleatoriedades. E isso, por mais caótico que possa ser, representa mais a beleza da vida do que muitas obras que tentam encapsular — e falham — nesta ideia. Política, cinema, amor, sonhos. Licorice Pizza é sobre tudo isso ao mesmo tempo que é somente sobre seus dois protagonistas, com tudo ocorrendo perante seu olhar ingênuo, deslumbrante e indócil da juventude.

Licorice Pizza

Justamente por esta natureza que a escolha de Cooper Hoffman e Alana Haim mostra-se tão acertada. Não basta a dinâmica incrível entre eles, mas o fato de seus rostos não serem obviamente familiares — alguns podem reconhecer Alana da banda HAIM, mas possivelmente não será a grande maioria dos espectadores — ajudam a compor toda a ambientação. Assim, com a parede invisível que separa o público dos personagens ainda mais tênue que o normal, é como se PTA não quisesse apresentar ao público dois personagens saídos de sua mente, mas sim duas figuras verdadeiras e próximas, como se fossem amigos do espectador. Até o contraste exercido entre a presença deles e o de atores já familiares — John Michael Higgins, Tom Waits, Maya Rudolph e os já citados Sean Penn e Bradley Cooper — realçam esta sensação, algo que ganha até um tom mais onírico através da fotografia levemente texturizada de Michael Bauman.

Apesar de cometer alguns excessos — a subtrama política, por exemplo, faz sentido para o desenvolvimento de Alana, mas prejudica um pouco o ritmo da obra já próximo ao desfecho —, Licorice Pizza é encantador como poucos. Sua narrativa caótica contrasta, inclusive, com a do filme imediatamente anterior do diretor, Trama Fantasma, obra que perseguia obsessivamente a perfeição em cada um de seus aspectos, dentro e fora da narrativa. Aqui, Paul Thomas Anderson faz um filme cuja beleza e fascínio reside justamente nas imperfeições, já que não é uma obra perfeita e sequer parece almejar ser. E este é apenas um dentre vários aspectos que farão com que Licorice Pizza seja lembrado com carinho, certamente mantendo, junto ao público, o fascínio exercido desde que fora anunciado.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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