44ª Mostra de SP | Kubrick por Kubrick

 44ª Mostra de SP | Kubrick por Kubrick

Poucos diretores tiveram o mesmo êxito que Stanley Kubrick ao deixar sua marca na história do cinema. Com apenas 13 filmes realizados — entre documentários e longas ficcionais —, o diretor fez história e é considerado por muitos um dos maiores diretores do cinema, senão o maior deles. Dito isso, a experiência de assistir o documentário Kubrick por Kubrick (Kubrick by Kubrick), do diretor francês Grégory Monro é bastante interessante por revisitar não apenas a obra do cineasta, mas também sua mente.

De fato, a obra não é tão engrandecedora quanto poderia. Monro não é — nem tenta ser — Kubrick, ao passo que o documentário é até “pouco significante” diante do conjunto da obra do entrevistado, que fala por si só. O destaque é realmente a parte em áudio, contendo a entrevista que o diretor concedeu ao crítico francês Michel Ciment. Acompanhar tal conversa que permite que o espectador conheça mais do diretor — ainda que pouco mais — é prazerosa a ponto de tornar fácil a tarefa de ignorar a ausência de uma cinematografia mais apurada. E ainda assim, vale destacar o trabalho realizado na parte visual, que parte de um quarto em branco e, conforme o documentário avança, passa a mobiliá-lo/enfeitá-lo com itens icônicos da filmografia de Kubrick.

Kubrick por Kubrick

Conforme Monro repassa a entrevista citando algumas obras específicas — Lolita de 1962 é sutilmente ignorado sem nenhuma explicação, embora não seja difícil imaginar motivos — e os pôsteres dos filmes ou itens destes surgem no quarto digital, a obra também insere trechos dos filmes de Kubrick para ilustrar o que está sendo dito, além de entrevistas com os atores e equipe que haviam trabalhado com ele. A montagem de Philippe Baillon é boa — nenhuma das filmagens fora realizada para o filme, o que fica claro dada às qualidades das imagens de arquivo — e cumpre o papel de forma eficiente. E ainda que pouco inventiva, é interessante ver o documentário se “metamorfoseando” conforme avança na filmografia, trazendo boas referências como a trilha sonora de Laranja Mecânica ou mesmo tornando-se algo parecido como um painel, acompanhado de Hal-9000, ao falar de 2001: Uma Odisséia no Espaço.

As filmagens de arquivo tem seu valor. Atores que estiveram por trás de personagens icônicos como Alex DeLarge e Wendy Torrance falam sobre suas experiências com o diretor, abordando um pouco mais de seu comportamento no set, além de jogar uma nova luz sobre fatos amplamente conhecidos, como Shelley Duvall (Wendy) falando sobre seus takes excessivos com o diretor em O Iluminado, comentando que o processo criativo, embora exaustivo, funcionou. Já Malcolm McDowell (Alex DeLarge) não mede palavras para elogiar o diretor, apontando-o como um gênio que chegava ao set sem saber exatamente o que iria fazer, mas sempre sabendo trabalhar todas as adversidades que surgiam. Já Tom Cruise, que trabalhou com o diretor em seu último filme De Olhos Bem Fechados, fala com emoção ao contar quando foi informado do falecimento de Stanley Kubrick.

Kubrick por Kubrick

O documentário ainda abre espaço para um estudo sobre o cinema de Kubrick, ainda que de forma rasa. Novamente costurando algumas filmagens antigas, o documentário aponta o cinema do diretor que, embora passando por gêneros diferentes, tratam todos do mesmo tema: a explosão da irracionalidade do homem, de seu lado animal, que vive escondido sob uma camada da racionalidade advinda da civilização, seja ela no século 18 como em Barry Lyndon ou futurista, como em 2001. Assim, a teoria aponta que é dessa conexão entre consciência e inconsciência que se trata a obra de Kubrick.

Se o espectador não está familiarizado com a filmografia de Stanley Kubrick, não deve esperar que Kubrick por Kubrick abra as portas para este fascinante universo do diretor. Contudo, para aqueles que já assistiram pelo menos algum filme do diretor e tem algum interesse em entender um pouco mais sobre quem era Stanley por trás das câmeras — o filme não toca no âmbito pessoal, apenas no profissional —, a obra de Grégory Monro pode se provar como um documentário bastante fascinante, que com certeza complementa bem os estudos sobre a rica filmografia de Kubrick, ainda que — de certa forma — não faça jus a figura que o diretor representa na história do cinema. Entretanto, não seria pedir demais tamanha exigência?

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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