Kate

 Kate

Sim, você já viu esse filme. Eu também. O fato é que Kate do diretor Cedric Nicolas-Troyan (do assombroso O Caçador e a Rainha do Gelo) vem de um recente, mas já suficientemente longo costume da Netflix de realizar obras de ação estilizadas, mas um tanto genéricas. É dessa leva que surgiram The Old Guard Power, por exemplo. Entretanto, se é possível sacar cada uma das viradas na narrativa logo nos primeiros minutos da obra, ao menos Troyan a realiza com estilo.

Situar a narrativa no Japão, afinal, rende uma estética suficiente atraente ao espectador mais acostumado aos filmes de ação hollywoodianos. Apesar de não ser algo completamente inédito — existem outras obras com a mesma estética, mesmo situadas em cenários estadunidenses —, Troyan utiliza bem as luzes dos prédios e a trilha sonora com músicas de J-rock para criar uma atmosfera única, que remete diretamente às animações japonesas — os animes — e até à alguns jogos de videogame, como na sequência inicial envolvendo uma perseguição e um carro que parece ter saído de um cenário cyberpunk.

Esta identidade com ares de um videogame também é algo sentido em elementos usados pela narrativa conforme a protagonista (interpretada por Mary Elizabeth Winstead) avança em busca da pessoa que ordenou seu envenenamento. Com apenas algumas horas de vida restantes, resta a Kate tratar de realizar sua vingança enquanto passa por “fases” distintas, enfrentando os devidos “chefões” e utilizando até mesmo alguns recursos para manter-se de pé, como se fossem boosts de saúde, elemento comum em narrativas jogáveis. Isso é usado de forma bastante construtiva na obra, pois torna-se easter-egg divertido para o público gamer sem atrapalhar a experiência do espectador que não tem tanta familiaridade com a mídia em questão.

Kate

Se a ambientação é o aspecto mais interessante de Kate, o mesmo não pode-se dizer de seus personagens principais, já que todos servem ao arquétipo, mas não possuem um desenvolvimento muito profundo. Não que fosse necessário, já que Troyan e o roteirista Umair Aleem resumem o passado da protagonista em uma única e ligeira montagem nos primeiros minutos, contando ao espectador o que ele precisa saber sobre ela: ela é uma assassina, ela é letal. É o que importa. Há alguns flashbacks inseridos na narrativa pontualmente para quebrar um pouco da simplicidade da trama e dar um ar de mais profundidade, mas de fato não é algo necessário para o desenvolvimento da história, embora também não chegue a atrapalhar o ritmo. O maior problema quanto a isso recai, novamente, na previsibilidade que alguns arquétipos trazem consigo, principalmente com um ator do calibre de Woody Harrelson envolvido no projeto.

E se já não é algo surpreendente a esta altura, Kate faz uma coisa que parece inimaginável para um original Netflix alguns anos atrás: usar uma dose bem decente de sangue no filme, dando um gostinho a mais para as já boas cenas de ação dirigidas por Troyan. Alguns dos melhores momentos do filme — como o confronto na cozinha — funcionam unicamente por estabelecer o risco envolvido para a protagonista, criar uma sequência como esta em um filme com classificação indicativa mais baixa acabaria retirando todo o peso do momento. No mais, ainda que não entreguem algo muito diferente do que o cinema de ação tem realizado mais recentemente — mais precisamente após 2014, ano do primeiro John Wick — são cenas bem filmadas e que funcionam narrativamente como viés de tensão, pois sua escala cresce ao passo em que a protagonista fica mais debilitada.

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Da mesma forma, é ótimo como o diretor usa as sequências como complemento para a jornada de amadurecimento de Ani (Miku Martineau), ainda que esbarre em outro arquétipo comum dos últimos anos: o personagem casca-grossa que “amolece” após tornar-se, à contragosto, uma figura paterna — ou neste caso, materna — de um personagem infantil ou adolescente. Martineau, a propósito, convence bem como uma jovem com alguns conflitos internos, entregando uma atuação equilibrada entre o cômico e o dramático, o que funciona para sua personagem que é um pouco mais profunda que os demais. Já Winstead, que possui um bom histórico de papéis para assegurar sua capacidade enquanto atriz, não encontra um texto que lhe exija muito dramaticamente — há um ou dois momentos com uma carga emocional maior —, mas mostra-se com presença suficiente para cativar o espectador com uma personagem pouco emocional.

No meio de apanhado de clichês e elementos que remetem à outras obras do início ao fim, Troyan ainda encontra em Kate um espaço para fazer uma leve menção à como os EUA enxergam outros países. Não é suficiente para elaborar um criticismo de fato, mas ao menos mostra certa autoconsciência dos próprios clichês da produção, que endossa uma longa cadeia de obras hollywoodianas que usam a Ásia como pano de fundo sem buscar uma representatividade genuína, mas apenas mimetizando aspectos culturais que visem tornar seus filmes mais vendáveis ou na expectativa que isso crie uma atmosfera mais cool. E aqui funciona, é claro, mas muito mais pela estética — a fotografia de tons de neon é linda, realmente — e carisma das protagonistas do que por valorizarem a narrativa apresentada. Caso contrário, talvez Kate se saísse uma obra mais marcante, mas contenta-se em ser um entretenimento fugaz. Ainda que suficientemente divertido para manter-se acima de outras produções do gênero.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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