Hotel Transilvânia: Transformonstrão

 Hotel Transilvânia: Transformonstrão

Quando uma obra de animação tem qualidade — e retorno monetário — o suficiente, ela consegue estender-se em uma franquia que, se bem pensada estruturalmente, tem potencial para refletir em sua própria trama a história de seus espectadores, tal qual Toy Story fez durante os anos. A Sony Pictures Animation, entretanto, tem plena consciência de que não é nenhuma Pixar, tanto em matéria de roteiros quanto no aspecto técnico — ainda que geralmente este último não deixe a desejar nas obras do estúdio — e assim, quando Hotel Transilvânia: Transformonstrão (Hotel Transylvania: Transformania), quarto filme da franquia criada por Genndy Tartakovsky, incorpora em seu texto questões que dialogam diretamente com os anseios do espectador que cresceu assistindo aos filmes do hotel do Drácula, o resultado não possui o êxito almejado.

É de praxe que filmes infantis tentem agradar dois públicos distintos: as crianças — seu público-alvo, afinal —, mas também aos adultos que são responsáveis por levar os pequenos ao cinema. Desta forma, 10 anos após a estreia da franquia, Transformonstrão se coloca em uma posição privilegiada, dialogando com aquele mesmo público do original — tanto os adultos quanto as crianças da época — enquanto aborda crises comuns da idade ao passo que, tal qual o primeiro filme, aposta no choque geracional como chave para seu conflito, personificado pelo protagonista Drácula (dublado por Brian Hull, substituindo Adam Sandler que não quis retornar ao filme) e Johnny (voz de Andy Samberg), seu genro humano.

Hotel Transilvânia: Transformonstrão

A oportunidade que os diretores Derek Drymon e Jennifer Kluska tem em mãos é interessante e soa inspirada o suficiente para justificar um quarto filme, colocando Drácula em um tipo de “crise de meia-idade” — ou meio-século — ao decidir aposentar-se e deixar seu hotel para a filha Mavis (Selena Gomez, reprisando o papel) e Johnny, mas temeroso com o rapaz assumindo o local, dada sua personalidade exagerada. Ao tentar evitar entregar seu legado ao rapaz, o vampiro acaba por dar início a uma série de eventos que fazem com que Johnny vire um monstro — uma espécie de “monstro do lago Ness” — enquanto o próprio Drácula e seus companheiros sejam “desmonstrificados”, voltando às suas formas pré-transformação.

Ao se apoiarem no conflito de gerações contrastando as crises de cada uma — os pais que temem perder seu legado e os jovens que precisam se provar dignos de receber este legado dos pais, mas que costumeiramente não possuem maturidade ou autoconfiança para tal —, Drymon e Kluska conseguem criar um espectro mais dramático para a jornada principal, centrando boa parte da trama nos dois protagonistas, isolando-os dos outros personagens e afastando-os do hotel do título. Entretanto, muito disso se perde pela escrita não conseguir trabalhar o humor de forma que potencialize tais aspectos. Tudo fica bobo demais, o que é um problema mesmo para um filme infantil, pois subestimar as crianças é um dos piores e mais comuns erros que diretores de animações podem cometer.

Hotel Transilvânia: Transformonstrão

Estender o efeito da humanização de Drácula aos outros monstros é um exemplo disso. Pois ainda que seja bastante divertido ver a sequência de transformação, a ideia pouco tem a acrescentar para a trama do que algumas piadas deslocadas, ou pior, como no caso de um personagem em específico, cuja piada é apenas uma, repetida à exaustão. Isso acaba por evidenciar os problemas do texto do quarto filme, que vai perdendo força durante o segundo ato e mesmo com um clímax bastante tocante ao abordar com mais sensibilidade a relação de Drácula e Johnny, termina com a sensação de que Transformonstrão não vai muito além de um filler. Ou seja, um capítulo mais voltado à estender o conjunto do que realmente agregar em algo. Além do mais, fica claro que todos os aspectos trabalhados no filme poderiam facilmente ter sido trabalhados nos filmes anteriores, o que talvez formasse uma trilogia com um texto mais redondo para os personagens do que colocando um quarto filme para encerrar a franquia — será? — sem muito impacto.

A sensação de indiferença que cerca este quarto filme possivelmente é o maior problema de Hotel Transilvânia: Transformonstrão, principalmente por transparecer que a dupla de diretores realmente tinha um material que poderia fazer deste uma obra mais interessante que as outras da trilogia. Falta uma delicadeza maior para estender a força de alguns momentos para o restante da obra, que acaba apoiando-se no humor usual da série sem refletir como poderia se colocar em um patamar mais maduro, tal qual seu público. Da forma como é feito, entretanto, não parece que os dilemas trazidos para as telas irão conseguir dialogar com seu público, já que embora seja um encerramento, mais parece que o quarto filme quer reinventar-se para agradar a uma nova geração de crianças. Não que funcione, é claro.

Avaliação: 1.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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