Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa

 Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa

Essa crítica não possui spoilers.

Curioso pensar que há alguns anos — cinco, para ser exato — o público ansiava para que o Homem-Aranha, herói consolidado no imaginário do não-leitor de quadrinhos — graças a diversas adaptações no audiovisual, incluindo duas versões cinematográficas — pudesse interagir com os Vingadores dentro do universo compartilhado criado pela Marvel Studios. De lá para cá, a versão do herói interpretada por Tom Holland viveu uma jornada comparável apenas às das páginas dos quadrinhos: enfrentou o Capitão América, foi para o espaço enfrentar ameaças maiores que aquelas encontradas pela vizinhança e se uniu aos Vingadores. Tudo isso para, enfim, encontrar em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (Spider-Man: No Way Home) uma jornada intimista que obriga o protagonista a descobrir — ou redescobrir — o que é ser o Homem-Aranha.

Intimista, sim, o que não significa que o final da — primeira? — trilogia do herói no MCU abra mão do espetáculo. Isso porque Sem Volta Para Casa realiza, em uma escala menor, um trabalho semelhante ao realizado pelos Irmãos Russo em Vingadores: Ultimato. A diferença é que o filme-evento propunha-se a ser um clímax grandioso para uma saga, enquanto o trabalho de Jon Watts está mais para a celebração do próprio personagem. Logo, se Ultimato apoiava-se em diversas narrativas e personagens distintos enquanto encerrava um ciclo de uma narrativa maior, de certa forma limitando-se a ser uma conclusão desta, a nova aventura do Aranha opta por olhar para dentro do protagonista, sendo uma obra mais universal e que não se limita a fechar portas, ainda que leve o herói por decisões criativas cujas consequências não devem ser revertidas. Ao menos não tão cedo.

Partindo dos eventos mostrados na pós-créditos de Homem-Aranha: Longe de Casa, o novo filme mostra o herói lidando com as consequências de ter sido exposto diante do mundo. “Eu sou a pessoa mais famosa do mundo agora. E continuo pobre” diz Parker à certa altura do filme, o que de muitas formas conversa justamente com os dilemas clássicos do personagem: dificuldades financeiras, perigo aos entes queridos, conflitos internos entre as duas vidas que o herói vive, etc. E se muitos fãs torceram o nariz para o fato de Peter entrar para este universo sob a tutela de Tony Stark (Robert Downey Jr.), provavelmente ficarão satisfeitos com a narrativa proposta aqui, que ressalta tudo que o herói é e deveria ser. É uma obra que leva o mote principal do personagem — “Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades” — ao máximo, com cada sequência e cada dilema desenhado especificamente sob tais palavras, como que lembrando-nos delas a cada instante.

Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa

Com boa parte da opinião pública contra ele — cortesia de J Jonah Jameson (J. K. Simmons, cujo único defeito é não ter mais tempo de tela) — e vendo que tal exposição está afetando a vida das pessoas ao seu redor, Peter decide recorrer à Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) para pedir ajuda. Após uma tentativa de lançar um feitiço que apagasse sua identidade da mente do mundo, a dupla acaba abrindo uma fissura no Multiverso — a palavra-chave para os próximos anos da Marvel — e trazendo velhos inimigos de outras realidades. É a brecha necessária para que Watts e os co-roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers tragam à tona conflitos que não tiveram tanto espaço nos dois filmes solo do Aranha dentro do MCU, agora personificados nos vilões já familiares do público.

Com isso, personagens como o Doutor Octopus de Alfred Molina — cuja cena de introdução na ponte parecia ser o filme inteiro graças ao marketing — possuem um papel claro na narrativa, sem sustentar-se apenas pela nostalgia envolvida. O mesmo pode-se dizer do Duende Verde, cuja versão de Willem Dafoe mostra-se, novamente, como a definitiva. Tais personagens carregam consigo uma carga dramática forte, principalmente por mostrarem-se desafios altíssimos logo de cara — afinal, sabemos do que são capazes — e contribuem para criar um senso de urgência inédito nesta trilogia, de modo que o perigo ao redor de Peter Parker torna-se palpável. Além disso, a dupla entrega atuações fortíssimas, principalmente por trabalharem através de nuances emocionais que já haviam sido bem delineadas nos filmes de Sam Raimi, como no caso da voz de Dafoe que diferencia muito bem se quem está falando é Osborn ou o Duende, por exemplo.

Diferente da dupla, alguns outros vilões não exercem um papel tão definido dentro da narrativa — ainda que o Electro de Jamie Foxx ganhe contornos de alívio-cômico, que surpreendentemente funciona bem —, servindo mais para que Jon Watts possa criar uma infinidade de sequências de ação que são únicas entre si. Neste aspecto, o diretor mostra a que veio, abusando dos poderes do teioso e dos vilões para criar sequências verdadeiramente empolgantes e incutir um ritmo frenético à obra que só dá curtas pausas quando necessário, seja para abordar conflitos internos do herói através de momentos mais contemplativos, seja para introduzir mais um vilão. E apesar de parecer muita coisa, a obra evita estender-se demais em explicações — permitindo até conveniências um tanto incômodas —, expondo apenas o mínimo para o entendimento da narrativa e confiando no conhecimento do fã para preencher lacunas e pescar easter-eggs mais sutis, que surgem em frases, na trilha sonora ou mesmo em rimas visuais bem inseridas.

Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa

O arco dramático relacionado aos vilões, por sua vez, estende-se ao próprio Peter Parker de Holland, buscando no passado uma reconciliação com o presente. De certa forma mal recebido no MCU devido a algumas adaptações, seu arco sempre se encaminhou de forma inversa ao esperado: atuando primeiramente junto a outros heróis para depois caminhar completamente sobre suas próprias pernas, sem muita margem para que dilemas “menores” ficassem tão em evidência diante de grandes conflitos, como salvar o universo ou o transtorno pós-traumático após testemunhar seu mentor morrer em batalha. Logo, ao voltar este olhar para o passado — através do arco dos vilões antigos —, Sem Volta Para Casa busca uma forma de conciliar a versão de Tom Holland com a versão “original” do personagem — com os já citados dilemas clássicos — sem necessariamente jogar fora o que já foi desenvolvido desde sua estréia no MCU. Uma tarefa mais complexa do que parece, mas felizmente realizada de forma satisfatória.

Por baixo de uma boa camada de referências e easter-eggs, existem alguns problemas, como o fato do filme abordar nichos narrativos que tiram um pouco do foco esperado para a jornada do protagonista. Ainda assim, são questões que mesmo notáveis, não incomodam tanto dependendo do quão deslumbrado o espectador irá ficar com o filme orquestrado por Feige, Watts e companhia. Isso porque, tal como Ultimato, Sem Volta Para Casa depende, sim, da conexão emocional do público para funcionar em seu máximo. Desta forma, muitos detalhes — que não são mais que um aceno ao fã — ganham força, o suficiente para que perdoemos certas conveniências ou o malabarismo executado para que a obra encontre seu clímax. Neste meio tempo, entretanto, vale apontar o bom trabalho de escrita com os coadjuvantes, já que Zendaya, Jacob Batalon e Marisa Tomei possuem um peso mais direto na obra do que antes. Para Holland, cabe apontar que o ator tem um dos melhores textos para trabalhar de forma dramática desde sua entrada neste universo, provando seu potencial enquanto ator.

Buscando encontrar uma narrativa intimista em meio a um épico cinematográfico, Jon Watts faz de seu Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa o mais quadrinesco dos filmes protagonizados por Tom Holland. A obra segue a narrativa aberta em Longe de Casa, buscando redescobrir o protagonista enquanto eleva o tom da narrativa de todas as formas possíveis. Celebrando o legado do herói enquanto acena para novos ares, o filme traz em sua cena final um dos momentos mais tocantes e fortes de toda a jornada proposta até então, trazendo as grandes responsabilidades de forma intrínseca enquanto trabalha junto a Peter Parker — e junto ao espectador — a bênção e a maldição que é, verdadeiramente, ser o Homem-Aranha.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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