Higiene Social

 Higiene Social

Não há dúvidas de que a pandemia irá reverberar no mundo por muitos anos. Tal como fora o 11 de setembro no começo do milênio, a arte — assim como todas as áreas imagináveis — acabará trazendo ecos do Covid-19 por muito tempo. Ainda muito próximo do estopim de tudo isso, surgem obras como o canadense Higiene Social (Hygiène sociale) do diretor Denis Côté, que fazem do distanciamento uma parte conceitual de sua narrativa demasiadamente teatral. E se por um lado não é todo filme que consegue sustentar-se através de seus diálogos — como é o caso aqui —, ao menos existem elementos o suficiente para cativar atenção, mesmo com a ausência de uma curva dramática.

De muitas formas, Higiene Social funciona como um quadro em vez de, efetivamente, cinema. Côté coloca o espectador numa posição de observador de um plano praticamente imóvel, com seus atores posicionados em lugares estratégicos e mantendo o distanciamento uns dos outros. A câmera permanece estável enquanto o elenco em cena declama seus diálogos com a eloquência esperada de um teatro clássico, enquanto a ambientação ao ar livre dá um ar suficientemente “Shakespeare in the Park” para que o público remeta o filme a uma peça de ares clássicos. Um olhar para as consequências da pandemia na arte, ainda que não uma arte sobre a pandemia. E os diálogos acabam importando menos, pois o interesse é fisgado pela distinção da obra.

Higiene Social

A narrativa segue Antonin (Maxim Gaudette), um ladrão com lábia o suficiente para escapar das situações espinhosas que surgem em seu caminho, lidando com áreas distintas da sua vida — a lei, o matrimônio, a responsabilidade por seus atos, etc — em uma trama que evoca ares de anacronismo. Quase uma representação de um homem que inutilmente vaga através do tempo, como se numa tentativa fútil de enfrentá-lo, já que cada um desses aspectos surge representando através de uma mulher com figurinos de épocas distintas sem, necessariamente, fixar-se em uma base específica — é até estranho quando um dos personagem menciona a existência do facebook, por exemplo —, ao passo que não há, exatamente, um objetivo final. Alguns momentos podem apontar que a conquista pelo amor de Cassiopée (Eve Duranceau) é a busca do protagonista, mas é tudo tão abstrato que é difícil afirmar com certeza.

O fato é que Higiene Social acaba sendo muito mais interessante pelas possibilidades que evoca. Por não fundamentar nada, é possível interpretá-lo de diversas maneiras, desde que o público consiga ficar instigado por tempo suficiente neste conto anacrônico. O distanciamento, algo tão associado ao momento atual, também está presente de forma simbólica nas relações de Antonin, já que todas elas são expostas com bastante frieza, mesmo quando os diálogos correspondem a algo mais acalorado ou passional. São relacionamentos exageradamente engessados, graças a teatralidade da obra, que relativizam a autenticidade das relações que nutrimos com os mais próximos — no caso, representados pelas figuras da irmã, Solveig (Larissa Corriveau) e Eglantine (Evelyne Rompré), a esposa de Antonin — ou a simples reação universal, o carma, representado por Aurore (Éléonore Loiselle) e Rose (Kathleen Fortin).

Higiene Social

Falta, entretanto, algo mais. Os enquadramentos são belos, os atores e seus discursos são curiosos e todo o trabalho de estética — seja nos figurinos ou nos cenários — e de sonorização — a captação de som é muito imersiva —, mas não é suficiente para que Higiene Social mantenha sua força diante de uma narrativa que repete-se a cada ciclo. Antonin nunca divide a tela com a mesma pessoa, mas toda troca de personagens com quem interage faz com que a obra atue na mesma estrutura, ainda que cada nova mulher em cena acrescente um novo ponto de vista que, de certa forma, se complementam. Conforme o espectador nota que não existe uma costura entre conflitos — pois, de muitas formas, a obra não trata de nenhum —, mas sim apenas uma retroalimentação de algo exposto já na primeira cena — a ridicularização de Antonin —, tudo torna-se mais cansativo. Há novos ares quando Aurore entra em cena, ensaiando um caminhar diferente, mas nada que realmente mude o panorama a ponto de reavivar a narrativa.

De certa forma, portanto, Higiene Social acaba por ser um exercício de estilo. É interessante assistí-lo enquanto um tipo de experimento — que não necessariamente é algo inédito —, como uma peça ao ar livre com o texto ocorrendo de forma imutável mesmo que as aves cantem ou a iluminação mude. Aqui e ali pode haver um detalhe que chame atenção a ponto de ganhar o espectador por mais alguns minutos, mas no geral exige paciência e certa boa vontade para que o espectador se apegue. Se não aos personagens, aos textos discursados no belo cenário ostentado pela obra.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 2 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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