Free Guy: Assumindo o Controle

 Free Guy: Assumindo o Controle

Apesar de ganharem bastante notoriedade nos últimos anos, inserir referências escondidas — os famosos easter-eggs — em narrativas é uma prática bastante comum em diversas mídias, como nos games, na literatura e, claro, no cinema. Ainda que essa popularização mais recente tenha rendido um sem-número de referências jogadas apenas para agradar — iludir? — o fã mais passional de algumas obras, ainda existem aqueles que sabem como utilizar o recurso para engrandecer a narrativa apresentada. E o diretor Shawn Levy mostra que se encaixa neste segundo exemplo com Free Guy: Assumindo o Controle (Free Guy), obra que bebe de diversas mídias para melhorar o que já é surpreendentemente bom.

Com obras como Uma Noite no Museu e Gigantes de Aço no currículo, não é inesperado que Shawn Levy crie toda uma atmosfera “inocente” em um filme com tanta violência gráfica quanto esta. Quase como um sucessor da escola-Spielberg — que, por coincidência ou não, é responsável por Jogador Nº1, cuja premissa guarda semelhanças com Free Guy —, o diretor sabe muito bem equilibrar o tom leve de suas obras com narrativas que são, em seu cerne, dramas familiares. E aqui, o diretor encontra o parceiro ideal para fazer com que a obra funcione em seu máximo: Ryan Reynolds, protagonista que encontrou o equilíbrio ideal entre o humor leve e ácido e que consegue disparar diversas piadas mais “pesadas” mantendo a compostura de uma criança grande.

Free Guy

Na obra, Reynolds vive Guy, um NPC — non-playable character, ou simplesmente personagem não-jogável — que trabalha em um banco de Free City, um jogo online com ares de GTA. Nas missões de assalto, ele e outros personagens sofrem com a violência dos jogadores reais que, por meio de seus avatares, causam o caos dentro da plataforma. Entretanto, um dia Guy cria autoconsciência e suas ações acabam mudando o rumo do jogo, pois sendo um legítimo “cara legal”, o personagem recusa-se a partir para a violência, ainda que interagindo com os jogadores e ganhando pontos de experiência, subindo de nível, desbloqueando novos itens e tudo mais que qualquer pessoa que tenha passado algumas horas em qualquer videogame já não conheça.

Essa assimilação de elementos dos games no roteiro sem, necessariamente, tentar adaptar uma narrativa pré-estabelecida de um jogo específico, faz com que Free Guy seja uma obra interessante mesmo para aqueles que não são adeptos do mundo gamer. E é exatamente a forma como Levy e os roteiristas Zak Penn e Matt Lieberman trazem essas características para a obra que faz com que tudo seja divertido e de fácil compreensão. E sem a necessidade de recorrer a diálogos expositivos — existe um ou outro para explicar sobre a necessidade de subir de nível, mas é tão bem encaixado na trama que não chega a incomodar — que são quase uma regra para a maioria dos filmes baseados em games. Além disso, o diretor utiliza bem elementos offline da mídia, como os famosos streamers, incorporando-os à narrativa da obra, principalmente no terceiro ato.

Outro elemento que acaba sendo parte importante da experiência em Free Guy são as diversas referências, que tocam no mundo dos games, mas bebem mesmo é da fonte dos atuais blockbusters. O filme, que inclusive foi produzido antes da compra da Fox pela Disney, se beneficia muito dessa mescla de estúdios e cria momentos marcantes utilizando algumas propriedades intelectuais da empresa — é visível a excitação de Reynolds após um dos melhores momentos do filme, com uma expressão clara de “sim, nós conseguimos a permissão para usar isso” —, ao mesmo tempo em que constrói uma sútil, mas interessante crítica à escassez de ideias originais que existe em Hollywood atualmente.

Free Guy

É aí que entra Antwan, personagem de Taika Waititi que é o dono da empresa de Free City. Construído como uma caricatura do CEO moderno, que não se importa com a diversão do jogo, querendo apenas emplacar uma continuação cheia de falhas e sem criatividade em busca de dinheiro. O personagem é uma aparente carta branca para que o ator surte, com trejeitos exagerados e um senso de humor excêntrico. Quase uma versão live-action irritante e — ainda mais — exagerada de Roger Rabbit. Já Jodie Comer, que vive Millie — e também seu avatar no jogo, Molotov Girl — é a responsável por injetar a dose exata de peso dramático na obra. Sua presença contrasta perfeitamente com Reynolds, colocando os “pés no chão” para que Free Guy não caia no ridículo.

Sem medo do absurdo ou mesmo de tocar em alguns aspectos mais delicados — como os famosos trolls, que existem aos montes em jogos online —, Free Guy: Assumindo o Controle ganha força mesmo por transbordar tanto coração em sua jornada. É divertido e muito engraçado, mas seu maior mérito é fazer com que o espectador sinta o zelo com que Shawn Levy e sua equipe tiveram com os mínimos detalhes, dos efeitos especiais aos diálogos. Dessa forma, é praticamente impossível que o espectador não se divirta e, assim como em tantas experiências incríveis do mundo dos games, queira repetir a dose naquele universo colorido, caótico e emocionante.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também