Flee

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Documentários são um formato intrigante. Por vezes, cria uma narrativa a partir de eventos reais de um modo tão perfeito que parece delineá-los intencionalmente para fazer bom cinema. Em outras, parece refém da realidade documentada, havendo casos em que a própria temática e intenções contidas na obra mudam no decorrer do filme, trazendo histórias tão inacreditáveis que, se não fossem documentadas, seriam impossíveis de acreditar. E quando consegue um resultado de destaque, quase sempre paira a mesma questão: como os diretores conseguiram filmar tudo isso? Claro, geralmente é tudo fruto de uma boa montagem que disfarça a ausência de filmagens importantes, muitas vezes inserindo entrevistas de figuras importantes para aquela narrativa. Flee, por outro lado, acha uma alternativa mais criativa.

No caso, o diretor Jonas Poher Rasmussen opta por realizar seu documentário em um formato animado, utilizando as narrações do protagonista Amin Nawabi enquanto dá vida à suas memórias através de um belo traço 2D, trazendo certo ineditismo ao formato e certamente abrindo margem para cativar um público que não tenha tanta familiaridade. Assim, a animação de Flee costura-se à imagens de arquivo, o que concede ao filme um estilo bastante fluído, mas também traz um apelo visual que permite à obra trazer à tona pensamentos, sentimentos e também metáforas de uma forma completamente distinta, o que não apenas impacta o resultado — Flee é um filme muito bonito — como também engrandece ainda mais a narrativa contada, que por sua vez já é dotada de grandes momentos e um impacto emocional bem intenso.

Flee

Nawabi, o protagonista desta história, remonta sua vida desde que era um garoto no Afeganistão em 1984 até os dias de hoje, como um refugiado na Dinamarca. Se a escolha pelo formato animado contempla a dificuldade de fazer, nos dias de hoje, um documentário  sobre um passado que não fora registrado propriamente para a obra, também funciona para prezar pela identidade do personagem, encobrindo seu verdadeiro nome e face do público. Amigo de longa data do diretor, Nawabi tem sua história dissecada com muita sensibilidade por Rasmussen, sem que tudo se torne romantizado demais. Pelo contrário, Flee é dotado de momentos tensos, que são capazes de gerar comoção ou raiva — como a sequência do McDonalds —, enquanto sequências mais leves não se tornam irrealistas demais a ponto de quebrar a imersão do formato documental.

A liberdade criativa obtida pelo formato animado faz bem à Flee justamente por permitir que Rasmussen traduza de formas distintas os diversos sentimentos e memórias de uma forma lúdica e clara, sem precisar tornar o documentário mais expositivo que o necessário — algo louvável, já que documentários são praticamente compostos exclusivamente de passagens expositivas —, mas também por lhe conceder um atmosfera poética. Ao olhar para o passado, a obra traz diversos momentos que remetem a uma meditação, como se Nawabi estivesse em um tipo de hipnose, transformando o aspecto lúdico em um tom mais onírico e justificando as escolhas de animação que se cruzam na obra: traços rústicos e sem cores, como rascunhos, para aquelas memórias mais apagadas, em contraste com cores intensas e formas claras para as lembranças carregadas de forma intensa pelo protagonista ainda hoje.

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O uso das cores, aliás, merece um elogio à parte por trazer um estilo bastante artístico ao desenho sem abrir mão de suas características principais, ou seja, sem torná-lo realista demais. Há momentos como o que Nawabi se encontra em um avião e a noite, vista pela janela, encanta pelo belo visual, cuja pintura quase poderia ser confundida com uma foto do céu noturno, enquanto outras cenas chamam atenção ou pela paleta “fugir” do padrão — na sequência da balada, por exemplo —, além da obra como um todo encantar pelo seu nível de detalhes. É interessante também a forma como Rasmussen estrutura seu filme de uma forma mais tradicional, ou seja, com sequências — animadas — em que Nawabi senta e conta sua história para o entrevistador, recriando o formato que é visto em tantos outros documentários. E neste limiar entre o familiar e o original, Flee acaba conquistando uma liberdade única, que é bem utilizada para extrair o máximo de emoção da história de Nawabi.

Ao brincar com a linguagem da obra — tanto a linguagem documental quanto a de uma animação —, Rasmussen faz de Flee um filme intrigante e diferente do que o público está acostumado. E ainda que possa não soar como algo completamente original, é mais do que efetivo em entregar uma narrativa cativante e que toca em temáticas importantes de uma maneira toda particular. Sua trama traz um misto de sensações, das mais aconchegantes até as angustiantes, o que torna a experiência ainda mais distinta de tantas outras, mas o destaque fica realmente por conta de toda a sensibilidade e carinho que o entrevistador demonstra pelo entrevistado, resultando em um filme cuja razão de ser parece contrastar com a severidade da história contada. História que, por sinal, soa tão impressionante que é possível esquecer, por alguns segundos, que estamos assistindo a um documentário.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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