Crítica | Estou Pensando em Acabar com Tudo

 Crítica | Estou Pensando em Acabar com Tudo

Explorar os aspectos mais profundos da mente não é novidade no cinema de Charlie Kaufman. Quero Ser John Malkovich (Being John Malkovich) e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind) são dois exemplos de obras escritas por Kaufman que possuem uma atmosfera bastante surrealista e cujas histórias também abordam o íntimo de nossas mentes. E em Estou Pensando em Acabar com Tudo (I’m Thinking of Ending Things), sua terceira empreitada na cadeira de diretor, Kaufman entrega um filme não menos desafiador do que os já citadas. Pelo contrário, talvez esta seja sua obra mais complexa até então.

Isso por que é praticamente impossível colocar em palavras a temática da obra em si, principalmente se tentarmos fazê-lo logo após os créditos finais surgirem em tela. Estou Pensando em Acabar com Tudo é daqueles filmes que exigem certa reflexão, um tempo para a mente processar o que foi visto. No filme, a personagem de Jessie Buckley viaja para conhecer os pais de seu namorado Jake (Jesse Plemons), mas a viagem começa a tomar rumos pouco esperados e logo a garota passa por experiências que a fazem questionar a realidade. E não apenas ela, já que Kaufman não facilita e, embora deixe um bom número de pistas, o espectador não irá encontrar facilidade para entender tudo que está se passando.

Entretanto, é importante frisar que existe enorme diferença de quando uma obra é mal dirigida e quando ela é propositalmente confusa. Kaufman enquanto diretor — e também roteirista, neste caso — mantém um controle exímio sobre sua narrativa e mesmo com recortes de cenas e diálogos propícios para criar a sensação de estranheza, nunca parece se perder em suas pretensões. A confusão é devidamente calculada e requer apenas um pouco mais de atenção — e talvez uma revisão — para que sua história seja plenamente aproveitada. Frases e referências distintas — que vão desde ao filmes até nomes de psiquiatras — pontuam o filme, instigando frequentemente o espectador a buscar uma “chave” para desvendar o mistério. Mas não é assim que funciona.

Dividido em três atos bem claros — a viagem de ida, a sequência na casa dos pais e a viagem de volta —, o filme toca em temas comuns dos textos do diretor, como o “inexistencialismo” e a solidão, além de abordar a temática da passagem do tempo através de diálogos — como a frase que comenta sobre as pessoas imaginando-se como pontos movendo-se no tempo, quando poderia ser o inverso — ou cenas inseridas de forma precisa — a sequência das escadas ou o cachorro se secando —, brincando com a percepção de tempo do próprio espectador. Isso ainda se conecta ainda mais profundamente com a linguagem da obra quando notamos que a montagem nem sempre cria uma narrativa linear.

A “brincadeira” funciona ainda mais profundamente pelo alto nível do elenco visto aqui. Além dos já citados Buckley e Plemons, Toni Colette (Hereditário) e David Thewlis (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) estão no filme, interpretando os pais de Jack. Ainda que coadjuvantes, a dupla faz um ótimo trabalho personificando várias facetas de seus personagens, principalmente Colette que compõe uma atuação perturbadora, mas também tocante. Plemons, um bom ator, surge de forma introspectiva, mas conseguindo criar tensão mesmo nos diálogos mais corriqueiros e Buckley é a grande estrela do longa, já que sua atuação multifacetada é essencial, sendo o pilar de incertezas onde a trama surrealista se apoia. A atriz nunca entrega demais, mas seus olhares e até o tom de voz trazem nuances perceptíveis que trazem um incômodo espontâneo, ainda que até o final seja praticamente impossível desvendar o motivo para tal.

O filme, inclusive, surge como um daquelas que dá trabalho ao time de marketing da produtora. Divulgado como um terror — provavelmente por falta de opção, pois como já dito, não é fácil categorizá-lo —, o filme não necessariamente segue dentro deste gênero, embora possua sim algumas características. Tal qual o divisor de águas mãe! de Darren Aronofsky, trailers e afins podem confundir o espectador desavisado, criando até mesmo uma expectativa falsa que pode ser frustrante. Embora isso seja prejudicial, em ambos os casos são filmes realmente difíceis de serem “vendidos” e isso, por si só, já é um bom motivo para que o espectador vivencie a obra. 

Estou Pensando em Acabar com Tudo é uma dos filmes mais intrigantes do ano, sendo daqueles que mexem com as expectativas criadas e acabam por se destacar pelo conjunto da obra. Charlie Kaufman entrega algo curioso, melancólico, reflexivo, mas tão interessante que não tarda para despertar a vontade de revisitá-lo logo após chegar ao final. E nisso, refletir novamente, dessa vez tentando captar o máximo possível dentro do subtexto. É uma experiência cíclica, uma troca entre artista e público, onde o artista ao estabelecer sua obra sem verdades absolutas, faz com que o público tenha uma experiência que se estenda para além dos 130 minutos. E isso em si já torna Estou Pensando em Acabar com Tudo uma obra suficientemente valiosa.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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