44ª Mostra de SP | Entre Mortes

 44ª Mostra de SP | Entre Mortes

Do clássico O Sétimo Selo até a franquia Premonição, a morte é sempre representada como uma força — ou mesmo um ser — curioso. Destinada a perseguir os vivos, que estão fadados a encontrá-la cedo ou tarde, por vezes é motivo de medo e muitas vezes sua presença vem dotada de certo fascínio. Em Entre Mortes (Sepelenmis Ölümler Arasinda), de Hilal Baydarov, o diretor parece beber de várias fontes para construir uma instigante fantasia com toques de suspense.

Na obra, em um cenário nebuloso, acompanhamos o dia de Davud (Orkhan Iskandarli). Após uma divergência, o rapaz acaba por matar alguém — não fica claro se foi um acidente — e parte em fuga. A partir daí, a trama ganha contornos mais sobrenaturais, pois este carrega a morte consigo: em seu caminho, encontra mulheres cujo destino é afetado por sua presença e, de alguma forma, sempre deixa mortos por onde passa. Ainda que sem atentar diretamente contra a vida de ninguém.

Entre Mortes

O modo como Hilal Baydarov filma a jornada de Davud é interessante por trazer, visualmente, a sensação de ameaça. O diretor opta por realizar diversos planos abertos do protagonista ante uma bela paisagem onde a névoa está sempre presente e espessa, tal qual em O Tremor, este elemento visual funciona para criar tensão — e a sensação de que o tempo está se esgotando. Dado o roteiro da produção, é quase como se a morte se escondesse nesta neblina, realmente no encalço do rapaz que, ainda que sem intenção, carrega a morte consigo para onde vai. Além disso, o branco da névoa também remete à uma tradução visual do conceito de “ir para a luz”, o que cria uma experiência de dúvida, principalmente em uma cena que o protagonista “mergulha” nesta.

Da mesma forma, tal qual a morte que joga xadrez com o protagonista na já citada obra de Ingmar Bergman, é quase como se a figura aqui tivesse um apreço pelo protagonista. Ou mesmo esteja jogando com ele, já que o rapaz exerce um efeito magnético nas pessoas ao redor — vide a noiva que foge para evitar um casamento forçado e declama um enfático ‘eu te amo’ para Davud poucos segundos após conhecê-lo — e sempre escapa de seus perseguidores, que nunca parecem realmente capazes de alcançá-lo. Esse aspecto, embora pouco explorado no filme — ainda que ocorra repetidas vezes, é sempre de uma forma rápida e cíclica, sem se aprofundar — é fascinante e ressalta o surrealismo de Entre Mortes.

Entre Mortes

É interessante notar como esse aspecto mórbido soa como o verdadeiro protagonista — não fica claro se Davud é a própria morte, ou um avatar desta —, já que toda a atmosfera da obra é galgada em descobrir quem será o próximo a morrer e como isso ocorrerá. Ainda assim, a narrativa co-escrita por Hilal Baydarov e Rashad Safar não possui uma âncora — que não a curiosidade — para guiar o espectador, já que Davud não é exatamente um personagem carismático e sua jornada parece vazia na maior parte do tempo, ainda que bem fundamentada: o protagonista afirma buscar amor, mas não enxerga nenhuma das oportunidades de encontrá-lo que a vida lhe dá.

Entre Mortes é um filme fascinante, que deve agradar ao público que busca um filme belo e reflexivo. A jornada de Davud é interessante e a beleza dos planos dirigidos por Hilal Baydarov veste muito bem a poesia contida no enredo da obra. De fato, uma viagem como poucas.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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