Crítica | Enola Holmes

 Crítica | Enola Holmes

É interessante como os momentos iniciais de Enola Holmes já são perfeitamente conspícuos sobre a identidade da obra, e já apresentam todas as características que seguirão por seus 123 minutos: é um filme espirituoso, sagaz, e repleto de otimismo assim como a personagem-título. A imersão é imediata, e Enola (Millie Bobby Brown) com sua vivacidade e carisma, imediatamente nos insere na história numa sequência narrativa que impressiona por sua montagem inteligente, pela direção de arte e pelas técnicas que se assemelham a um livro pop-up interativo. O que cai muito bem na proposta da produção e na linguagem escolhida, e em poucos minutos, pronto: espectador conquistado. 

Inteligência e perspicácia são elementos que não poderiam ser coadjuvantes, afinal o filme é uma adaptação de O Caso do Marquês Desaparecido, primeiro exemplar da série de livros Os Mistérios de Enola Holmes da autora Nancy Springer, cujos 6 volumes narram os desbravamentos da irmã mais nova de Sherlock Holmes, criando uma inventiva extensão ao universo proposto pelo autor das obras do detetive, Sir Arthur Conan Doyle. Nesta franquia portanto, a protagonista obviamente não poderia ser uma detetive menos promissora e competente que o irmão mais velho, ainda que muito jovem. 

Nesta versão cinematográfica, acompanhamos Enola perfeitamente feliz sob a tutela da mãe Eudora (Helena Bonham Carter) na casa de campo da família Holmes, até que a matriarca desaparece na manhã de seu 16º aniversário, deixando a garota sob a tutela dos irmãos mais velhos, o azedo Mycroft (Sam Claflin) e o imponente Sherlock (Henry Cavill). A jovem se vê obstinada a encontrar a mãe, enquanto os planos do irmão mais velho são bem diferentes: escandalizado pela postura e criação da caçula — que recebia treinamentos em literatura, pintura, química, artes marciais e defesa pessoal, ao invés de bordado e piano como as jovens da Inglaterra vitoriana — Mycroft está destinado a fazer de Enola uma tradicional e doutrinada dama. 

É a partir daí que Enola não se deixa ser domada e parte em busca de pistas sobre sua mãe. Na jornada, seu caminho encontra o de Lord Tewksbury (Louis Partridge), um marquês engomadinho em busca de emancipação, que nem imagina que sua vida corre perigo. É na Londres dessa época que eles permearão em busca de respostas, enquanto movimentos sufragistas e de empoderamento feminino se desdobram em segredo pela cidade. 

Aqui, é inegável o grande trunfo do filme: a Enola de Millie Bobby Brown – que também assina a produção do longa – é expert em jogos de palavras e em disfarces e esbanja carisma, sustentado não apenas por sua empolgante atuação, mas também pelos arranjos narrativos propostos pela quebra da 4ª parede. Enola não apenas narra sua história e pensamentos como eleva a experiência conduzindo o espectador na jornada como seu cúmplice: pede conselhos, faz gracinhas, nos instrui e comemora conosco, sem jamais menosprezar nossa competência intelectual.  

É compreensível também que este elemento seja tão bem explorado graças ao diretor Harry Bradbeer, que explorou a técnica com maestria dirigindo 11 dos 12 episódios da aclamada série britânica Fleabag. Infelizmente, o que o filme esbanja em carisma e otimismo graças à direção fluída, à cinematografia primorosa e à trilha sonora divertida, ele falha proporcionalmente em ritmo e na rasa complexidade da trama. 

Em suma, é no segundo ato do filme que o ritmo se estende desnecessariamente, o que não compromete toda ótima construção até ali, mas reverbera posteriormente num desfecho apressado, cujas reviravoltas – um bocado previsíveis a quem se atenta aos diálogos – podem decepcionar os mais exigentes, apesar de caber na proposta da trama, afinal é de se levar em conta que o roteiro de Jack Thorne (Extraordinário, His Dark Materials) provém de um livro juvenil, cuja alta complexidade não é cabível ao público, mas peca quando classificada como uma obra de mistério. 

Por outro lado, um grande acerto são as relações entre Enola e os demais personagens, afinal o filme não poderia subestimar seu poderoso elenco. Com destaque para o Sherlock de Henry Cavill, desta vez dando vida ao detetive na sua mais exímia forma britânica com o charme do ator. Seu personagem permeia entre uma profunda curiosidade aos talentos da irmã, como também sua inspiração. Mas é Helena Bonham Carter quem rouba a cena, entregando os episódios mais memoráveis com a personagem principal através de flashbacks, majoritariamente. 

É nas memórias dos ensinamentos da mãe, que Enola encontra respostas para seus questionamentos e desafios, colocando ênfase na importância da relação parental e construção da afetividade entre as duas, com destaque para a memorável luta de cena em Limehouse Lane que alterna entre momento de tensão atual e as instruções de sua mentora. É profundo questionar o quão intensamente uma mãe pode ser exemplo para sua filha, e como tal relação pode determinar e perpetuar as causas pelas quais lutar. 

E neste ponto que entendemos todo background sobre Enola. Seu nome de trás pra frente não se refere à “alone” — do inglês, sozinha — no sentido solitário, mas independente. Não temos aqui uma jornada de autoconhecimento. Enola Holmes sabe quem é, ela é segura e capaz, está apenas tentando descobrir seu próprio caminho. E apesar de histórias em que a protagonista feminina sempre resolverá os problemas dos outros e os seus próprios seja um grande clichê, é importante lembrar que ela o faz porque é capacitada. 

Apesar de seus problemas, Enola Holmes é um sopro de encanto com sua estética refinada e recreativa, vale a pena se dispor à obra que promete se consagrar como um exemplo de protagonista articulada para as gerações atuais e vindouras. 

Enola Holmes chega em 23 de setembro à Netflix.

Avaliação: 3.5 de 5.

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