Encanto

 Encanto

Já foi dito sobre obras fantásticas que “se a magia não faz sentido, culpe o mago”. Encanto, da Disney, não tem um mago para quem essa culpa possa recair sobre, sendo que o mais próximo disso é a própria casa dos Madrigal — Casita, para os íntimos —, que personifica a fonte da magia dentro da obra. Mas se por um lado, a “mecânica” da magia não é realmente importante dentro da narrativa — a magia surgiu e funciona, é isso que importa —, a dupla de diretores Byron Howard e Jared Bush sabe bem como usá-la para engatilhar conflitos que certamente serão mais universais do que todo o aspecto fantástico da animação, seguindo a lógica de trazer para dentro de suas histórias personagens mais plurais com questões, também, mais plurais.

Girando em torno de Mirabel (voz original de Stephanie Beatriz), a obra conta a história da família Madrigal, onde cada membro recebe um dom fantástico — super-força, controle do clima, se metamorfosear, etc — ao passar por uma cerimônia quando chega em uma certa idade. Sendo a única da família a não ser agraciada com um dom próprio, Mirabel acaba descobrindo que a magia está em risco e, sozinha, parte em busca de uma forma de salvá-la. Partindo desta premissa, os diretores buscam trazer para a obra conflitos internos de seus personagens, que vão desde síndrome do impostor até ansiedade — gatilhada por motivos distintos —, de modo lúdico que não apenas irá se comunicar com as crianças, mas também dialoga com os jovens e adultos que eventualmente tenham contato com a obra e podem acabar se identificando com uma situação ou mais.

Encanto

Encanto, assim, parte de uma obra que esbanja o DNA da Disney com sua narrativa cheia de elementos mágicos e fantásticos para uma narrativa que aprofunda mais e mais seus personagens, muito mais interessada em trabalhar a relação dos membros da família Madrigal do que necessariamente criar uma aventura nos moldes clássicos. Esta característica, que chama atenção à primeira vista, acaba atribuindo uma dinâmica interessante ao desenvolvimento da obra, pois lhe confere certa imprevisibilidade: em mais de um momento, a trama de Encanto parece apontar para uma direção — certamente os espectadores mais assíduos do estúdio irão se pegar comparando-o à clássicos como Aladdin e também aos sucessos contemporâneos como Frozen — para acabar subvertendo algumas dessas expectativas.

Em certos pontos, essa subversão é bastante positiva, mas também confere à Encanto uma sensação estranha de que alguns conflitos estão sendo alongados para depois de sua resolução, ao custo de outras sequências soarem apressadas. Este aspecto é ainda mais sentido no terceiro ato, quando algumas resoluções acabam sofrendo pelo já citado desinteresse na “mecânica” da magia. Ou seja: se nem os diretores nem os roteiristas se preocuparam muito com o surgimento da magia, toda a resolução acaba soando automática demais, quase “fácil”. E se os conflitos que recebem maior atenção são os dos personagens — e não sua relação com os elementos mágicos —, isso apenas contribui para uma sensação de deus ex machina, acentuada pela forma que o filme assume seus antagonistas de forma muito mais simbólica do que personificada em uma única figura.

Apesar dessa sensação de que alguns aspectos são pouco espontâneos — abrindo margem para uma série de pequenas conveniências no decorrer da narrativa —, Encanto consegue fazer um bom uso de sua mitologia através de seus personagens. Cada um com carisma próprio — destaque para o Bruno, do qual não se deve falar, sem dúvidas um dos mais personagens fascinantes da animação — faz com que toda a família Madrigal se torne interessante e dá vontade de que a obra explorasse mais a fundo seus dons e conflitos. Também fica a curiosidade de entender melhor como é a relação da família com os outros membros do vilarejo, já que este parece ser um ponto importante da obra, mas que acaba não sendo explorado como a obra dá a entender no início. 

Encanto

Além disso, todo o aspecto mágico não somente é bem representado pela dinâmica da Casita — que dá continuidade a uma longa tradição do estúdio de atribuir personalidades carismáticas a objetos sem rosto —, como também pela forma que a dupla de diretores decide traduzi-lo visualmente, através de efeitos de luz que ao mesmo tempo que remetem a uma animação tradicional — da era do 2D —, destaca-se pelo jogo de luz e sombras que beira ao fotorrealismo. Além disso, toda a direção de arte da obra mostra-se um show à parte, principalmente pela criação dos cenários animados tão distintos entre si, com alguns deles funcionando como uma extensão das personalidades dos membros da família — a sequência da floresta no quarto de Antônio é uma obra-prima por si só —, mas também pelo nível de detalhes nos figurinos e nos personagens, permitindo que Encanto seja uma das animações mais representativas desta nova leva do estúdio.

O mesmo pode ser dito da trilha sonora, tanto a trilha instrumental composta por Germaine Franco quanto as canções de Lin-Manuel Miranda, sendo mais um entre diversos trabalhos de destaque do diretor, ator e compositor — que também fora responsável pela trilha de Moana —, que realiza aqui uma das trilhas sonoras mais “grudentas” do estúdio desde que Elsa (Idina Menzel) entoou Let it Go. Aqui, as canções ainda têm um aspecto mais abrangente, nem sempre girando em torno da protagonista — de fato, as melhores músicas da obra são sobre outros personagens —, além de trazer uma mistura de ritmos e vozes que dão um aspecto único a cada uma delas. Uma das grandes trilhas da Disney em muito tempo.

Encanto pode ter alguns problemas em seu desfecho, abusando de algumas conveniências para criar um desfecho agradável e cheio de magia, mas ao mesmo tempo soando um tanto corrido e até mais “grandioso” que o clímax da obra em si. Entretanto, sua trilha sonora, o trabalho visual e principalmente as temáticas bem abordadas na obra elevam todo o trabalho de Byron Howard e Jared Bush, colocando-o em uma posição de destaque entre as últimas animações do estúdio. E, claro, certamente será lembrada não apenas por suas canções, mas também por seus divertidos personagens. Afinal, é um grande prazer conhecer a família Madrigal.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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