44ª Mostra de SP | Em Meus Sonhos

 44ª Mostra de SP |  Em Meus Sonhos

Se quebrassem Em Meus Sonhos (Bir Düs Gördüm) em diversas obras distintas, talvez o resultado fosse algo mais centrado e coeso, ainda que com propostas diferentes entre si. O filme de Murat Çeri peca nesse aspecto, pois não tem um tom definido e transita entre gêneros — ora sendo um coming of age com toques dramáticos, ora mirando em um drama muito mais profundo, quase catártico — ao mesmo tempo que se esforça demais para emocionar o espectador.

A trama escrita também por Çeri gira em torno de Tarik (Harun Reha Pakoglu) um garoto de 8 anos que perdeu a memória em um acidente de carro com a família. Ele é obrigado a ficar com os avós em um vilarejo, seu pai faleceu e sua mãe ficou em coma. Se a história já não é tocante o suficiente, Çeri ainda tenta tornar tudo mais emotivo. Basta olhar para as imagens do filme que dá pra entender as intenções do diretor, retratando uma “dor poética” como se passasse a mensagem de que todas as pessoas que sofrem um trauma se tornam bondosas e puras. É um olhar otimista e super bem-vindo — estamos falando de cinema, é claro —, mas quando realizada de forma rasa, não funciona.

Em Meus Sonhos

O enredo até sugere maior profundidade em determinados pontos. Em paralelo à Tarik, por exemplo, há outro personagem interpretado por Recep Çavdar, que possui algum grau de deficiência — que o filme nunca explora —, que vive na mesma vila que o garoto. Em determinada cena, ele conversa com sua falecida esposa demonstrando mais lucidez do que no restante do filme, quando menciona que as pessoas o chamam de louco, mas são estranhos, pois temem a morte. Em outro momento, as crianças brigam pelo direito de serem um soldado — em uma brincadeira —, logo após uma cena onde seus responsáveis assistem a um filme de guerra na TV, mostrando como essa cultura de guerras podem ser um fator contribuinte para uma masculinidade tóxica. São fatores isoladamente interessantes e que nunca são devidamente desenvolvidos, pois o diretor não está interessado em trabalhar quaisquer elementos que não sejam para tirar lágrimas do público.

Em Meus Sonhos

Além de tudo, há uma incômoda exposição que torna tudo menos palatável. Tudo que é visto, é dito. E é repetido. Mais de uma vez. É bastante incômodo que o texto de Çeri funcione desta forma, quase antecipando a falta de atenção do espectador que não conseguirá embarcar na atmosfera de Em Meus Sonhos. O roteiro forma um conjunto esquisito junto à uma direção ineficiente, vide as sequências das crianças que são dotadas de zero carisma dos atores, além de diálogos engessados que apenas evidenciam a fraca atuação destes. A pouca beleza do filme consiste na cinematografia, mas até aí existe um porém: apenas nas sequências ‘reais’, já que as cenas que mostram seus sonhos parecem ter sido colorizadas com um filtro de instagram.

Em uma obra em que tudo soa artificial ou deslocada, não há muito o que elogiar. Infelizmente, Em Meus Sonhos é uma destes casos raros onde quase nada se salva. Ao reduzir seu filme a este aspecto emocional forçado, é como se Murat Çeri dissesse “Vamos emocionar o público, precisamos de uma criança, um deficiente e um animal. Pronto!” e não estivesse verdadeiramente interessado em realizar uma obra que, ainda que optasse pelo poético, olhasse para seus personagens como se quisesse verdadeiramente enxergá-los.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 1 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também