Em Guerra com o Vovô

 Em Guerra com o Vovô

Curioso assistir Em Guerra com o Vovô (The War with Grandpa) e constatar que é um filme que se passa em tempos atuais. Provavelmente toda a questão atual envolvendo a pandemia altera nossos olhares sobre as histórias mais recentes, tornando difícil situar a história numa época pós-pandêmica. Aqui, temos um mundo e uma rotina estranhamente conhecida mas que ao mesmo tempo parece tão distante de ser revivida que soa quase como um abraço apesar de toda a galhofa infantilizada. 

Talvez seja injusto criticar a obra pela sua falta de profundidade, afinal, se tratando de uma comédia familiar não podemos esperar uma obra revolucionária, a intenção é clara considerando o gênero: oferecer um bom momento de descontração e diversão e que alcança um equilíbrio irônico porque acerta em não se levar tão a sério, mas que erra proporcionalmente em não levar seu espectador a sério, descartando a possibilidade de nos surpreender com uma abordagem mais inventiva dentro do gênero.

Em Guerra com o Vovô

O enredo, os personagens, a estrutura e o desenrolar parecem um repeteco de filmes e histórias que já vimos anteriormente – criança tentando a todo custo se livrar de um adulto -, básico do básico. Na trama (baseada no livro infantil de mesmo nome de Robert Kimmel Smith), Ed (Robert DeNiro) é um aposentado recém viúvo que vê sua autonomia se esvair e é convencido – a contragosto – a morar na casa de sua filha Sally (Uma Thurman) e família. Tudo parece promissor, porém isso custa ao garoto Peter (Oakes Fegley) seu espaço, que tem que ceder o próprio quarto ao seu veterano e se alojar no sótão. Transtornado, e persuadido por sua “gangue”, Peter declara guerra ao avô, que a princípio resiste, mas (pasmem) se engaja vigorosamente na disputa. 

A premissa pode parecer simplesmente boba, mas evoca a identificação de gerações entre os personagens, ainda que de forma pouco profunda. Ambos estão deslocados de seus âmbitos e do núcleo familiar: enquanto Peter precisa lidar com uma escola nova, ser calouro e aturar valentões mais velhos, Ed parece ter muito tempo livre e pouco propósito –  depois de uma vida produtiva, a solidão do luto e dificuldade em se adaptar ao novo mundo tecnológico agora fazem parte de sua nova rotina. As mudanças foram desagradáveis a ambos, que encontram consolo e distração no embate, que apesar de tudo, é familiar, é seguro, e travado com muito apreço. As traquinagens trocadas entre os dois são simples mas efetivas (a cena da cobra na cama, seria uma referência à do cavalo em O Poderoso Chefão?), com menção honrosa ao episódico momento da queimada.

Em Guerra com o Vovô

Apesar de visivelmente saturado, Robert DeNiro ainda tenta, e entrega o melhor que pode com as ferramentas que tem, e o resultado é agradável. A relação que constrói em cena com Fegley é carismática, mas talvez não mais que a pequena Jenny (Poppy Gagnon), a caçula fofíssima e obcecada pelo Natal se destaca tanto quanto as aparições repentinas de Christopher Walken, que rouba a cena de tal forma que é impossível conter o riso. O prestigiado elenco é visivelmente uma das melhores entregas do filme, principalmente quando temos atores tão renomados em eventos tão inesperados e jocosos – certamente eu não esperava rir tanto ao contemplar Uma Thurman atropelada por um drone. 

É preciso admitir afinal, que apesar dos deslizes a repetição de piadas, que por vezes são forçadas e exaustivas – principalmente se tratando das cenas do amigo de Peter, Steve (Isaac Kragten) -, o diretor Tim Hill (Alvin e os Esquilos, Bob Esponja: O Incrível Resgate) consegue conduzir bem a história, sobretudo ao introduzir cenas que retornam à eventos passados para contextualizar o presente, conferindo ao filme uma fluidez simpática. 

De forma geral, a produção pode não ser um produto perspicaz e profundo, mas definitivamente não é tedioso. Seus 94 minutos engajam o espectador rapidamente e são surpreendentemente agradáveis, de forma que me arrisco a dizer, principalmente em tempos tão tortuosos como os atuais, Em Guerra com o Vovô pode ser a melhor coisa do seu dia.

Avaliação: 3 de 5.

Em Guerra com o Vovô terá sessões em cinemas selecionados a partir de 13 de maio, com estreia marcada para 20 de maio.

Priscila Moreira

Co-fundadora do Salve Ferris. Criada pelos filmes desde os anos 90. Feita de 2/3 de Morticia mas a outra parte é Carrie Bradshaw.

Leia também