Duna

 Duna

Há aproximadamente 10 anos que a Warner tenta emplacar uma franquia de sucesso para chamar de sua. Portanto, é no mínimo curioso notar a forma que o estúdio tem tratado a produção de Duna (Dune) desde seu início. É claro que, para obras “novas”, que estão chegando ao cinema sem um público-alvo já estabelecido — neste caso, o apelo prévio era apenas com os fãs do livro —, não é tão seguro assumir dois ou três filmes de uma única vez. Mas aqui, é um tanto surpreendente que tenha sido declarado e reafirmado que uma continuação da adaptação de Denis Villeneuve estava diretamente ligada a uma boa bilheteria, já que os créditos iniciais assumem o que todos já suspeitavam ao apresentar descaradamente o título do filme acrescido de um “primeira parte”, como se o estúdio já confiasse antecipadamente que a epopeia desértica faria sucesso suficiente para valer a aposta em uma segunda parte.

A adaptação gira em torno de Paul Atreides (Timothée Chalamet), descendente de uma dinastia e peça-chave dentro de uma profecia que impactará o universo apresentado em Duna. Com uma narrativa intrincada e uma mitologia completamente nova a ser apresentada, Villeneuve se propõe a tecer minuciosamente os detalhes dessa história e as características necessárias para que o público possa imergir na obra, desde aspectos políticos e religiosos — que se fazem presentes tanto na língua quanto nos trajes dos diversos personagens — até o estilo visual que dá conta de delinear as diferentes culturas e planetas que servirão de cenário para o épico. E se a mitologia é bem construída através da condução acertada por parte do diretor, nota-se que o esforço mais funciona para contextualizar o universo do que de fato contar uma boa história.

Conhecido por seu cinema metódico e intenso, que apesar de nutrir um estilo próprio, lembra um pouco o trabalho do diretor Christopher Nolan, Villeneuve entra como uma escolha certeira para Duna, pois além de não ter nenhuma franquia sob suas mãos até então — sendo a continuação Blade Runner 2049 o mais próximo disso —, o diretor tem um apuro estético bem distinto em sua filmografia, que funciona tanto em suspenses urbanos como em Os Suspeitos até dramas com ares de sci-fi como A Chegada. Além disso, sua base de admiradores já é bem estabelecida, o que poderia contribuir para uma boa recepção por parte da adaptação. E neste aspecto, Villeneuve encontra em Duna a oportunidade perfeita para exercer seu estilo, aproveitando-se de cada detalhe para criar um trabalho esteticamente distinto, que não apenas se diferencia dos atuais blockbusters, mas também de outras narrativas épicas com construções de mundos próprios, como Star Wars e a trilogia O Senhor dos Anéis.

Duna

Esse apelo, entretanto, não flui diretamente para a narrativa contada. Sendo publicado pela primeira vez em 1965, Duna é um verdadeiro marco da literatura fantástica que, além de já ter chegado aos cinemas anteriormente — pelas mãos de David Lynch na década de 80 —, também inspirou um sem-número de outros contadores de histórias que passaram pela literatura e pelas telonas. Desta forma, embora o espectador possa sentir que está entrando em um novo universo pela experiência visual entregue pela obra, a narrativa traz aspectos bastante familiares ao público, presenciados em diversas obras distintas, dos já citados Star Wars e Senhor dos Anéis à outros fenômenos contemporâneos como Harry Potter e Game of Thrones. Isso por si só não seria suficiente para impedir uma boa experiência com o épico, mas o afastamento emocional criado pela trama pesa muito no decorrer de seu desenvolvimento.

É inegável como Duna é um épico grandioso, cujo universo oferece incontáveis possibilidades justamente por uma mitologia extensa e diversos conflitos já estabelecidos neste primeiro contato, mas sua narrativa compõe um épico vazio. Ironicamente, entretanto, para uma obra que possui uma atmosfera tão quente graças aos seus cenários desérticos, Duna é frio demais ao coração do espectador, falhando em estabelecer uma conexão eficiente com o público. Desta forma, enquanto Villeneuve se ocupa em fazer com que entendamos o universo da adaptação, ele falha em conseguir que nos envolvamos com seus personagens e, assim, todo o trabalho realizado para tornar a fantasia grandiosa perde-se em conflitos que soam indiferentes, agravado ainda mais pela duração extensa da obra, pois sem um envolvimento genuíno com sua narrativa, o filme torna-se rapidamente cansativo.

Ocupando-se em estruturar e apresentar este universo ao público — tipo de limitação que não se aplicaria, possivelmente, em vindouras continuações —, Villeneuve acaba criando uma trajetória introdutória, que mais parece um prólogo da verdadeira história do que, de fato, uma trama por si mesmo. Para tal, o eficiente trabalho de montagem destaca-se em cruzar a narrativa principal — a jornada de Paul Atreides desatando os nós de seu destino profético — com as visões que o protagonista possui, despertando curiosidade enquanto contempla o próprio desenvolvimento do protagonista vivido por Chalamet de forma contida. Já o trabalho de design de produção encanta não apenas por ajudar a imersão na mitologia, mas também por exercer de forma eficiente a narrativa daquele universo. Ou seja, os trajes, as armas e os objetos, as naves, tudo carrega em seu visual aspectos que transmitem as diferentes dinastias, as crenças, personalidades e a história pregressa desses personagens. 

Duna

É um trabalho eficiente para que todos esses aspectos, por menores que sejam, funcionem para contar a história ou construir este universo, e há pouco — ou nada — na obra que soe deslocado ou exagerado. Algo sentido também no roteiro, que mesmo condensando apenas parte do livro, não possui espaços vazios dentro da obra, pois seja por meio de diálogos, seja por meio de sequências de ação, sempre há algo sendo desenvolvido por Villeneuve, ainda que nem sempre fique claro os motivos para tal: são aspectos importantes para este filme ou apenas para fundamentar uma narrativa futura? É difícil apontar com precisão. Da mesma forma, muitas das ameaças estruturadas parecem uma grande promessa de futuro e até mesmo os vermes da areia, tão presentes no marketing do filme, surgem apenas em momentos pontuais da obra, bem inseridos para causar tensão nos momentos mais propícios para tal.

Com o desfecho, nota-se que Duna apoia-se em sua grandiosidade para abraçar o espectador — seja este fã do livro ou alguém não familiarizado com este universo — enquanto assume seu caráter introdutório, evidenciando-o nos diálogos finais — “Isto é apenas o começo” diz a personagem de Zendaya em certo momento —, com os personagens de olho no horizonte da franquia. Uma vez estabelecida, há potencial de sobra para que a segunda parte alcance um resultado ainda mais ousado, e cabe a esperança de que Villeneuve retorne com um tom mais emocional dessa vez. O universo, afinal, já foi apresentado — de forma digna, mesmo com os já citados problemas —, agora resta ao diretor trazer o espectador à jornada de Paul Atreides de uma forma mais genuína, mais emocional. De nada adianta, afinal, uma obra que apenas enche os olhos, principalmente se tratando de uma jornada com tamanho potencial para ser um dos próximos grandes ícones do cinema.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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