Doutor Estranho no Multiverso da Loucura

 Doutor Estranho no Multiverso da Loucura

Costumo apontar o terror como um dos gêneros mais versáteis e interessantes do cinema. E é comum que diretores que se aventuram por ele se sobressaiam em outros projetos.  John Carpenter, Peter Jackson e, mais recentemente, James Wan, são alguns nomes que marcaram o gênero e, eventualmente, realizaram grandes filmes fora dele. O mesmo pode ser dito de Sam Raimi, diretor que se criou no terror e que já havia brincado com super-heróis na trilogia Homem-Aranha, onde incorporava toques do gênero em algumas sequências — a cena do Doutor Octopus no hospital me vem à cabeça imediatamente. Entretanto, só agora, no comando de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (Doctor Strange in the Multiverse of Madness), que ele realmente encontrou a forma perfeita de mesclar o gênero no qual se formou com um super-herói mainstream

E a escolha não poderia ser mais acertada, pois se tem personagens no MCU hoje que evocam essa atmosfera, certamente são o Doutor Estranho e a Feiticeira Escarlate. A dupla, vivida por Benedict Cumberbatch e Elizabeth Olsen, protagoniza a sequência do filme de 2016 enquanto retoma narrativas desenvolvidas nos dois últimos Vingadores, em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa e também na série WandaVision. Afinal, por mais personalidade que tenha, Multiverso da Loucura não escapa de ser mais uma engrenagem na já extensa teia narrativa criada pelo estúdio. Não que isso seja um demérito, pois até mesmo a famigerada “fórmula Marvel” ganha ares muito mais estilosos nas mãos de um diretor como Raimi, cuja assinatura é bem forte e, felizmente, se faz notar na obra.

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura

Ou seja, ainda que Multiverso da Loucura seja um filme de super-heróis com o DNA do Marvel Studios, ele também é, para todos os efeitos, um filme de terror. Misturando estilos, técnicas e uma boa construção de suspense, Raimi aproveita o conceito do multiverso para permitir-se tocar o filme com quase nenhuma limitação criativa. Isso se aplica tanto nas composições visuais para representar as magias de Strange e Wanda, os poderes de América Chavez (Xochitl Gomez, fazendo sua estreia no universo Marvel) ou as diversas realidades — uma sequência em particular é tão visualmente fascinante que ela, por si só, já faz o filme valer —, mas também se aplica na liberdade narrativa que Raimi — sob a tutela de Kevin Feige — trazem para a obra. Desta forma, enquanto Multiverso da Loucura talvez seja o filme com o maior número de fan services do estúdio, o uso dessas referências — e dos desejos dos fãs atendidos — são colocados à favor da história, em vez de soarem como uma distração a fim de desviar a atenção do público dos problemas da obra. Não é um mérito isolado, por assim dizer.

Ao embalar todas essas ideias em uma atmosfera de terror, Multiverso da Loucura não apenas ganha forças no sentido autoral — é um refresco para os espectadores já cansados da fórmula —, mas também expande seu alcance para os que esperam ver um filme com a assinatura do diretor, um legítimo “filme dirigido por Sam Raimi”. Essa brincadeira, aliás, acaba evidenciando a própria estratégia do estúdio para a atual fase de filmes, ao tentar se renovar criando vertentes mais autorais, algo que já era notável em Shang-Chi e Eternos. Desta vez, porém, o risco de criar um filme de terror — que por sua vez é um gênero um pouco mais “restritivo” e com características facilmente reconhecíveis —, embora ousado, esbarra na necessidade do filme reafirmar-se como parte de um universo maior. Há um bom equilíbrio entre as duas facetas na maior parte do tempo, mas nas poucas vezes que os limites se fazem presentes, tornam-se evidentes.

Ainda assim vale apontar que tanto Sam Raimi quanto o roteirista Michael Waldron se saem muito bem ao equilibrar o escopo mais intimista e autoral com a já tradicional megalomania do universo Marvel. Mesmo que Multiverso seja marcante pelos personagens que aparecem — às vezes por pouco tempo — no decorrer da obra e pelas portas que permanecem abertas para o futuro — convidando as mentes criativas do estúdio e os fãs a pensarem no que está por vir —, seu maior mérito reside na ousadia e no desenvolvimento da dupla principal. Não à toa que tanto Cumberbatch quanto Olsen levem seus personagens por caminhos nunca vistos e, com isso, conseguem extrair suas melhores performances dentro da franquia até aqui, principalmente Elizabeth que rouba, sem muito esforço, a maioria das cenas em que aparece.

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura

América Chavez, por sua vez, não tem a mesma sorte que seus companheiros de cena. Novata no MCU, Xochitl Gomez cativa pelo carisma, mas infelizmente sua personagem tem sua presença reduzida a funcionar como um artifício do roteiro, sendo mais importante para movimentar a trama — e impulsionar as motivações do antagonista da vez — do que ter relevância propriamente dita. Sua heroína é mais “personagem” do que outros que surgem apenas para satisfazer os fãs sedentos por easter-eggs, mas é pouco quando comparada a coadjuvantes como Wong (Benedict Wong, sempre divertido em cena) e a dra. Christine Palmer (Rachel McAdams com uma participação bem mais interessante que no filme anterior). Assim, sua presença acaba evidenciando um problema comum na Marvel, que é a eterna “promessa para o futuro” de elementos que deveriam ser relevantes no presente. Que venha a se concretizar, então, ao menos para fazer jus ao já citado carisma da atriz.

Mesmo com muitos acertos estilísticos e narrativos, talvez o maior deles seja que Sam Raimi consegue algo que apenas os Irmãos Russo haviam conseguido de fato: criar novas — infinitas — possibilidades para um universo já estabelecido. Provando-se como um dos melhores diretores que passou pelo estúdio, Raimi é um dos poucos que consegue revelar todo o potencial do universo Marvel — e brincar com isso de uma forma verdadeiramente interessante —, abrindo espaço para que os próximos nomes por trás dos filmes do estúdio sintam-se à vontade para explorar vertentes cada vez mais complexas e distintas. Tudo indica, afinal, que as histórias que estão por vir serão — ainda mais — fora da fórmula ao qual o espectador já está acostumado.

Mesmo com algumas amarras bem visíveis aqui e ali, Sam Raimi entrega uma das obras mais ousadas do estúdio. Seja no manejo dos eastereggs — para os fãs da Marvel ou para aqueles já familiares à filmografia do diretor —, na criação da atmosfera do horror ou na forma como trabalha os protagonistas, Raimi demonstra ter um grande domínio sobre os personagens e o universo que tem em mãos, fazendo jus à loucura sugerida pelo título. Fica a torcida para que essa ousadia seja abraçada — pelo estúdio e pelo público — e que autores como Raimi possam cada vez mais inserir suas vozes nas produções da Marvel. Afinal, uma coisa que fica clara com Multiverso da Loucura é que quanto mais imprevisível, melhor.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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