Cruella

 Cruella

É quase impossível escapar dos mesmos pensamentos sempre que um novo live-action baseado nos clássicos Disney é anunciado ou lançado. O exercício de desapegar da nostalgia para conseguir abrir o coração a novas visões — ainda que colocadas sobre animações clássicas — não é fácil, mas ora ou outra mostra-se necessário para que o espectador possa simplesmente apreciar uma velha trama contada de forma nova. Ironicamente ou não, Cruella, obra que se propõe a revisitar a história da icônica vilã de 101 Dálmatas, acaba não precisando de muito esforço para se desvencilhar de suas origens, já que sua sequência inicial brinca com a expectativa enquanto delicadamente delimita seu próprio espaço e identidade para além de um simples spin-off ou adaptação.

Não apenas em personalidade, mas Cruella é dotado de uma liberdade criativa bastante presente, até mesmo a ponto de ressignificar a palavra “origem”, pois não apenas mostra a infância da vilã como seu “nascimento” — muito mais metafórico que literal — a partir de uma história de vingança, mas não necessariamente traumas que busquem justificar sua natureza. A maldade de Cruella, afinal, assim como seu brilhantismo e criatividade, sempre estiveram lá e são parte de quem ela é mesmo quando esta tenta apenas se encaixar. A escolha certa para comandar tal narrativa veio com Craig Gillespie, que assumiu o projeto após comandar Eu, Tonya, que também traz uma protagonista de índole questionável — para dizer o mínimo —, mas que precisa provocar certa empatia do espectador para que a obra possa funcionar. 

Cruella

A outra peça crucial aqui é Emma Stone. A atriz que vem demonstrando uma forte versatilidade com papéis mais doces e outros mais cruéis encontra em Cruella a oportunidade de construir uma personagem complexa com comportamentos e emoções extremas. Sua Cruella transita entre a delicadeza e a perversidade em pessoa com uma facilidade impressionante, conduzindo a narrativa com uma acidez que não funcionaria se a atriz não convencesse em alguma de suas facetas. Apaixonantemente cruel, a versão da vilã também é surpreendentemente humana e não parece tão maniqueísta quanto seu cabelo perfeitamente dividido entre o preto e o branco sugere: é possível enxergar afetuosidade no olhar maligno de Cruella ao mesmo tempo que há resquícios de maldade em seu jeito ingênuo e aparentemente inseguro. Uma dicotomia fascinante que a humaniza sem evitar seu status de vilã.

Para isso, a Cruella de Stone não é apenas a vilã clássica, mas também uma rebelde contra o status-quo, característica que combina perfeitamente com o contexto da personagem enquanto ícone da moda. Ao construir sua narrativa nos anos 70 — momento interessante já que é pontuado pelo punk rock, ritmo que por si só é um símbolo de rebeldia —, Gillespie abre margem para trabalhar sua personagem em um contexto mais abrangente e identificável, colocando-a como uma alguém que busca “rebelar-se contra o sistema”. Sistema este que é personificado pela figura da Baronesa (Emma Thompson), antagonista ao melhor estilo O Diabo Veste Prada — ainda mais tirana e fria do que a personagem vivida por Meryl Streep — que é, também, o grande nome da moda dentro da obra. Divertidíssima no papel, Thompson protagoniza alguns dos melhores momentos ao lado de Stone — como toda a sequência do baile preto e branco —, sendo a química entre as duas atrizes certamente um dos pontos altos do filme. 

Ao compor este duelo dentro do cenário da moda nos anos 70, Gillespie se arma de tudo que é possível para blindar sua obra dos problemas, que aqui e ali chamam atenção. Logo, o CGI exagerado — que consegue distrair da trama, o que é um problema — e algumas viradas óbvias, além da montagem dinâmica, mas que cobra seu custo ao tornar tudo apressado demais — diminuindo o impacto de alguns momentos — são pontos que acabam suavizados pela trilha sonora — um show à parte — e os exuberantes figurinos de Jenny Beavan (Mad Max: Estrada da Fúria). Estes, que junto a Emma Stone protagonizam a melhor sequência do filme, chamam muita atenção, não apenas por serem incríveis como também por propagar a provocação que é de praxe dentro do cenário da moda. Afinal, como a própria protagonista afirma em mais de uma ocasião: ela quer deixar a sua marca.

Cruella

Ao passo que Cruella busca impactar à sua própria forma — não apenas a personagem, mas a obra é uma afirmação por si mesmo —, tentando não se limitar a ser apenas uma adaptação qualquer, Gillespie deixa transparecer certa artificialidade que conversa não apenas com a narrativa apresentada, mas com toda esta nova safra de produções que buscam reutilizar animações clássicas do estúdio. Se o mundo da moda em si já possui sua devida carga de artificialidade — algo que é traduzido na obra não apenas nos figurinos, cabelos e maquiagens, mas também na tentativa da protagonista de esconder sua verdadeira natureza —, o cinema também é responsável por iludir, atuando dentro de uma lógica interna que pode ser chamada de “magia do cinema”. Logo, se o CGI dos dálmatas incomoda por gritar artificialidade, também é um dos aspectos que clama, para o filme em si, tal característica como parte inerente do show. E é no limiar entre realidade e farsa que Cruella se equilibra e se destaca das demais adaptações.

Dotada de ousadia na medida certa, a obra de Craig Gillespie acerta até mesmo em evitar qualquer tentativa de humanizar a personagem — uma tarefa impossível visto que a característica mais marcante da vilã envolve matar filhotes —, optando, em vez disso, por reimaginar toda uma história nova. E se por um lado é notável como o filme poderia se sustentar facilmente sem abusar das conexões com o clássico — aparados alguns easter-eggs e o filme poderia resultar em algo original tão divertido ou até mais do que já é —, as referências que surgem aqui e ali não apenas são divertem como funcionam para potencializar a narrativa ao invés de limitá-la. Assim, Cruella faz jus à genialidade e criatividade da própria protagonista ao se colocar criativamente acima de tantas outras obras pertencentes a esta última onda de releituras e adaptações do estúdio.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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