Crítica | Coringa

 Crítica | Coringa

Eu, enquanto leitor de quadrinhos, fiquei um tanto cético quando anunciaram um filme do Coringa. O palhaço do crime, maior vilão do Batman — e dos gibis — sempre funcionou melhor como uma incógnita, um personagem sem origens — algo que a versão do saudoso Heath Ledger trouxe para os cinemas perfeitamente –, menos como um vilão comum, mais como uma força da natureza. Um agente do caos, de fato. Eis então que o diretor Todd Phillips de obras como Se Beber, Não Case e Cães de Guerra decidiu fazer um filme sobre a decadência de um homem comum, cuja mente se deteriora até ele se tornar algo maior, algo caótico. Poderia ser a premissa da clássica HQ A Piada Mortal de Alan Moore, mas também descreve Coringa (Joker) de forma exata. E ainda assim, a única semelhança entre as duas histórias é o alter ego do personagem.

Ganhando vida através da atuação poderosa de Joaquin Phoenix, aqui temos Arthur Fleck — e não “Coringa” –, um homem comum com seus problemas comuns, como a carreira ou a mãe debilitada. A priori, Phillips não parece interessado em retratar o palhaço do crime e mesmo outros nomes familiares da mitologia do homem-morcego surgem aqui por um novo olhar. Portanto, se temos a menção a Thomas Wayne (Brett Cullen, que curiosamente esteve presente em O Cavaleiro das Trevas Ressurge) e da Indústrias Wayne, é mais pela necessidade de construir um embate entre as classes de Gotham do que inserir um easter-egg de luxo.

Entretanto, em todos os seus aspectos, Coringa vai além. Seus personagens, por exemplo, passam longe de qualquer maniqueísmo. O próprio Arthur é uma figura tão complexa que resumir sua catarse a um único fator seria injusto. A própria violência — que foi tão criticada mundo afora desde suas primeiras exibições em festivais — não soa exagerada ou gratuita, mas um elemento relevante enquanto roteiro. Uma resposta explosiva para uma sociedade que martela nosso protagonista até que, finalmente, ele quebra. Só é preciso um dia ruim dizia o personagem na já citada A Piada Mortal, enquanto nas mãos de Ledger, o palhaço clamava que A loucura é como a gravidade, só precisa de um pequeno empurrão. O que Phillips faz aqui é dar vida a estes conceitos de forma meticulosa e paciente. O incômodo então, não advém de atos violentos, mas sim do reconhecimento do mundo ao redor de Arthur. Uma sociedade tão suja que forma um homem que só encontra razão quando trajado pela loucura.

E é impossível elogiar Coringa sem mensurar a atuação principal. Enquanto a construção do personagem ganha contornos cada vez mais íntimos e o espectador mergulha na sanidade em decomposição, Joaquin Phoenix pontua sua carreira com sua interpretação mais impressionante. Seu Arthur/Coringa o devoram e durante os contidos 122 minutos da obra, é possível esquecer da existência do ator, pois Phoenix se entrega de tal forma que somente seu personagem existe. Sua transformação física dá arrepios e a maneira que ele molda sua linguagem corporal, como na cena da dança em casa, e até sua voz para cada momento é preciso, senão perfeito. Até mesmo sua risada — aqui, fruto de uma lesão cerebral — que surge quando o personagem se sente incomodado ou irritado, é incrivelmente assustadora e desconfortável de se ouvir.

Embora o roteiro co-escrito por Phillips em parceria com Scott Silver (de 8 Mile e Horas Decisivas) sofra com alguns excessos — duas cenas expositivas que não só são esquisitas como facilmente descartáveis, além de uma subtrama envolvendo Thomas Wayne que acaba se estendendo demais –, a direção se destaca e transborda o potencial de uma trama que, embora previsível, ganha as telas de forma louvável, onde cada detalhe engrandece ainda mais seu trabalho. Por exemplo, o fato de sua risada — um claro sinal de desconforto — desaparecer quando o personagem adota sua maquiagem, pois agora que ele se sente completo, realizado. Sua libertação, aliás, é justamente o momento que ele desce uma escadaria. Ao passo que um protagonista costuma seguir pela superação, o Coringa só se encontra ao descer até o fundo do poço.

Coringa não é um filme fácil. Sequer é um filme comum, seu impacto cultural com certeza vai de encontro ao que o público espera de uma obra — levemente — baseada em quadrinhos de heróis, principalmente considerando o que fora realizado nos últimos anos por diversos estúdios que trabalharam o tema. Ainda assim, o êxito alcançado pelo trabalho conjunto de Todd Phillips — ecoando o cinema de Martin Scorsese — e Joaquin Phoenix passa perto da perfeição e abala as estruturas das adaptações do gênero, mostrando que ainda há muito a ser realizado com essa fonte de ideias. E assim, distante — mas não tanto — da sombra do morcego, vemos o maior dos vilões ganhar uma origem digna de seu status. Um homem comum se tornar uma força da natureza destinado a abrir as portas da destruição de Gotham, não em resposta a um herói, mas sim à sociedade. O nascimento do agente do caos.

Nota do crítico

Avaliação: 4.5 de 5.

*Originalmente publicado no blog pessoal do autor em 10 de outubro de 2019.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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