Confissões de Uma Garota Excluída

 Confissões de Uma Garota Excluída

É sempre divertido assistir obras cuja língua principal é a ironia, principalmente quando tão bem utilizada quanto em Confissões de uma Garota Excluída, adaptação do livro Confissões de uma Garota Excluída, Mal-Amada e (um pouco) Dramática de Thalita Rebouças. Com mais de vinte anos de publicações voltadas para o público infanto-juvenil, Rebouças é a responsável pelo roteiro nesta que é a quinta adaptação de sua obra, dirigida por Bruno Garotti, diretor de Diários de Intercâmbio e Tudo por um Pop Star, sendo este último também uma adaptação de um livro da autora. Ou seja, temos aqui um filme com um diretor e uma roteirista suficientemente versados em produções para o público-alvo que pretendem atingir, o que se faz sentir tanto nos aspectos positivos quanto nos negativos.

A garota excluída em questão é Tetê, apelido de Teanira, interpretada com carisma de sobra por Klara Castanho. Ela se apresenta ao público com uma boa dose de humor e problemas típicos de adolescente, que apesar de soarem batidos — a velha história da mudança, na escola nova com pessoas novas, etc — são trazidos à tona com certo frescor graças a narração em off da protagonista. Não tarda para que o espectador tenha mapeadas todas as pessoas que irão compor aquele cenário característico de comédias adolescentes, como os integrantes do triângulo amoroso — vividos por Lucca Picon e Caio Cabral — e a clássica e praticamente indispensável vilã de colégio, Valentina (Júlia Gomes). Utilizando-se de arquétipos claros no imaginário do espectador, Garotti e Rebouças aproveitam o tempo para trabalharem em cima de aspectos na narrativa que muitas vezes acabam funcionando apenas em segundo plano, como é o caso do núcleo familiar de Tetê.

Isso acaba sendo importante para atribuir uma densidade ao texto de Confissões que usualmente comédias do tipo não possuem ao trabalhar as inseguranças da protagonista, que é um tema comum, em uma abordagem diferente. Neste caso, trazendo-os diante de sua própria família. Ou seja, em vez de simplesmente abordar o cenário padrão do aluno deslocado sofrendo em um ambiente novo para si, o texto de Rebouças aborda um tipo de “bullying familiar”, onde Tetê sente-se desconfortável com os comentários feitos por sua própria família, que apesar de serem bastante inconvenientes sempre surgem em um tom brando de preocupação. Cada “você precisa fazer amigos e se divertir” proferido por seus pais ou avós vem acompanhado de alguma crítica à garota, o que não invalida a preocupação genuína nutrida pelos familiares da personagem, é claro, mas oferece uma nova perspectiva, que pode tornar a obra tão ou mais interessante para os pais de adolescentes do que para estes próprios.

Outra característica divertida de Confissões acaba sendo a forma como o diretor apresenta os personagens secundários, provavelmente a mesma que seu público utilizaria para conhecer novas pessoas: o instagram. A ferramenta não apenas é bem utilizada para apresentar com facilidade os coadjuvantes sem perder tempo ou prejudicar o ritmo — além de ser uma forma de aproximar a produção do público —, como também exerce função narrativa em momentos importantes da obra, sendo relevante na construção do conflito entre Tetê e Valentina e também na resolução no terceiro ato. Apesar disso, é também nos minutos finais que reside o maior problema do filme, já que o roteiro trabalha de forma simples durante todo o seu desenvolvimento para chegar a um clímax um tanto complexo demais, com ares de um episódio de Scooby-Doo e o agravante de uma conclusão digna de capítulo final de novela. Não é um final exatamente ruim, mas soa preguiçoso e deslocado do restante da obra, além de beirar a um deus ex machina.

Ainda assim, o roteiro do filme soa como uma boa evolução no trabalho de roteirista de Thalita Rebouças. A autora, que participa como co-roteirista das adaptações de seus livros desde Tudo por um Pop Star, tem aqui sua primeira chance de cuidar sozinha de um roteiro. Em seu trabalho anterior, Pai em Dobro — que diferente das outras obras, primeiro foi escrito como um roteiro para então se tornar um livro publicado —, Rebouças dividiu o crédito com Renato Fagundes e é possível enxergar um salto de qualidade ao se observar o texto da produção estrelada por Maísa com o texto de Confissões. Isso porque as subtramas são muito melhor trabalhadas neste último, servindo apenas ao desenvolvimento da narrativa principal e não acumulando-se na obra sem um impacto verdadeiro na história da protagonista. Neste aspecto, o único ponto em que Confissões deixa a desejar é no trabalho em relação ao triângulo amoroso, já que falta carisma à um dos pretendentes, característica que seu “rival” esbanja em cada minuto de cena.

E mesmo que um ou outro nome do elenco deixe a desejar em sua atuação, muito do que impede que Confissões de uma Garota Excluída torne-se esquecível é a desenvoltura de parte do elenco, como a incrível Julia Rabello que traz seu timing cômico característico. Além dela, Rosane Gofman e Fernanda Concon estão muito bem, respectivamente como a vó de Tetê e Laís, melhor amiga de Valentina, que na maioria das vezes funciona como a voz da razão, balanceando a presença da “vilã”. Entretanto, é a protagonista Klara Castanho que é o verdadeiro destaque da obra, entregando muito bem todas as facetas de sua personagem sem nunca perder de vista o tom ácido que a produção requer para funcionar. A atriz foi uma escolha bastante acertada, elevando todo o trabalho realizado e funcionando como peça-chave para assegurar a qualidade da obra.

Divertido, Confissões de uma Garota Excluída arrisca-se entre um clichê e outro para subverter alguns aspectos aos quais o público já está acostumado — a brincadeira com protagonista cantando é ótima, pois é comum obras do tipo trazerem atrizes-cantoras como protagonista — e falar diretamente com alguém que precisa ouvir a mensagem do filme. E apesar de se ater à moldes já conhecidos — como na sequência antes da festa —, a obra funciona graças a protagonista e ao texto ácido empregado, o que sugere por si só uma vontade de sair do lugar comum e entregar uma produção com voz própria, característica que fora muito bem afiada por Thalita Rebouças em seus vinte anos como escritora e que, felizmente, é ouvida com clareza na produção.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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