Coisas Verdadeiras

 Coisas Verdadeiras

É necessário perder-se para conseguir se encontrar? Tal qual o dito que fala que “no fundo do poço” só há caminho para cima, esta pergunta acaba permeando toda a sessão de Coisas Verdadeiras (True Things), obra da diretora Harry Wootliff que oferece uma visão diferente, mas bastante intrigante sobre um relacionamento abusivo e como isso pode funcionar como uma fuga de uma realidade já exageradamente destrutiva. Claro, tudo com um toque suficiente sensível para não cair na armadilha de romantizar a relação, mas utilizando-a de forma útil para relativizar, de forma clara, quão podre pode ficar o estado mental do ser humano.

Isso por que Wootliff estabelece sua narrativa apresentando-nos Kate (Ruth Wilson). Com uma vida aparentemente infeliz e um emprego burocrático, ela já surge em cena em um estado claramente destruído, com uma feição cansada e diálogos que estabelecem que a personagem não está indo bem no trabalho. A cinematografia, com uma paleta de cores dessaturada, ajudam a delinear o quadro depressivo no qual ela se encontra. Até que um dia Kate conhece Blond (Tom Burke), um conceito de bad boy — ou seria um simples homem tóxico? — que sequer possui um nome de verdade, afinal blond — “loiro, em tradução livre — refere-se simplesmente à cor de seu cabelo. Sua postura, praticamente predatória, acaba despertando o interesse dela, como se injetasse um pouco de vida em um cenário já destituído disso.

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É importante frisar que Wootliff nunca esconde do espectador que Blond não é nenhum “príncipe encantado“. Pelo contrário, desde o começo, as interações entre a dupla soam intimidantes e ele possui até um ar mais agressivo, seja por sua linguagem corporal ou jeito de falar — impondo-se à Kate, como na cena da garagem — ou mesmo quando bate a cabeça dela na parede em uma cena suficientemente ambígua para que fiquemos na dúvida se foi algo intencional ou não. Mesmo assim, o contraste estabelecido entre a vida da protagonista após o surgimento de Blond é visível quando comparado aos momentos em que se encontra sozinha. A diretora acerta ao construir o relacionamento abusivo de uma forma crível: para quem está de fora, sejam os coadjuvantes, seja o público, é fácil enxergar onde Kate está se metendo. Mas para ela, não.

O debate vai além quando paramos para analisar a situação antes do rapaz aparecer, já que Kate não aparentava estar em boas condições. É como se, para escapar de uma rotina maçante e da pressão do seu mundo sem paixão, a personagem precisasse trafegar pelo caminho traiçoeiro delineado por sua relação abusiva. É o caminhar pelo fio da navalha que oferece uma libertação, mas onde tudo pode dar errado com uma facilidade assustadora. Claro, a diretora não aponta isso como algo positivo, estabelecendo inclusive não apenas uma destruição física e psicológica ainda mais profunda da protagonista, mas também ludibriando-a em vários momentos a ponto de criar um subtexto de que Blond seria uma projeção criada por Kate — devido uma ou duas convenções de roteiro —, tornando-a cada vez mais uma personagem não-confiável.

Coisas Verdadeiras

É uma construção bastante intrigante da vulnerabilidade da personagem, que se traduz pela forma como a câmera passeia com closes pelo corpo de Kate em algumas cenas, com planos-detalhe em sua nuca e pescoço — áreas sensíveis e tradicionalmente relacionadas à excitação sexual — ou mesmo pela própria razão de aspecto, 4:3, permitindo um enquadramento maior da personagem — dos joelhos pra cima ou mesmo de corpo inteiro — com facilidade, expondo-a em momentos mais delicados, mas também diminuindo-a com planos mais abertos que ressaltam a insignificância dela diante do cenário que a cerca. É uma estética que remete, em partes, a utilizada por Yorgos Lanthimos em seus filmes, principalmente em O Lagosta que também trabalha, à sua própria maneira, relacionamentos abusivos em uma realidade distópica.

Trabalhando com uma protagonista não-confiável e uma atmosfera que flerta com o surrealismo — como na sequência do “salto” na garagem —, Coisas Verdadeiras traz um texto que dá margem para sua protagonista brilhar. Ruth Wilson está muito bem em cena, transmitindo a fragilidade de Kate de forma crível sem, necessariamente, precisar recorrer à exageros. Pelo contrário, sua atuação é permeada por sutilezas que criam uma performance magnética, sendo o principal mérito da obra. Falta, entretanto, maior foco por parte da diretora em encaminhar sua trama, que perde força na segunda metade, como se, tal qual sua protagonista, não soubesse como lidar com a presença de Blond. Enquanto Kate não tem como domar seu relacionamento, Wootliff apresenta dificuldades em domar a narrativa, fazendo assim com que a premissa se dilua em um terceiro ato perdido em suas intenções. No mínimo irônico, já que a conclusão mostra-se tão amena quanto a “meia-vida” que a jornada da protagonista se propõe a deixar para trás.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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