Cinderela (2021)

 Cinderela (2021)

Revisitado dezenas de vezes — provavelmente centenas se não nos limitarmos à sétima arte —, Cinderela é possivelmente um dos contos de fadas mais batidos de todos os tempos. Assim, ao propor readaptar mais uma vez o conto da gata borralheira, a diretora Kay Cannon (Blockers) precisa lidar com limitações que qualquer diretor enfrentaria: como realizar uma nova adaptação do clássico? Modernizando-o? Atendo-se à estrutura clássica? Optar por desconstruir clichês ou mesmo reimaginar a história do zero utilizando apenas o esqueleto da história? Aparentemente, na dúvida, vale fazer tudo isso. Ao menos é a impressão que fica ao final do bem pensado, mas não tão bem executado Cinderela (Cinderella).

Protagonizado pela cantora Camila Cabello, a obra segue a base clássica, com a personagem precisando lidar com sua madrasta (Idina Menzel) e suas duas irmãs (Maddie Baillio e Charlotte Spencer). Cannon, que também roteiriza, muda algumas características dessa estrutura para dar à sua Cinderela mais autonomia, o que funciona bem para desligar a personagem de alguns conceitos que poderiam não funcionar tão bem hoje em dia — como precisar se casar para escapar da situação em que vive — além de conceder mais personalidade para a protagonista, que em muitas adaptações acaba sendo resumida à “sofrer e sonhar com algo melhor”.

Esse cuidado com a personalidade se estende aos coadjuvantes com mais tempo em cena, como o príncipe Robert (Nicholas Galitzine) e seus pais, o rei Rowan e a rainha Beatrice, interpretados respectivamente por Pierce Brosnan e Minnie Driver. Alguns desses desenvolvimentos servem para dar mais peso à narrativa — o príncipe que lida com a pressão por não ter intenção de assumir o trono tão cedo, a rainha que sente-se diminuída pelo marido — enquanto outros funcionam como alívio cômico, ainda que Cannon encontre uma oportunidade de tecer uma paródia das convenções do gênero, como no caso da caricatura da monarquia vivida por Brosnan, que parece se divertir com a caracterização. Já os coadjuvantes com menos tempo de cena, é engraçado constatar que alguns não possuem tempo o suficiente, enquanto outros possuem tempo demais.

Cinderela

Neste caso, me refiro respectivamente à Billy Porter e James Corden. Ambos os atores tem cerca de 10 minutos em tela, e enquanto Porter e sua “fado-madrinha” fazem falta no decorrer do filme, já que o ator literalmente brilha no papel e entrega o ponto alto da obra, Corden tem um efeito inverso após aparecer. Espaçoso, o ator surge em cena com seu humor característico e, inexplicavelmente, a montagem prioriza alguns de seus momentos “cômicos” justamente durante a sequência que deveria ser a mais importante do filme, que é o momento do baile. Aliás, talvez não tão inexplicavelmente assim, já que Corden é um dos produtores da obra.

A presença de Corden é um dentre muitos aspectos que fazem Cinderela passar uma sensação de paródia. O trabalho de câmera é bastante inconsistente — tem diálogos simples que são difíceis de assistir pelo mal enquadramento dos atores —, assim como a montagem e os efeitos especiais, onde Cannon opta por realizar algo mais tradicional, esperado de alguma obra dos anos 80 ou 90. Dadas as possíveis limitações de orçamento, é uma decisão inteligente, já que quando a diretora opta por um viés muito elaborado, o resultado deixa a desejar. Entretanto, talvez o aspecto mais prejudicado da obra seja as músicas, que ou tem releituras realmente incríveis, como “Somebody to Love” e “Seven Nation Army” — dois exemplos de canções que são bem entoadas e também bem encaixadas na narrativa —, ou rendem momentos um tanto vergonhosos, como no caso de “Material Girl“, cuja mixagem é tão exagerada que dá a impressão de que Idina Menzel está realizando uma dublagem.

Ironicamente, é após o relógio bater meia-noite que a magia de Cinderela desaparece. A obra, que vinha em um perigoso, mas eficiente equilíbrio entre a desconstrução e a paródia acaba perdendo os eixos no ato final, onde algumas fragilidades do roteiro, ao invés de serem superadas, são expostas ainda mais. O caso mais drástico, talvez, seja o da madrasta que ora é mais próxima da personagem clássica, vilanesca e cruel, ora é apenas incompreendida. Essa ameaça branda praticamente desaparece no terceiro ato, deixando a obra sem ninguém para antagonizar Cinderela e tornando sua jornada menos encantadora. Afinal, a vida dela tem obstáculos, mas estes parecem muito mais fáceis de contornar do que na versão clássica da história, o que faz com que o clímax tenha pouco ou nenhum senso de urgência.

Cinderela

Em contrapartida, se há algo que realmente funciona aqui na obra é o senso de humor. Kay Cannon não tem receio fazer sua obra contemplar o ridículo, o que gera diálogos e cenas bastante cômicas. Novamente, é um dos méritos que se perdem da metade para o final do filme, mas que funcionam quando bem construídos. Neste aspecto, Cabello se sai bem por ter uma energia mais sóbria, divertindo pelo contraste causado — como quando perguntada se sonha em ir ao baile e responde “sim, eu estava cantando sobre isso há dois minutos atrás” — sem soar deslocada da obra. Para efeitos de comparação, sua Cinderela é o inverso de Giselle (Amy Adams) em Encantada, onde temos uma personagem de personalidade “animada” — literalmente — inserida em um contexto realista. Entretanto, a jovem atriz ainda deixa a desejar dramaticamente, funcionando melhor quando sua personagem está neste contexto mais leve ou, claramente, nas cenas musicais.

Cinderela poderia ser uma obra ainda mais interessante se investisse nos pontos fortes e trabalhasse melhor os conflitos da protagonista, ainda que decidisse optar por não fazer a madrasta de Idina Menzel a vilã principal da obra. A diretora e roteirista Kay Cannon sabe trabalhar muito bem o humor, que faz falta em alguns pontos, e consegue lidar com algumas limitações técnicas melhor do que outras, o que traz para a obra um sentimento dúbio. Afinal, Cannon nunca distancia totalmente seu filme do conto clássico, mas também não decide adaptá-lo por completo, e ao permanecer entre ambas as opções, a diretora não consegue extrair o melhor de nenhuma das duas possibilidades. O que é triste, já que sua obra apresenta vislumbres de um texto realmente inspirado.

Avaliação: 2 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também