Casa Gucci

 Casa Gucci

Mesmo com uma filmografia longa e bem estabelecida, o diretor Ridley Scott está longe de apresentar a mesma constância de outros colegas. Isso porque, a mesma mente responsável por nos entregar obras incríveis como Perdido em Marte e o clássico Alien também é a mesma de filmes como Todo o Dinheiro do Mundo. E se qualidade é uma característica subjetiva e até questionável — você pode odiar Alien e amar Todo o Dinheiro do Mundo, por exemplo —, o que é indiscutível é a capacidade de Scott de surpreender, seja positiva ou negativamente. Com isso, é até complicado admitir que quando o diretor reuniu um elenco de nomes tão fortes quanto Al Pacino, Adam Driver, Salma Hayek e — a surpresa mais recente dentre eles —, Lady Gaga, a expectativa foi instaurada. E infelizmente, Casa Gucci (House of Gucci) não faz jus à isso.

O filme adapta em pouco mais de duas horas e meia o livro de Sara Gay Forden que aborda os bastidores da “Dinastia Gucci”, passando pela origem e ascensão da marca, crises financeiras, crises familiares — “a Gucci é um negócio de família” é uma frase dita mais de uma vez no longa — e, talvez, o momento mais marcante desta história toda: o assassinato encomendado de Maurizio Gucci (vivido por Driver no filme). Se parece muita coisa, é porque é, e surpreende que Scott entregue uma obra que, mesmo com uma longa duração, passe — ainda que de forma rápida e rasa — por todas estas temáticas citadas, tornando complexa até mesmo a tarefa de apontar a qual gênero/subgênero sua obra pertence. É um true crime? Uma biografia focada no casal? Uma comédia voltada aos altos e baixos da família? Ou uma ode à Gucci enquanto uma das marcas mais relevantes do cenário da moda?

Casa Gucci

Não há, essencialmente, um pilar sustentando Casa Gucci como apenas uma destas coisas. Se existisse, talvez fosse Lady Gaga, com uma atuação consistente, mas exageradamente caricata, atribuída com a tarefa de ser a protagonista do filme. Vivendo a esposa de Maurizio, Patrizia Reggiani, a cantora que ganhou destaque como a protagonista de Nasce uma Estrela — papel que lhe garantiu uma indicação ao Oscar — conduz o espectador de fora da família até o centro dos Gucci e, eventualmente, para os bastidores da empresa. É uma decisão que faz sentido narrativamente e extrai o que há de melhor na obra: o jogo de poder que existe naquele meio. É também uma decisão simples e de fácil identificação: qualquer obra que aborde mafiosos — longe de querer comparar a máfia ao mundo da moda — traz, de alguma forma, um personagem que almeja subir naquela hierarquia de poder. É assim com O Poderoso Chefão, é assim com Os Bons Companheiros, e é quase assim com Casa Gucci.

Quase, pois ainda que Scott nos apresente uma estrutura de roteiro familiar, a obra não se permite tamanha seriedade para que a trajetória de Patrizia naquele núcleo seja o foco do filme. Aliás, “foco” é exatamente o que falta em Casa Gucci, já que a escolha de Ridley Scott é trabalhar diversas subtramas paralelas — salvo dois personagens, todos possuem ao menos um conflito próprio a ser desenvolvido no filme — sem que uma delas se torne o fio-condutor de fato. Ou seja, se o primeiro ato é sobre o casal Maurizio e Patrizia, o segundo já opta por trabalhar mais com a família Gucci em si. O problema, neste caso, não é o olhar de Scott para a narrativa, mas sim a forma como cada personagem acaba atribuindo uma nova camada, um novo tom para o filme. Assim, se o Aldo Gucci vivido por Pacino já traz consigo certa leveza, trabalhada com louvor pelo veterano, o mesmo não se aplica ao Paolo Gucci vivido por Jared Leto, cuja atuação exagerada carrega consigo um tom cômico agridoce, que destoa do tom geral, principalmente tendo em vista como a história se desenrola em seu ato final.

Casa Gucci

Esse tipo de conflito — entre as tramas dos personagens — atrapalha o conjunto da obra. Se fosse uma minissérie, é possível afirmar que cada um dos integrantes da família poderia render um episódio focado em si próprio, com seu próprio ponto de vista e conflitos pessoais. No cinema, entretanto, essa mistura de tons e tramas causa um efeito inverso, mais diluindo o potencial da narrativa do que potencializando o que há de interessante ali. Sobram momentos interessantes que não possuem tempo para serem desenvolvidos satisfatoriamente, como no momento que é abordado o impacto que réplicas de produtos da marca poderiam causar para a marca, porque há uma demanda de fechar o assunto e seguir em frente para outro núcleo, outro conflito. É uma troca constante que nem mesmo a montagem de Claire Simpson — responsável por um ótimo trabalho em O Último Duelo, também de Scott — dá conta, prejudicando o recorte optado no filme, que falha em demonstrar a devida passagem do tempo em que tudo aquilo ocorreu.

Scott tenta empregar, inteligentemente, um olhar glamourizado de tudo — a visão deslumbrada de Patrizia é a mesma do espectador ao entrar naquele mundo almejado por tantos — através de cores fortes e uma fotografia que trabalha a profundidade de campo com muitos planos “embaçados”, como se os flashes dos paparazzi fossem um incômodo aos olhos do público. Além disso, saltam aos olhos a direção de arte e de figurino, o mínimo esperado para uma produção ornamentada por peças Gucci. Entretanto, até mesmo tamanha beleza é um artifício que fica um tanto deslocado, principalmente pelo ar cafona da interpretação dos personagens, tão carregadas que destoam até mesmo uns dos outros. Se Al Pacino funciona, é por certa experiência lidando com papéis mais extravagantes, enquanto Jeremy Irons se sai bem com uma interpretação mais reservada na pele de Rodolfo Gucci.

Se Casa Gucci seguisse majoritariamente o tom empregado nas cenas de Jeremy Irons, Ridley Scott teria em mãos um dos grandes dramas do ano. Entretanto, ao misturar seu true crime — afinal, a intenção era ser isso? — com um tom extravagante e novelesco, o diretor perde-se em seu próprio caos e realiza uma obra que parece oferecer coisas demais e ainda assim terminar incompleta. Conflitante, o filme possivelmente causará sentimentos tão exagerados quanto o sotaque italiano do elenco, podendo ser admirada com louvor como um tipo de “novela de cinema”, ou odiada, na mesma intensidade, por quem não conseguir ou quiser comprar a ideia. E de alguma forma, talvez esses sentimentos tão intensos façam jus à uma história tão longínqua quanto controversa de uma marca que, ainda hoje, é capaz de despertar interesse até mesmo daqueles que não se importam com moda.

Avaliação: 2.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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