Borat: Fita de Cinema Seguinte

 Borat: Fita de Cinema Seguinte

Em 2006, Sacha Baron Cohen ganhou o mundo com seu personagem Borat ao estrelar o longa-metragem Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América, que tinha como um dos atrativos o “humor-denúncia”, expondo diversos preconceitos em uma obra que muitos dos convidados nem sabiam que era um filme. Após o sucesso, entretanto, ficou a dúvida: como realizar uma continuação, já que agora Borat se tornou um personagem icônico da cultura pop mundial? A resposta não apenas foi encontrada como se tornou uma meta-piada em Borat 2, ou Borat: Fita de Cinema Seguinte (Borat: Subsequent Movie Film), já que o personagem sequer consegue pisar nos EUA novamente sem ser reconhecido.

Se o primeiro filme acertou ao colocar o personagem no “maior país do mundo”, escancarando para o mundo diversos preconceitos velados dos americanos, a continuação não poderia ter acertado mais no timing de lançamento. Em uma época onde não se precisa procurar muito para encontrar doses cavalares de ignorância e intolerância — basta olhar as redes sociais de alguns líderes mundiais — ou que tornou-se necessário argumentar até mesmo o formato do planeta, o melhor repórter de Cazaquistão faz seu retorno triunfal em uma jornada de redenção. Afinal, a antes gloriosa pátria-mãe de Borat agora tornou-se uma piada mundial, graças ao primeiro filme. Para devolver o prestígio ao país, Borat parte novamente aos EUA, dessa vez buscando aproximar sua nação do presidente americano Donald Trump.

Borat: Fita de Cinema Seguinte

É difícil esperar que Borat, sendo uma sátira sociopolítica, não aproveite o cenário atual para realizar a maioria de suas piadas. Se no primeiro filme o objetivo do personagem era conhecer Pamela Anderson, neste segundo ela é substituída por Mike Pence, vice-presidente. A grande diferença é que, enquanto no primeiro Pamela tinha uma função apenas narrativa, Mike Pence — e toda comitiva de Trump — são também o principal gatilho para as piadas, tornando a obra pouco mais que uma sátira e acabando com qualquer dúvida que pudesse haver sobre a data do lançamento ser coincidência. Borat 2 beira a propaganda política, por mais estranho que isso possa parecer. E ao mesmo tempo que isso é um ganho para o público que não simpatiza com os governos atuais, mina parte do humor ao monopolizar o alvo das gags.

Isso porque grande parte do charme do primeiro filme era justamente a sensação de estar assistindo a uma obra improvisada, que criava seu humor das situações absurdas sem, necessariamente, soar ensaiado. Aqui, a obra transita entre dois extremos, ou lidando com situações onde é possível temer pela vida dos envolvidos na produção — em uma sequência envolvendo um comício armado pró-Trump, por exemplo — ou em momentos em que fica claro que o humorista e o diretor Jason Woliner possuem tudo sob controle. Além disso, o terceiro ato sai ainda mais prejudicado ao optar por algumas decisões criativas em sua conclusão que fazem com que Borat 2 abra mão da atmosfera de paródia-documental ao tornar-se demasiadamente “cinematográfico”, já que aborda alguns tópicos de forma muito mais ficcional que o restante da obra.

Borat: Fita de Cinema Seguinte

Com Borat fora de cena para realizar as sequências constrangedoras — uma vez que os americanos já o conhecem e sabem que podem se tornar parte das piadas —, cabe à Maria Bakalova segurar a barra como Tutar, filha do protagonista. A atriz encara o papel com seriedade e entrega com excelência ao protagonizar os melhores momentos do longa, como a cena em que ensina masturbação para um grupo de mulheres conservadoras. Suas cenas são as que mais lembram o estilo do primeiro filme, onde o humor era construído através de reações verdadeiras das pessoas envolvidas. É ela também que protagoniza o clímax envolvendo um aliado de Trump, onde o estilo documental de Borat 2 assume um tom de urgência bastante específico, causando um incômodo que beira o assustador conforme o espectador entende o que está assistindo.

Embora Borat: Fita de Cinema Seguinte tenha dificuldades de lidar com o mal das continuações — principalmente uma comédia, já que piadas repetidas tendem a não ser tão engraçadas —, Sacha Baron Cohen e a estreante Maria Bakalova conseguem realizar algo bastante divertido, engraçado e constrangedor à altura do que fora apresentado em 2006. Com um cenário bastante distinto — ninguém mais precisa ou sequer tenta esconder seus preconceitos —, o segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão retorna aos holofotes em circunstâncias pouco alegres, mas com um propósito digno: praticar a arte do deboche. E em tempos de tamanha intolerância, a ironia e o riso são formas mais que justas de se defender e contra-atacar, afinal. Resta o desejo de que o mundo evolua a ponto de que caricaturas como o personagem sejam realidade apenas na ficção — não na presidência, principalmente — e que Borat possa, enfim, ter seu merecido descanso. 

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

Leia também