44ª Mostra de SP | Bem-Vindo à Chechênia

 44ª Mostra de SP | Bem-Vindo à Chechênia

Um dos aspectos mais intrigantes de avaliar um documentário é decidir quais critérios levar em consideração na análise. Existem documentários cinematograficamente simples, quase crus, que abordam temáticas extremamente relevantes. Ao mesmo tempo, alguns documentários super elaborados são praticamente desnecessários — ainda que qualquer obra eventualmente encontre seu público e, portanto, nenhum filme seja irrelevante. Bem-Vindo à Chechênia (Welcome to Chechnya), produzido pela HBO, felizmente, não apenas é um bom filme — do ponto de vista cinematográfico — como carrega consigo um peso considerável, sendo uma produção incrivelmente chocante, mas necessária.

A obra dirigida por David France aborda um grupo de ativistas pró-LGBTQ+ que atua na Chechênia, uma das repúblicas russas, onde cidadãos da comunidade LGBTQ+ são ameaçados, torturados e mortos. Tudo isso com um Estado conivente com estas ações. Desta forma, o grupo atua resgatando, escondendo e ajudando cidadãos da comunidade a fugir do país. Assim, o espectador é levado a acompanhar alguns casos específicos — como o de Maxim Lapunov e Anya — através de sequências bem cinematográficas — ainda que com uma câmera bastante intimista —, alternadas com entrevistas, imagens de arquivo e até vídeos interceptados pelos ativistas. 

France e Tyler H. Walk, que co-roteirizam a obra, fazem um bom trabalho para contextualizar as informações ao passo que dão um tom quase de suspense para Bem-Vindo a Chechênia, vide a sequência onde o grupo ativista e Anya vão passar pela segurança do aeroporto. Esse estilo funciona para que o espectador empatize com aquelas pessoas. Ainda que essa “mão pesada” não fosse tão necessária — a situação por si só já é mais do que suficiente —, o filme reforça isso de maneira que é impossível não ficar aliviado em determinados momentos, quando as pessoas estão finalmente seguras. Ou ficar tenso quando as coisas não saem da melhor maneira. Isso é complementado por falas dos próprios ativistas, que deixam claro sua situação de risco ali. “Se não te matam, já é uma vitória” fala um deles à certa altura.

A lógica da exposição causada pelo documentário também fez com que a HBO recorresse a um intrigante recurso de deep fake que dá novas feições às vítimas, que assim podem participar da obra sem se expor ainda mais, minimizando os riscos. Dessa forma, algumas histórias são contadas sob pseudônimos e rostos alterados pela tecnologia. Além disso, essas ‘máscaras digitais’ ainda são bem utilizadas para efeitos dramáticos, como em uma sequência no terceiro ato onde um dos refugiados decide abrir sua identidade, opondo-se ao Estado na tentativa de obter justiça — se é que ainda é possível obtê-la. É um momento muito tocante e impressionante do ponto de vista técnico.

Conforme a obra volta suas atenções para o lado político da história, o asco sentido por toda a situação se intensifica, principalmente quando são exibidas entrevistas com o líder da Chechênia, Ramzan Kadyrov, que mostra-se abertamente extremista e homofóbico. Kadyrov, que foi indicado ao cargo pelo presidente russo Vladimir Putin, quando questionado sobre os crimes de ódio, afirma rapidamente “não temos isso aqui”. E antes que o público pense que ele irá negar os ataques, ele finaliza a frase: “não temos homossexuais na Rússia. Se existem, podem ir para o Canadá”. 

A situação ainda ganha contornos mais sombrios com a exibição — ainda que censurada — dos vídeos interceptados pelos ativistas, mostrando desde a atuação abusiva de autoridades até pessoas sendo assassinadas pelos próprios familiares simplesmente por sua orientação sexual ser vista como “vergonhosa”. Aqui, cabe um aviso: ainda que estes vídeos ilustrem bem alguns momentos da obra, é possível que sirva de gatilho para o público mais sensível. Caberia um aviso sobre as imagens mais explícitas — como uma tentativa de suícidio que ocorre durante as filmagens —, mas de toda forma a exibição dessas cenas leva ao questionamento de quão longe deve ir a espetacularização da obra, ainda que um documentário?

Se a realidade de um refugiado nunca é ou será confortável de fato, o documentário explicita a angústia das pessoas que precisam fugir e se esconder para não serem vítimas do governo, das autoridades de seu país e até de suas próprias famílias em alguns casos. Essa realidade documentada faz de Bem-Vindo à Chechênia um dos filmes mais impactantes do ano, além de uma obra relevante e visceral, não apenas por denunciar a violência da república russa, mas por refletir uma intolerância que vem surgindo há alguns anos, longe de ser um problema local.

Filme visto online durante o 44º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2020.

Avaliação: 4.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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