Belfast

 Belfast

A infância é — ou deveria ser — um momento de ingenuidade, lembrado sempre com carinho, onde permanecem uma parte boa e supostamente imaculada da vida. E é sob este viés que o diretor Kenneth Branagh dirige sua pseudo-autobiografia, Belfast: nivelando a câmera na altura do olhar olhar atento e ingênuo de uma criança, que ainda não tem maturidade para compreender o mundo, tampouco os conflitos que permeiam a vida dos adultos ao seu redor. Assim, quando acontece uma explosão — que assusta por pegar tanto o protagonista quanto o espectador despreparado — durante o primeiro conflito explícito da obra, as intenções do diretor ficam claras. E mesmo assim, falta algo para que o filme consiga se estruturar bem para desenvolver sua narrativa.

De fato, talvez não seja justo dizer que Belfast não sabe como trabalhar seus conflitos. Por sua experiência — tanto no sentido de mexer em seu passado quanto no histórico como diretor de cinema —, Branagh sabe bem o que quer fazer com sua obra e quais questões deseja explorar na narrativa. Talvez o problema real seja a escolha criativa de trabalhar todo o filme com um viés de inocência que, embora faça sentido e soe bastante poético na teoria, na prática impede que os conflitos sejam trabalhados de forma efetiva. Se o olhar do público está direcionado por entre o olhar de um protagonista que não entende a natureza dos conflitos e, por isso, não consegue compreendê-los, o próprio espectador se torna refém deste mesmo olhar.

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Desta forma, ainda que em alguns momentos o véu de inocência que veste Belfast funcione perfeitamente bem, em outros, impede que os conflitos tenham o peso necessário. Ao final, o filme se arma de uma inocuidade tão grande que a obra em si beira a indiferença, perdendo o impacto onde deveria conservá-lo em prol de manter a fluidez infantil que o rege. É algo semelhante ao que foi feito por Taika Waititi em Jojo Rabbit — sendo que lá, a temática trabalhada era ainda mais delicada —, mas sem o contraste que Waititi utiliza para evidenciar, para o público, os conflitos internos do protagonista e externos a ele. Em Belfast, tudo soa demasiadamente sem emoção, ainda que o filme se arme de uma certa “fofura confortável” que certamente nubla o olhar por boa parte do filme. Ou seja, mesmo que a obra não seja marcante, ainda é suficientemente “bonitinho”. Às vezes basta, mas aqui não.

Além disso, a opção do filtro preto-e-branco acaba sendo um dos aspectos que soa mais deslocado da obra. Talvez pretendendo dar um ar de “memórias antigas”, a fotografia de Haris Zambarloukos — parceiro habitual do diretor, tendo trabalhado com ele em Thor, Cinderela e nos mais recentes Assassinato no Expresso-Oriente e Morte no Nilo — transparece um viés um tanto artificial, o que apenas corrorbora a sensação de que Belfast tenta atingir o emocional do espectador um tom acima do que deveria, esforçando-se demais para arrancar uma lágrima do espectador. É um tom melodramático que não prejudica, mas novamente, perde-se por não haver nenhum contraste com os conflitos que deveriam sustentar toda esta carga dramática contida na obra.

Entretanto, se há algo que se mantém firme durante toda a narrativa é a ode que Branagh presta ao entretenimento que sempre fez parte de sua vida. Afinal, apesar de tudo, ainda é uma biografia de um diretor de cinema — e um diretor muito bom apesar da filmografia dos últimos anos —, logo, sempre que Buddy (o estreante Jude Hill) para assistir a um filme clássico ou um episódio de Jornada nas Estrelas, Belfast encontra um tom emocional preciso. O destaque, entretanto, fica por conta do tocante momento que reúne o protagonista e sua família em um cinema para verem Mil Séculos Antes de Cristo, uma sequência cujo brilho no olhar é tão bem construído que até mesmo a infame piada envolvendo Raquel Welch soa “fofa e engraçadinha”.

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Bem acertados também estão o elenco de apoio que orbita a vida daquele garoto de 9 anos, composto por Caitriona Balfe, Jamie Dornan, Ciarán Hinds e — a cereja do bolo — Judi Dench. Cada um traz uma faceta diferente daquele pequeno microcosmos e com certeza fará o espectador se lembrar de bons momentos que viveu com o pai ou a mãe, ou com os avós. As interações desses atores com o protagonista sempre transbordam emoção e acabam potencializando a experiência como um todo, mostrando que são nestes momentos mais simples e cativantes que recai a força de Belfast. Infelizmente, são relações que também acabam sendo minimizadas, por vezes, devido a intenção de olhar ingênuo proposta por Branagh, de modo que se torna difícil compreender, em sua totalidade, o que move os personagens e o impacto que tudo aquilo exerce neles.

Vítima de sua própria intenção, Belfast surpreende por trazer elementos que, isolados, tinham tudo para funcionar, mas parecem anular uns aos outros quando inseridos neste conjunto. Prejudicado pelo olhar inocente demais, o desenvolvimento da obra sofre para transmitir os conflitos externos ao protagonista para além de sua bolha de ingenuidade, chegando ao espectador com muita dificuldade — ou, para alguns, sequer chegando —, o que atrapalha a carga dramática como um todo. Branagh, diretor que já se provou suficientemente versátil, coloca tudo seu ponto de vista enviesado — está contando sua própria história, afinal — e tenta transmitir isso de forma efetiva, mas falha no processo. E tudo bem, é uma proposta e uma intenção bonita, cativante e agradável. Mas ao mesmo tempo, inofensiva demais para despertar alguma emoção forte o suficiente para manter a narrativa viva na memória após seu desfecho.

Avaliação: 2.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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