Ascension

 Ascension

Em certo momento durante os primeiros minutos do documentário Ascension, dirigido por Jessica Kingdon, cheguei a cogitar de que a obra não teria passagens com diálogos após a sequência inicial, onde podemos ouvir requisitos exigidos para uma vaga de emprego. Desta forma, a obra talvez optasse por acusar o modelo de trabalho operacional — e praticamente desumano — da China através de passagens silenciosas, evidenciando o caráter robótico daquelas tarefas, algo semelhante ao que Tsai Ming-liang fez em Days, sendo que lá o diretor apontava o tédio de uma vida solitária. Acaba não sendo o caso aqui já que diálogos entre os documentados não tardam a começar, apenas para aprofundar a crítica proposta por Kingdon, mas a ideia é parecida, evitando uma condução da opinião do espectador, utilizando os diálogos de forma expositiva, tal qual as imagens, para que o público possa fazer suas próprias reflexões.

Para quem cresceu assistindo filmes Hollywoodianos, a ideia do “sonho americano” não é uma novidade. O conceito indica que os Estados Unidos são solo fértil para qualquer um que chegue no país com força de vontade o suficiente, pode alcançar uma vida profissional satisfatória. Ascension nos revela, então, o “sonho chinês”, uma ideia igualmente meritocrática, que vai um pouco além quando aplica a ideia de uma constante disciplinada e respeitosa. Ou seja, vendendo o ideal de sucesso alcançável através do trabalho duro, da boa civilização e do famoso “vestir a camisa da empresa”. Assim, diversas passagens do documentário optam por mostrar rituais pregados no ambiente de trabalho, sempre voltados para educar os funcionários a serem o melhor trabalhador possível.

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Iniciando sua narrativa em fábricas com trabalhos detalhadamente minuciosos — como apertar parafusos e pregar botões —, Jessica aos poucos vai afastando a lente de suas câmeras para revelar como este comportamento que beira ao obsessivo-compulsivo está intrinsecamente impregnado na sociedade. Não há, aparentemente, nenhuma função que não possa ser exercida com maior esforço e precisão, o que gera algumas sequências quase cômicas, como a dos treinamentos de seguranças. Tudo isso, entretanto, gera um sentimento muito desconfortável, principalmente por ficar claro como o comportamento imposto aos funcionários é abusivo, mas ao mesmo tempo parecer que tal abuso não é compreendido dentro daquela sociedade. Tudo parece completamente aceitável por lá, e mesmo quando um diálogo expõe que não é bem assim — as pessoas precisam aceitar as condições impostas para poder sobreviver —, permanece tal sensação.

Um dos momentos mais interessantes de Ascension, por sua vez, vem justamente da forma como Kingdon constrói, visualmente, o contraste do emprego em diferentes classes sociais, ilustrando-o ao inserir uma influenciadora chinesa na narrativa. Uma vez que passa por diversos tipos de trabalho — incluindo um dos momentos mais desconfortáveis da obra envolvendo um treinamento a céu aberto —, a diretora foca parte de seu tempo na rotina da jovem, que praticamente consiste em divulgar produtos e posar para fotos. A ironia transborda em tela quando ela, após um ensaio fotográfico em um belo gramado — que consiste parte de seu trabalho —, questiona o perigo de “pegar insolação” enquanto o quadro exibe um trabalhador braçal cuidando daquele ambiente perfeito para as fotos da garota, evidenciando a distinção de classes mesmo em um país supostamente comunista.

Ascension

O que incomoda em Ascension é justamente a forma como a diretora trabalha dentro dessa temática para além do acerto visual. As sequências que Kingdon traz para a montagem são eficientes e constróem um ótimo contraste, deixando sua crítica às claras, mas ainda permitindo mais leituras e um aprofundamento maior por parte do espectador, conforme a reflexão individual de cada um. Mas para além disso, a diretora não parece saber o que fazer com tal contraste após construí-lo, beirando cair em uma repetição incômoda pela exposição nua e crua dos trabalhadores, mas sem complementar isso de uma forma mais elaborada, o que acaba minando parte da experiência do documentário, ainda que não as suas intenções. Além disso, ao estabelecer os limites entre o sonho chinês e as sociedades externas, levanta outros debates que poderiam não apenas dar mais corpo ao filme, mas até mesmo compor um segundo documentário sobre o tema.

Interessante, Ascension revela um grande trabalho de composição ao contar boa parte de sua narrativa apenas pelo poder das imagens, auxiliado por curtos diálogos aqui e ali. Ainda que seja notável a ausência de maior aprofundamento, a intenção de Jessica Kingdon se consolida bem conforme o passar da obra, provocando o espectador a questionar aquele modelo de trabalho e o que, afinal, está dando errado na sociedade para que estes permaneçam e se tornem cada vez mais abusivos e, em contrapartida, aceitáveis. Partindo da curiosidade ao desconforto e até à comicidade — de tão inacreditáveis que são algumas passagens —, a diretora se propõe a dissecar um sistema de trabalho que já deveria ter passado por reformas há muito tempo, e o faz com a devida clareza e angústia que o tema demanda.

Avaliação: 3.5 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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