As Bruxas do Oriente

 As Bruxas do Oriente

Ao falarmos sobre documentários, é praticamente impossível evitar comentários sobre o estilo pouco inventivo ao qual o formato está fortemente atrelado — entrevistas e imagens de arquivo são praticamente a regra aqui — sendo uma positiva surpresa sempre que uma obra documental foge do padrão, ou simplesmente surge com alguma subversão a fim de não contentar-se em ser mais um filme “convencional do gênero”. E dada a premissa de As Bruxas do Oriente (Les Sorcières de l’Orient), é bom notar quão efetivas são as decisões criativas que o diretor Julien Faraut toma para evitar que sua obra caia na mesmice e, eventualmente, junte-se a mais uma leva de documentários que tornam-se esquecíveis tão logo os créditos finais apareçam.

A obra, cujo título pode enganar o espectador desavisado, acompanha um grupo de mulheres que fizeram parte do time de vôlei feminino na década de 60, sendo inclusive o primeiro time a levar a medalha olímpica pelo esporte — foi em 1964, mais especificamente, que o esporte tornou-se olímpico — e cujo apelido de “as bruxas do oriente” foi ganho antes mesmo deste feito, com o time feminino destacando-se e somando, ao todo, 258 vitórias consecutivas entre as décadas de 50 e 60. Passando pela xenofobia contida no apelido e pelo impacto cultural que as jogadoras exerceram na cultura japonesa, Faraut conduz o público para uma narrativa intimista, apresentando suas protagonistas, enquanto questiona os limites éticos do esporte, abordando o treinamento abusivo pelo qual aquelas mulheres foram submetidas.

Evitando o formato de entrevistas, tão comum do formato, Faraut aproveita o contexto cultural do Japão para mesclar estilos distintos e criar uma veia autoral dentro do documentário. Assim, ao apresentar suas protagonistas — cada qual com um apelido e habilidade específica dentro de quadra —, o diretor insere uma dica visual que equipara as mulheres à personagens de RPG — um estilo de jogo —, apresentando-as quase como quem demonstra uma árvore de habilidades. Da mesma forma, em vez de simplesmente trazer as filmagens de arquivo para a obra, Faraut insere transições que usam desenhos animados — animes — para atribuir certo dinamismo, além de funcionar também como chamariz de atenção, evitando que a obra fique muito tempo no mesmo estilo e acabe por perder a atenção do espectador.

As Bruxas do Oriente

Este estilo injeta vida nova à As Bruxas do Oriente, transformando-o em uma obra mais divertida do que poderia ser à princípio, o que contrasta positivamente com toda a temática abordada, já que esta é bastante pesada. Felizmente, essas ferramentas visuais jamais contribuem para uma ideia de que a discussão levantada e trabalhada durante o desenvolvimento do filme seja pouco importante. A “leveza” proposta estende-se também à forma como Faraut cria certa intimidade entre as protagonistas e o público, já que em vez de assistirmos a simples entrevistas, o diretor opta por criar uma roda entre elas, para que conversem de forma menos formal. Com uma câmera pouco invasiva, Faraut faz o espectador se sentir como se estivesse sentado à mesa, sem chamar atenção, apenas para ouvir aquelas senhoras contando suas próprias histórias.

Com isso, o diretor quebra um pouco da tensão instaurada pela temática enquanto tira as camadas de glamour por detrás das vitórias consecutivas, mostrando o treinamento realizado por Daimatsu Hirofumi, treinador com formação militar que ganhou a alcunha de Oni no Daimatsu — “Daimatsu, o demônio”, em tradução livre —, devido a forma como levou as garotas ao limite físico e psicológico. Faraut põe em xeque a efetividade dos treinos, pois embora o resultado alcançado seja histórico, a forma como as garotas eram tratadas era incrivelmente abusiva. É um discurso semelhante ao do ficcional Whiplash, que também questiona até onde alguém pode ser levado para atingir um resultado não menos que perfeito, mas ainda mais elevado, já que o tratamento desumano é real, além de provavelmente não ser um caso isolado, dentro ou fora do esporte.

As Bruxas do Oriente

Se por um lado a discussão é relevante ainda hoje — além do fato de Faraut conseguir dar a ela uma roupagem dinâmica e inventiva — As Bruxas do Oriente peca por não sustentar-se totalmente durante seus 100 minutos. Há um certo momento que fica a impressão que não há muito mais a se fazer com o documentário, principalmente por não existir espaço para questionamentos — não é como se as vitórias consecutivas pudessem, de alguma forma, justificar os abusos sofridos —, de modo que fica a impressão que o filme poderia ser ainda mais curto. Ou seja, embora o ritmo permaneça bom durante o decorrer do segundo e terceiro atos, a obra acaba pecando pela repetição de uma mensagem já compreendida, embora nunca transmitida completamente pelas protagonistas, que aparentam, em maior ou menor grau, certa satisfação no sacrifício, tendo em vista seus próprios feitos realizados.

Ainda que pudesse ser um pouco mais contido, As Bruxas do Oriente é uma obra bastante interessante pela forma como subverte a própria fórmula documental enquanto toca em uma temática delicada, mas suficientemente universal para ter apelo mesmo junto ao espectador que não tenha muito apreço pelo esporte — ou esportes no geral —, sendo ao mesmo tempo um bom exemplar de documentário, mas também beirando a um eficiente drama esportivo. Neste aspecto, até poderia ir mais além no tempo, abordando a decadência do time, com a primeira derrota após tantas vitórias consecutivas, mas faz uma escolha feliz ao encerrar a obra com as garotas no auge: é uma forma de homenagear o time em seu auge, sem ignorar todo o sangue, suor e lágrimas que as levaram até o topo.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 3 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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