Armugan

 Armugan

Na mitologia grega, existe o conto de Caronte, o barqueiro. Responsável por levar as almas através do rio Estige e exigindo, em troca, o pagamento de uma moeda, que geralmente era depositada sobre os olhos ou a boca do corpo antes de seu sepultamento. É engraçado como, à sua própria maneira, Armugan remeta a esta história, com o personagem-título vivido por Íñigo Martínez funcionando como uma espécie de Caronte, indo até os aqueles que estão à beira da morte e realizando uma tipo de cerimônia, como se tentando assegurar uma travessia segura para o além vida. Entretanto, apesar de ser algo bastante interessante, o diretor Jo Sol não se aprofunda na parte ritualística, depositando seu interesse muito mais na construção da relação entre Armugan e Anchel (Gonzalo Cunill), quase um escudeiro do personagem-título.

Com uma obra quase completamente sem falas, é admirável que o diretor construa uma relação tão sólida de mestre-aprendiz apenas através de olhares e das interações não-verbais entre ambos. A humanidade contida em Armugan é palpável e ainda é magistralmente elevada pela trilha sonora de ares oníricos — que veste bem a “profissão” de Armugan — e também pela fotografia preto e branco dotada de um contraste bastante significativo, quase deixando que o próprio filme permaneça em um estado menos vívido, mas nunca retirando-lhe a alma. É um trabalho artístico significativo para a narrativa contada e funciona por Jo Sol saber empregá-la como um recurso que exalta as características mais humanas, em vez de apenas como uma estética bonita, erro fácil de cair ao trabalhar com uma cinematografia tão estilizada quanto a preto-e-branco.

Armugan

Essa construção é necessária para que um conflito silencioso no decorrer do filme. Nota-se, por exemplo, uma troca de olhares significativa entre Armugan e Anchel quando um pedido controverso chega à eles. Não cabe entrar em spoilers aqui, mas enquanto o primeiro é resistente, pois o que lhe foi pedido não é permitido segundo seus próprios princípios, a súplica bate forte no segundo, que por um instante parece desligado do que está se passando. Ainda que o espectador não esteja com a dupla por anos a fio, o diretor consegue realizar tamanha construção que em pouco menos de uma hora já é possível entender as reações de ambos diante do momento, principalmente no que tange à visão mais sensível de mundo que Anchel demonstra possuir, algo já explicitado pela forma respeitosa que ele trata seu mestre, dando-lhe banho e carregando-lhe montanha acima, mas principalmente em um tocante momento em que ele guia Armugan através de um tipo de meditação.

Parte do público possivelmente irá enxergar um viés bastante espiritual em Armugan, que a obra respeitosamente não confirma ou renega. A possibilidade de interpretação, entretanto, não é tão gratuita quanto possa parecer e não existe apenas pela profissão de Armugan no que tange ao pós-vida, já que o personagem demonstra ter muita fé no que faz. Não há necessidade de buscar debater seu ponto de vista, aplicá-lo ou defini-lo de forma concreta, mas apenas aceitá-lo como um fator suficientemente relevante para que ele consiga, através de sua própria crença, levar paz a quem precisa. Ao mesmo tempo, Jo Sol cria um bom número de planos abertos que mostra o lugar onde a dupla mora, estabelecendo uma atmosfera semelhante a de um templo onde vivem monges, o que permite uma leitura menos direcionada a uma religião ocidental. Esse desenvolvimento acaba criando uma espécie de “não-lugar” que ressalta a falta de importância sobre a crença de Armugan. Não é relevante, para o espectador, saber no que ele deposita sua fé, mas sim que ele possua tamanha fé.

Armugan

Os planos abertos que se aproveitam tão bem dos belíssimos cenários da obra contrastam com alguns closes que o diretor dá no rosto de seus personagens, principalmente os secundários, evidenciando a importância do trabalho realizado por Armugan. Tanto no momento em que as pessoas mostram-se apaziguadas pela partida de seus entes queridos ocorrerem em paz, quanto no momento das súplicas desesperadas pela personagem que surge no segundo ato. Este intimismo proposto por Jo Sol soa bastante poético, mostrando o impacto imensurável em algo tão pequeno e mundano — a vida, a morte —, realizado por um homem cujo corpo lhe traz limitações, mas cuja mente vai além de todos os outros moradores do vilarejo. Sutilezas que elevam a dramaticidade da obra, que à certa altura, trafega entre um estilo documental — com uma câmera na mão que parece se emocionar junto dos atores — e um tom mais fantástico com facilidade.

Com tamanha densidade, Armugan deve encantar o espectador que estiver mais disposto a embarcar em sua narrativa lenta, mas muito bem construída. A primeira meia hora é, sem dúvidas, a mais devagar, por dedicar-se na construção dos protagonistas mostrando sua rotina, sem pressa de prosseguir com a narrativa. Aqueles que conseguirem ultrapassar esse tempo, irão se deparar com uma obra que esbanja beleza, tanto em sua temática quanto em sua estética, e que provavelmente ficarão hipnotizados até o surgimentos dos créditos finais, que complementando o que veio antes, surgem em tela também esbanjando poesia.

Filme visto online durante o 45º Mostra de Cinema de São Paulo em outubro de 2021.

Avaliação: 4 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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