Amor Garantido

 Amor Garantido

Comédias românticas são quase um contrato não-formalizado entre Hollywood e o público. Todas as partes sabem como tudo irá se desenrolar, mas mesmo assim topam embarcar em tramas que, basicamente, já foram revisitadas à exaustão. Logo, criticar Amor Garantido (Love, Guaranteed) pela existência de seus clichês não seria a forma mais justa — seria o equivalente à criticar uma comédia por ter piadas ou um terror por dar sustos —, embora seja impossível ignorar a forma como o diretor Mark Steven Johnson os utilizou em uma obra que resume-se a ser carismática.

O roteiro da dupla Hilary Galanoy e Elizabeth Hackett — cujo currículo aparentemente é formado apenas por comédias românticas — foca na advogada Susan (Rachael Leigh Cook) que passa a trabalhar no caso de Nick (Damon Wayans Jr.), um usuário de um aplicativo de namoro que garante que o amor pode ser encontrado “em até 1000 encontros” e está processando o site em questão por não ter encontrado sua cara metade enquanto beira o número estipulado nas letras miúdas do site.

Amor Garantido

Sim, você já viu essa história e só por essa rápida sinopse é possível identificar os traços de ambos os personagens facilmente: ela é uma workaholic nata, que vive para o trabalho, embora possua um bom coração, o que faz com que ela advogue gratuitamente em casos justos, o que está levando sua empresa à falência. Ele é um romântico inveterado, charmoso e de boa índole, além de possuir uma boa fortuna à disposição, é claro. Tais arquétipos são levados à enésima potência de modo que, apesar da dupla não combinar de cara, o público saiba — pelo próprio gênero da obra — que ficarão juntos. Sequer é possível alegar um spoiler disso. E claro, não podemos esquecer da vilã extremamente caricata interpretada por Heather Graham.

Entretanto, é a forma como Steven Johnson conduz o texto que chama atenção. Diálogos que não necessariamente são expositivos constroem a personalidade dos personagens aos poucos, assim como algumas cenas-chave — a cena inicial entrega que Susan é uma ótima advogada, mas o momento seguinte mostrando o estado do seu carro deixa claro que sua situação financeira não vai bem — contribuem. Assim como Amor Garantido não perde tempo para ressaltar as inúmeras qualidades de Nick, de forma quase exagerada. Ele é simpático logo em sua cena inicial, carismático com todos a seu redor. Também tem grana. E senso de humor. E ele é um médico. Voluntário, claro. Quer genuinamente fazer o bem… Aqui, não satisfeito em usar um clichê, o filme o transborda a ponto de quase atrapalhar a credibilidade do roteiro. Afinal, fica difícil acreditar que em mil encontros, ninguém se apaixonou pelo rapaz.

Amor Garantido

Apesar dos exageros, a trama tem seus méritos. A montagem, por exemplo, é um dos aspectos mais interessantes, pelo menos no terço inicial quando Susan e Nick ainda estão se conhecendo e preparando o caso. Fora a ótima química entre Wayans Jr. e Leigh Cook — o elenco inteiro soa bem confortável, aliás —, a sequência que Susan vai atrás de algumas das garotas com que ele saiu é bastante divertido, principalmente pelas cenas alternadas dela própria vivendo alguns encontros frustrados pelo uso do aplicativo. Fora a boa gag de Friends, onde a personagem critica os apelidos que ele dá para as garotas, afirmando que ele não pode “dar nomes como se elas fossem episódios de Friends”. Tudo isso, entretanto, fica um pouco de lado conforme a dupla se aproxima, com o longa assumindo um tom mais casual do gênero, somente trazendo este lado visualmente mais inspirado nos minutos finais. Literalmente.

Não é difícil imaginar as resoluções possíveis para tal narrativa e não fosse a forma como o diretor e a dupla de roteiristas resolveram encerrar a história, Amor Garantido poderia até render uma obra interessante. Previsível, é claro, mas ainda interessante. Entretanto, a sensação que fica ao final do filme é que os envolvidos simplesmente resolveram abraçar a resolução mais óbvia possível e encerrar a trama como qualquer espectador deve ter suspeitado — sem nem pensar muito sobre — logo no início. De tal forma que, se o filme pelo menos seguiu como um confort movie razoável por boa parte da duração, é praticamente impossível terminá-lo sem se sentir pelo menos um pouco frustrado. E do pior jeito possível.

Avaliação: 2 de 5.

Adam William

"Os filmes existem, é por isso que eu assisto!" Não é exatamente um "crítico de cinema", mas curte o termo "Filmmelier". Sonha em crescer e ser o Homem-Aranha um dia. Acredita que a vida não é sobre o quão forte bate, mas o quanto se aguenta apanhar. Mestre Pokémon, Sonserino e assíduo visitante da Terra Média.

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